Todxs Nós: 1ª temporada - CRÍTICA

Uma série plural, de todxs, sobre muit@s



Você sabe o que é uma pessoa não-binária? 
É uma pessoa cuja identidade de gênero, ou expressão desse gênero, não está limitada às definições de masculino ou feminino. Algumas podem sentir que seu gênero está “em algum lugar entre homem e mulher” ou que é totalmente diferente dos dois pólos.
Informação importante e altamente necessária para entender tudo o que encontramos em Todxs Nós, série da HBO, que chegou ao final em sua primeira temporada! 
A produção traz consigo um trio de personagens que são uma expressão natural, dinâmica e real de diversos acontecimentos do dia a dia. Permeando caminhos que vão das questões de gênero ao papel da mulher na sociedade, de família à racismo, de preconceito empregado de forma violenta até mesmo ao descompromisso com o sexo, ainda sobrando tempo para tocar Glória Groove!
E se você não viu, precisa e se quer saber mais, continue lendo!

Rafa decide ir para São Paulo, saindo do interior do estado e do controle do pai, para morar com o primo Vini e de sua colega de apartamento, Maia. Até aí algo corriqueiro, mas Rafa é não-binária, não se identifica com os gêneros impostos pela sociedade, uma das principais razões para sair de perto dos familiares que não entendem. Assim, o trio passa a conviver e cruzar seus caminhos por diferentes situações, trazendo uma visão sobre como as pessoas a nossa volta enxergam tamanha pluralidade, seja quando um homem gay entra em conflito consigo mesmo, uma pessoa não-binária se descobre ou uma mulher precisa se impor contra o machismo do cotidiano! É tudo sobre Todxs Nós!

Uma produção Plural

Dirigida e roteirizada por Daniel Ribeiro (Café com Leite, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho) e tendo Vera Egito (Amores Urbanos, Serra Pelada) na direção-geral e também na construção narrativa, a pluralidade da obra é sentida logo no primeiro capítulo de sua temporada inicial.
Todo o cuidado e dedicação se fazem presentes nos pequenos detalhes, desde a forma como os diálogos são trabalhados até mesmo nos mecanismos linguísticos usados, que acentuam as questões de gênero, principalmente ao tratar pronomes de forma neutra (Algo que demanda muita dedicação dentro língua portuguesa na hora da fala). Assim, essa construção de elementos vai quebrando paradigmas e até mesmo possíveis estereótipos que possam surgir para atrapalhar, ou que já vimos de outras produções. Neste caso, por se tratar de algo realizado em nossas terras, a direção emprega muito da forma como os jovens se portam, pensam, tornando as situações que acontecem um festival de emoções
Isso faz com que se estabeleça em alguns momentos uma relação de múltiplos sentimentos para com o trio de personagens principais, trazendo então um conceito de que mesmo vivendo dentro de minorias, aquelas personas não estão isentas de erros e falhas. O que aumenta ainda mais a empatia quando cada um deles passa por arcos onde são desconstruídos dentro de sua própria trajetória. Seja num término de namoro, numa demissão ou até mesmo numa angustiante cena de agressão física oriunda do preconceito existente na sociedade.
Desta forma, além do trabalho de direção da obra ser competente, mesclado em uma edição ágil e uma fotografia que acentua as emoções na paleta de cores, os protagonistas conseguem cativar o seu público os transportando cada vez mais para aquela narrativa. Vini, interpretado por Kelner Macêdo, é uma figura que aos poucos vai ganhando nuances diferentes do que se espera, abrindo oportunidade para conhecer mais camadas do personagens que certamente irão trazer identificações. Rafa, que ganha vida através de Clara Gallo, exibe uma despreocupação atrelada a um forte senso de aceitação interno e externo, entregando em sua atuação sinceridade e o peso de certos apontamentos de outrem. Já Maia, que fica a cargo de Juliana Gerais, vê seu discurso se moldando ao passo que ela mesma passa a enxergar certos pontos da vida e as lutas as quais escolhe lutar com intensidade.
São essas três partes de um conjunto que tornam esta produção algo que vai além de um simples programa "panfletário" e de "militância", como alguns podem taxar por aí!




A vida de muit@s em tela

Em seu último episódio, no momento onde os personagens se encontram em um hospital, diante da situação em que estava Rafa após um espancamento, o pai tenta convencer sue filhe de retornar para cidade onde moram, logo uma enfermeira adentra o quarto pedindo para que Rafa confirme seu nome. Uma breve discussão se instaura novamente envolvendo o gênero e temos a seguinte frase sendo dita: 

"Apanhar na rua e a apanhar do desrespeito de vocês..."
Se até este momento o espectador mais atento não havia percebido o teor do texto de Todxs Nós, recomendamos retornar e reassistir a temporada completa! 
Através de exemplos, apelando às vezes para um didatismo (necessário nos dias atuais com algumas pessoas), o roteiro desde o começo apresenta uma verdadeira lição sobre retirar do local o que sempre se manteve como correto, absoluto e normativo. Logicamente que este processo de desconstrução não acontece apenas por conta de discursos empregados com competência pelos protagonistas, suas atitudes e a forma como são "testados" por suas próprias falas deixam ainda mais interessante essa jornada de amadurecimento e descobertas. Pois sim, cada um deles está passando por algo e que precisa ser encontrado para então dar os próximos passos. Se para Maia enfrentar ambientes onde ser mulher e negra se tornam cada vez mais complexos e segregadores, sua luta se expande para que venhamos a entender a gravidade de certas posições culturais ainda existentes. Para Rafa, estabelerce-se como pessoa é fundamental, diante do pai, dos amigos e consigo mesme, mostrando que ainda vale a pena resistir em várias instâncias. E Vini adentra uma trajetória de reencontro, com seus talentos, com aquilo que sabe e pretende fazer, deixando de lado certas convenções que nos obrigam a escolhas ou relacionamentos.
É a vida de muitxs pessoas em tela!
Por isso, a narrativa da produção traça uma linha interessante entre a ignorância, disfarçada de conservadorismo, e o preconceito, estabelecido aqui através da violência, seja ela verbal ou física, mostrando então que todos esses atos de transformação precisam e podem ser alcançados, contudo dependendo de quem os realiza. A representatividade da série não está apenas na escolha de seus personagens, na forma como usam as expressões ou os lugares que frequentam, está justamente em encontrar elementos que cruzam com as histórias reais que certamente alguém já viu, já nos disse, ou que passamos. Talvez você não, mas alguém próximo já foi discriminado. Talvez você não, mas alguém próximo já sofreu assédio ou foi agredido pelo simples fato de ser quem é!
E ao revelar essa natureza, Todxs Nós, mostra a força daqueles em permanecer dentro de sua construção de personalidade, caráter e persona, ainda que do lado de fora se diga oposto!
Junte a isso então, uma boa dose de humor quando durante toda essa construção o trio também precisa entender o que o outro está fazendo, rendendo sequências cômicas, de vergonha alheia e principalmente, de amizade que qualquer um gostaria de desfrutar em algum momento. E já que estamos falando de jovens, há uma bela dose de sexo, romance e liberdade dos seus sentidos!



Todxs Nós é uma produção necessária em tempos onde pessoas se levantam com bandeiras cada vez mais autoritárias, pintadas com letras que expressam o ódio, por aquilo que nunca se deram o trabalhar de ler a respeito! Contudo, de um jeito quase que "pedagógico bondoso" (Paulo Freire, um beijo), transmite seriedade, naturalidade e dinamismo ao estabelecer discussões que não irão se perder em falas prontas ou criadas por estereótipos, que se repetem em outras produções que tentam falar dos mesmos assuntos. Aqui encontramos criatividade, pluralidade e sinceridade que vão das atuações aos detalhes técnicos, do texto à trilha sonora, dos momentos de carinho até às discussões mais intensas. 
E logicamente, sem perder o nosso bom humor brasileiro de costume.
Rafa, Vini e Maia são aqueles três amigos que certamente você sabe que possui, que você gostaria de dividir um apartamento ou simplesmente, sair para aglomerar novamente, pois assim como você, eles também estão aprendendo, e nessa trajetória, nada melhor que todos, todas, todxs, tod@s, estejam juntos. 
É literalmente uma aula sobre não soltar a mão de ninguém!

Todxs Nós está disponível também na HBO GO!
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