Âmago - REVIEW

Uma mistura de elementos em um contexto assustador


O que realmente pode amedrontar?
O que realmente pode ser usado para causar pânico?
O que realmente te assusta?
São três perguntas que até podem ser fáceis de responder, ou nem tanto, dependendo da situação, do contexto e de quem as ouve! Porém, e quando você não tem mais soluções, onde o que ocorre a sua volta se torna tão pior quanto seu maior pesadelo, será que haveria capacidade de invocar aquilo que tanto se mantém a distância como uma última forma de esperança?
Muitas dúvidas, muitos questionamentos, mas uma certeza nós temos, que Âmago, curta-metragem da Das Ruas Produções, que está disponível gratuitamente, trabalha essas nuances dentro de uma atmosfera de terror que evoca os clássicos do gênero, com um mistério que consegue envolver até o mais desatento espectador!
Prontos para alguns sustos?

Uma mulher acorda completamente ensanguentada no chão de sua sala e sua primeira reação é ir até a filha que está no outro quarto, inconsciente. 
Contudo, para chegarmos até esse momento da história é preciso saber que a pequena Yasmin estava em seu limite. Observando os abusos e violência sofridos pela mãe, através do padrasto, que também a tratava da mesma forma, ela encontra refúgio em um velho toca fitas que resultará na descoberta de outro objeto, traçando uma linha tênue entre o bem e o mal, e as forças que nos cercam nas horas que mais precisamos!
Ainda que sejam aterradoras!

Do clássico ao novo, da lenda urbana ao sobrenatural

Dirigido por Leo Miguel, a produção, com pouco mais de 19 minutos, mergulha em diferentes segmentos do terror para contextualizar, informar e aproximar o espectador de todos os fatos que a narrativa pretende contar. Isso se dá pelo exímio trabalho de direção que consegue utilizar uma edição que pontualmente vai entregando cada segmento até o clímax derradeiro e esperado de obras do gênero. Desta forma, as sequências de abuso, xingamentos, violência vão ganhando cada vez mais intensidade, tornando toda experiência sufocante e incômoda, começando então a trabalhar em nós o sentimento de justiça pelas personagens que sofrem os abusos. Ao mesmo tempo, com uma fotografia que intensifica os ambientes escuros, criando uma atmosfera pesarosa e triste, cria-se uma união aos sentimentos da protagonista, nos revelando através dos olhares o que tanto deseja que acabe!

Essa construção textual e imagética se torna ainda mais sólida quando os elementos sobrenaturais começam a surgir em tela. Brincando com aquelas velhas lendas que conhecemos, com personagens que já ouvimos falar e histórias que certa vez nos contaram. Seja através de um toca fitas e suas músicas, seja sobre uma família que morreu misteriosamente em um incêndio ou um livro que jamais deveria ser lido. 
Nesse jogo narrativo, o roteiro se apropria da liberdade de nos mesclar os horrores de uma vida cercada pela violência, pelo sexismo e o quanto isso vai moldando as nossas escolhas de comportamento. Algo evidente em uma cena onde Yasmin (Interpretada pela jovem talentosa Carolina Iecker), antes de ser espancada pelo padrasto está em seu "refúgio" no quarto, único local onde se sente segura, mesmo que saiba que um "monstro" está a espreita, esperando o seu primeiro movimento.



E quem é o Monstro?

Logo, quando o auge de todo aquele ambiente violento e agressivo é atingido, não restam dúvidas de que seria o momento exato para o sobrenatural tomar conta. 
Existem advertências populares que nos incitam a nunca mexer com aquilo que não podemos controlar, sejam as forças divinas, sejam as forças da natureza ou de qualquer crença existente. Assim, ao chegarmos ao âmago desta narrativa, tais convenções se tornam nulas, justamente em prol da vida daqueles que precisam se sentir seguros e ver o fim de algo tão pior quanto um pesadelo, pois neste caso sabemos que irá ter o fim. A dualidade nisso tudo está em quem era o real monstro desta história! 
O que nos leva a pensar:
Quem era o ser capaz de causar maior repulsa e medo em todo ambiente familiar?
E de onde houve coragem para intervir?
Novas perguntas que são respondidas através de uma justiça sangrenta, fantasmagórica e visceral, bem executada através de efeitos práticos!

Por que você deveria assistir?

Âmago faz parte dessa nova leva de filmes de terror brasileiros, que circundam diversas temáticas da sociedade para trazer o horror real e místico dentro de um contexto que irá nos causar empatia. Com uma direção que sabe ousar e usar boas referências do gênero, cria uma narrativa que cativa, revolta e faz o público desejar um desfecho que ao menos faça todo o sofrimento cessar! Ainda que o entregue de uma maneira mais aterradora!
Se os monstros da realidade são tão assustadores do que aqueles que encontramos no cinema, o curta-metragem consegue o feito de unir essas duas facetas em uma estrutura que certamente irá causar arrepios e ao mesmo tempos nos fazer refletir sobre onde está o verdadeiro mal encarnado.
Dizem por aí, que o inferno são os outros!

Você pode assistir Âmago, clicando aqui!
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