Nada Ortodoxa - CRÍTICA

Em quatro episódios, a produção da Netflix consegue impactar de uma maneira única


Sentir-se preso à algo é uma das sensações mais terríveis para o ser humano.
Não poder tomar suas decisões, não poder falar da maneira que gostaria, não poder vivenciar as experiências que tanto ajudariam em seu crescimento, se tornam ações do cotidiano privando cada vez mais a personalidade de alguém. Assim, nesta minissérie em quatro episódios, conhecemos a história de Esther, uma judia ortodoxa, que um dia decide sair em busca daquilo que a vida tem para oferecer e após sentir na pele toda a clausura da religião, as experiências serão tão libertadoras quanto emocionantes. Tanto para personagem, quanto para quem assiste.
Prepare o lenço!

Esther é um jovem judia ortodoxa que mora no Brooklyn, mas distante de tudo que a cidade possa oferecer. Já que sua comunidade, ultra-religiosa, trata as mulheres apenas como aquelas que precisam engravidar. Um dia Esther decide mudar sua vida, fugindo então para Berlim, onde começará uma nova jornada, contudo os chefes das leis do seu povo farão de tudo para persegui-la e trazê-la de volta para o lugar de origem.

A diretora Maria Schrader comanda a produção adaptando o livro de memórias de Deborah Feldman“Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots”, fazendo com que a jornada de liberdade aconteça de uma maneira simples e altamente emocionante.
A obra, que possui quatro capítulos, se concentra em mostrar os acontecimentos que levaram Esther a tomar a decisão de fugir de sua comunidade Judaica, ao mesmo tempo que vai nos revelando os desafios que ela precisa enfrentar nesta nova vida na Alemanha. Para isso, o uso dos flashbacks é um grande atrativo, pois a cada lembrança da protagonista, a produção ganha novas nuances indo do drama aos momentos de alegria. 
Nessa construção, o design de produção, fotografia, figurinos e maquiagem saltam aos olhos por conta do realismo e da fidelidade ao retratar a cultura de um povo. Desde os ambientes, as roupas, os adereços e perucas, tudo foi minuciosamente realizado para dar ainda mais proximidade ao público de uma cultura desconhecida por muitos. Junto a isso, o cuidado da equipe técnica também se faz presente nos diálogos, onde o Iídiche é falado constantemente entregando ainda mais autenticidade para as sequências.
E muito disso se deve ao trabalho da direção com seus atores, principalmente Shira Haas, que dá vida à Esther de uma maneira pura, forte e ao mesmo tempo temerosa de como irá traçar a sua jornada longe de tudo aquilo que conheceu. Não há como não se emocionar, sentir a dor, a alegria e o sentimento de paz transmitido em sua atuação quando tudo se estabelece de certa forma ou quando ela solta sua voz pela primeira vez!


Paz, liberdade e experiências!
Três elementos que podem andar juntos, mas que na narrativa de Esther estavam distantes até sua fuga para literalmente encontrar o próprio destino.
Quando damos início a série a história parece ser mais uma sobre alguém tentando encontrar o seu lugar no mundo de alguma forma, porém à medida que os detalhes, a cultura, as tradições que cercam e prendem a protagonista surgem, entendemos que há muito mais no texto.
Desde o jeito sexista e misógino que as mulheres são tradadas até a forma como sua presença se resume a cuidar da casa, engravidar, cuidar dos filhos e engravidar novamente, passamos a sentir uma atmosfera sufocante, triste e completamente degradante na vida de Esther. E ao se opor a tudo isso, esse rompimento causa situações onde sentir-se livre pode ir do momento onde o seu cabelo natural pode ser mostrado até um banho em um lago. 
As pequenas situações do dia a dia, que para nós podem ser normais, se tornam um atrativo aos olhos da protagonista e uma mudança de pensamento no espectador ao entender que existem muitas pessoas cuja liberdade é tirada todos os dias, seja por conta de casamentos arranjados, uma religião ultra-conservadora ou costumes que nascem arraigados àquelas pessoas.
Logo, Esther se torna um símbolo de como a mudança pode acontecer a partir de uma decisão própria, que requer coragem, determinação e um toque de medo, funcionando como impulsionador para que novas atitudes de firmeza possam vir acontecer, enfrentando barreiras culturais e até mesmo os que querem a aprisionar novamente. 

Nada Ortodoxa é uma minissérie que irá dialogar muito com o papel da mulher na sociedade, com as culturas que a cercam e principalmente na luta por aquilo que realmente se deseja ser.
Com uma equipe técnica que faz um trabalho exímio, desde a direção até o figuro, a construção da produção cuida de cada detalhe para dar veracidade e tornar autêntico cada momento em que conhecemos costumes tão diferentes.
Indo da felicidade às lágrimas, a jornada de Esther nos mostra que existe dentro de cada um o desejo por liberdade, paz e novas experiências, ainda que existam "prisões" materializadas através de dogmas e conceitos previamente estabelecidos, há dentro de cada um o anseio por romper ou neste caso, uma canção que serve como hino de soltura para todos os sentimentos guardados!
Lembra do lenço? É melhor pegar!

Nada Ortodoxa está disponível na Netflix!
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