La Casa de Papel: Parte 4 - CRÍTICA


Palermo, isto é uma guerra. Aja de acordo.

Nada pode estar tão ruim que não possa piorar. E é exatamente isso que La Casa de Papel provou ao final da sua Parte 3 onde o grupo de assaltantes, os nossos amados Dalís vermelhos, se envolveram num assalto muito maior e mais complexo do que o da Casa da Moeda. O desafio agora é roubar o ouro do Banco da Espanha, desafio esse que testa os limites dos personagens. Não bastasse toda a dificuldade encontrada pelo grupo em executar mais um plano genial conduzido pelo Professor (Álvaro Morte), porém dessa vez criado por Berlim (R.I.P.) (Pedero Alonso) antes de sua morte, temos agora um grande inimigo dentro do próprio grupo. Palermo (Rodrigo de La Serna) vai ser o responsável direto pela maior emboscada que o grupo se mete nessa parte da série.

Palermo, é aqui o oposto de Berlim. Pois é o primeiro antagonista que surge em meio ao caos instaurado dentro do banco, tornando-se aquele personagem odiável que só conseguimos odiar mais, diferente de Berlim que mesmo com sua dureza, conseguiu ganhar a simpatia do público. Porém uma coisa é certa, Palermo é a mente mais brilhante dentro da estratégia do assalto entre os integrantes do grupo que estão dentro do banco. Em seu momento de loucura onde é deposto por Tóquio que assume então o comando, Rodrigo de La Serna entrega a melhor atuação da temporada na forma de um personagem louco e imprevisível.

O verdadeiro caos, querido Sergio, não faz barulho.

E foi em meio a esse silêncio que o caos ameaçava o plano, tornando o sucesso cada vez mais distante. Toda loucura e imprevisibilidade de Palermo faz nascer na história o maior inimigo ou “agente do caos”, como ele prefere chamar. Gandia (José Manuel Poga), chefe de segurança do banco, de forma bem inesperada coloca o grupo em uma dificuldade muito maior que o roubo em si. Sua crueldade e tensão causada na série tornam-no o maior vilão da temporada.

Gandia aos cuidados de Helsinki (nosso ursão favorito).
Por falar em vilões, a inspetora Alicia (Najwa Nimri) ainda não tinha me convencido como personagem antagonista, certos trejeitos e expressões soavam muito forçadas até então, porém, aos poucos ela começa a mostrar sua necessidade de estar na série e seus embates ao fazer o interrogatório de Raquel/Lisboa (Itziar Ituño) rendem sua melhor participação na trama além de nos entregar diálogos cheios de dramas psicológicos.

Lisboa e Alicia em seus melhores embates.
Uma coisa que me causava um certo incômodo era o fato de muitas emboscadas e até mesmo escapadas serem um tanto previsíveis nas duas primeiras partes da série. Por mais empolgantes que esses acontecimentos fossem, a forma como eram executados deixavam o roteiro cheio de furos e pobre. Agora, podemos dar um enorme crédito aos escritores pois a parte 4 nos entrega os melhores e imprevisíveis plot twists. A genialidade do Professor ultrapassa aqui todas as barreiras e faz com que os personagens mais fortes cedam e entrem em colapso, colocando o grupo em mais vantagem ainda.

As trocas de ameaças e mira de armas entre os assaltantes continuam, sem dúvidas, elas rendem as melhores cenas de conflitos entre os personagens. Se mesmo com isso acontecendo nas temporadas passadas tínhamos um grupo unido, agora temos mais desentendimentos e alguns rompimentos. Entretanto, não é com as armas, tiros e emboscadas que a série se vende, mas pela força do enredo dessa temporada, certamente, nada melhorou mais na série com o passar das temporadas, do que seu roteiro.

Se me permitem um conselho, não se apaixonem durante um assalto. Dá azar.

E por que não dizer que foi o amor ou as consequências dele o que colocou o grupo nessa confusão toda? Não só amor de Tóquio (Úrsula Corberó) por Rio (Miguel Herrán) - que inclusive motivou o novo assalto - como as relações amorosas de outros integrantes do grupo que sucederam em problemas pros mesmos. Os flashbacks dos momentos anteriores ao assalto continuam aparecendo, porém não se estendendo muito como nas temporadas passadas. Esses flashes vêm agora pra justificar toda a loucura e os ânimos que os personagens se encontram após suas frustrações. Particularmente, adoro vê-los, em especial por manterem as aparições e carisma de Berlim presentes na série.

Rio, Estocolmo e Denver em uma das cenas delicadas da série.
Vemos agora o lado mais vulnerável dos personagens, em especial o do Professor, que mesmo podendo ser considerado como o mais frio e apático diante dos acontecimentos, cai em lágrimas em vários momentos. O que jamais esperamos dele finalmente vem a acontecer, o mesmo perde a cabeça com a chuva de emoções e pressões que agora recaem sobre ele, certamente se deparar com um grande touro furioso logo no início do primeiro episódio foi o menor dos desafios que ele viria enfrentar.

Nairóbi (Alba Flores) se recupera do tiro em seu peito e em meio à dor causada e o estado grave em que se encontra pede para que Tóquio a entregue pra polícia. Após uma cirurgia arriscada e improvisada a personagem fica um pouco ausente durante boa parte da temporada, ausência essa que é compensada por seu retorno icônico “à la Nairobi” (sua entrada no carrinho elétrico na sala da fundição faz jus ao que digo aqui). Essa nova parte traz também a despedida mais dolorosa da história, Nairóbi deixa a série de uma forma devastadora, porém linda e muito digna, com toda a honra merecida por ela (preparem os lencinhos e os ansiolíticos também). A série vai ficar carente da personagem mais carismática e amada que tivemos.

Nairóbi em seu comeback lendário ao lado de Bogotá (Hovik Keuchkerian).
A parte 3 do seriado nos deixou com algumas dúvidas e anseios. Teria sido acertada a decisão da Netflix em lançar mais uma história de roubo do grupo mesmo com o excelente final da primeira? Seriam os roteiristas capazes de criar um enredo tão coerente e brilhante para manter a fórmula do sucesso da série sem que se tornasse patético? E por fim, eles conseguiriam arrumar a confusão e dar um rumo para tudo que parecia perdido ao final da parte 3? A resposta para tudo isso é SIM. A parte 4 veio para colocar todos os devidos “pingos nos is” deixados em aberto pela parte 3, fazendo tudo com a devida maestria para não tornar a série tosca.

O jogo não acaba antes do ‘Game Over’.

Nesse nova parte, a bagunça começa a ser arrumada, e essa arrumação é feita ao melhor forma pois a série nos fez pensar que o plano estava fadado ao fracasso, que ia todo mundo se ferrar da pior maneira e que não deviam ter se metido em mais uma empreitada dessas. Porém, temos agora o melhor da fórmula de La Casa de Papel: os planos, sacadas e previsões feitos antes do assalto que torna tudo tão bem organizado e causam as melhores doses de adrenalina para quem assiste. Dessa vez a produção da série se superou. Ponto positivo também para a direção que entregou takes com altas doses de sensibilidade.

Nairóbi, Palermo, Denver, Helsinki, o Professor, Bogotá, Marselha, Rio e Tóquio.
Com seus clichês e acertos, La Casa de Papel – Parte 4 faz a gente se apaixonar mais ainda por tudo que a série se tornou, e isso justifica muito bem o fato dela ser o maior sucesso da Netflix. A série sabe como cativar seu público tão bem que após uma longa e exaustiva temporada (haja coração e fôlego para tudo o que passou) não causa revolta ao deixar o final em aberto.

Com uma trama mais focada nos personagens o roubo ficou em segundo plano, é agora a missão da parte 5 dar uma conclusão digna com uma trama envolvente e surpreendente como tem sido toda a série até agora. A quinta e sexta temporada já estão confirmadas e em fase de pré-produção, não há data de estreia prevista.
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