Feel Good: 1ª Temporada - CRÍTICA

Porque a vida de uma pessoa LGBTQIA+ nunca será a mesma de uma pessoa hétero


As produções audiovisuais voltadas para contar histórias homoafetivas tendem a basear seus roteiros em fatos que acontecem todo dia na vida de várias pessoas. Gays, lésbicas, trans, bi, passam por situações não mensuradas por quem está na faixa normativa e heterossexual da sociedade e certamente quando estes se deparam com uma obra como Feel Good, talvez não consigam captar o que a história representa para muit@s. Desta forma quando entramos na vida de Mae e George entendemos que os conflitos internos e externos são fruto de uma vida que permeia elementos tão próximos da realidade LGBTQIA+ como aceitação, vergonha e os vícios que servem como válvula de escape para auto-afirmação.
Por isso, neste momento, peço que venha em uma jornada que vai além dos seis episódios!

Mae é uma jovem comediante canadense que mora na Inglaterra, porém sua vida está se ajustando, já que está recuperação por conta de seu vício em drogas. Um dia ela conhece George, uma jovem até então hétero, despertando uma conexão forte entre duas e o romance que logo dará o tom da história. Porém, ambas irão enfrentar diversos conflitos e dilemas já que a vivência de um casal LGBT não é tão simples como possa parecer.

Ally Pankiw é quem comanda a produção que conta com o roteiro escrito também pela protagonista, Mae Martin, baseado em sua vida.
Desde o início percebemos que toda a estética nos leva a acompanhar cada vez mais os passos, os pensamentos e o que acontece com Mae todos os dias. De sua ida até o bar onde se apresenta, aos momentos em casa, a câmera cria situações cada vez mais subjetivas, nos dando muito da percepção da personagem. E logo que George entra em cena, há uma mudança significativa até mesmo nas cores e na iluminação, que aos poucos vão perdendo intensidade à medida que os conflitos do casal, as situações adversas e os questionamentos vão surgindo em tela, tornando a atmosfera mais densa e melancólica.
Ao mesmo tempo, as doses de humor são colocadas justamente para que as situações de atrito ganhem suavidade, ainda que necessitem de total seriedade como no momento em que uma delas está no hospital e temos um "brinquedo sexual", tornando o ocorrido mais fácil de absorver. Esse jogo entre o drama e o cômico, fazem da direção um acerto significativo que auxilia muito a contar uma narrativa que representa muitos e é desconhecida de um todo da sociedade!


A forma como a história de Feel Good é contada talvez cause estranheza e uma falta de entendimento, principalmente naqueles que não passam, não passaram e jamais passarão por nenhuma das situações de Mae e George
Uma pessoa hétero não tem vergonha de mostrar com quem está saindo, uma pessoa hétero não esconde o seu namorado(a) dos familiares e tão pouco tem receio de demonstrar "carinho" em público, uma pessoa hétero nunca precisou admitir que sente atração pelo sexo oposto diante de outros (o famoso Sair do Armário), uma pessoa hétero nunca passou por piadas preconceituosas por conta de sua aparência, trejeitos, uma pessoa hétero não precisa entrar em conflitos com o seu companheiro (a) para que ela tenha atitudes que não demonstrem tanto que eles são um casal e uma pessoa heterossexual pode ter olhado para essa série sem encontrar um traço de empatia!

Todas essas situações acima são vivenciadas pelo casal e, o texto, deixa claro que a tendência é que isso desgaste completamente uma relação. Tornando em determinados momentos uma dependente da outra ou criando barreiras onde segredos são guardados para que o que se tem não seja arrancado!
Sendo mais claro, uma pessoa LGBTQIA+ tem mais dificuldade de desenvolver um relacionamento por incrível pareça, e por mais que haja o pensamento de que todos vivem numa grande orgia. Existem aspectos do passado, da sua construção como pessoa e principalmente, conceitos culturais, que ainda prejudicam e muito que pessoas gays, lésbicas, trans, consigam trazer uma outra pessoa para o seu convívio de maneira mais próxima. E quando ocorre é um aprendizado sobre deixar de lado o que tanto se ouviu para aprender com que é novo. George e Mae representam muito isso, as descobertas, boas e ruins, numa torrencial construção e desconstrução de conceitos estabelecidos por ambas ao longo da vida.
E ao adentrarmos o campo do vício da protagonista, representa, de forma clara e direta um ponto difícil e destrutivo de muitas pessoas:

...52% dos jovens LGBTs admitem que já incorreram em comportamento autodestrutivo; 44% deles já pensou em suicídio; e 42% já buscou auxílio médico para sofrimento psíquico [...] Um estudo recente da LGBT Foundation descobriu que o uso de drogas entre pessoas LGB é sete vezes maior que o da população geral [...]
Dados da ONG Stonewall
Mas por que isso ocorre?

[...] esse é um tipo de vergonha que jogam em nossas costas quando somos crianças, e pela qual continuamos a nos sujeitar. O problema que os homossexuais têm não é sua sexualidade, mas a atitude que a sociedade tem quanto a ela. Faz parte da nossa vivência, de crescer numa sociedade que ainda não aceita completamente a ideia de que as pessoas podem ser algo além de heterossexuais e cisgênero (nascida no gênero físico com o qual você se identifica). Há séculos de ódio e preconceito, e a discriminação legalmente sancionada[...]
Owen Jones (escritor e ativista político) para o jornal The Guardian

Ou seja, Mae representa através de seu vício a válvula de escape para que consiga ao menos estar distante de diversos discursos contrários de quem ela é. Seja dentro da sua própria casa, seja em um relacionamento ou até mesmo em seu trabalho. Encontrar uma forma de fuga é um dos passos que muitas pessoas LGBTQIA+ já deram e muitas vezes sem volta, pois se deposita em algo ou alguém todas as formas de expectativa, aquelas que foram impostas sobre a pessoa e as que ela mesma criou ao longo da vida. Por isso, quando encontramos a protagonista tendo que revelar sua dependência, é perceptível uma "segunda saída do armário", a vulnerabilidade se torna ainda maior e para alguém que já se sentiu atacada por diversas vezes, esta não é uma atitude fácil

Feel Good, em sua primeira temporada, vai do humor ao drama, da comédia aos fatos como eles realmente acontecem para mostrar que um relacionamento homoafetivo jamais poderá ser comparado ao de um casal heterossexual, pelo simples fato de que até mesmo nas produções televisivas e de cinema, encontramos uma grande diferença na quantidade obras que os representam. E eis uma série que representa não apenas o que há de melhor num namoro entre pessoas do mesmo sexo, mas que entrega ao espectador um lado importante das pessoas LGBTQIA+, aquele de construção e desconstrução, que muitas vezes leva a jornadas complexas e de difíceis decisões.
Se você não sente medo ao sair na rua de mão dada com quem se relaciona, talvez essa série não seja pra você! Se você nunca precisou esconder pontos de sua vida para os outros, talvez essa série não seja pra você! Se você nunca encontrou em barreiras para assumir quem é, talvez essa série não seja pra você! Agora, se no seu coração houve empatia por algum momento, situação, fala e até mesmo riso, que alegria em saber disso, pois é o primeiro passo para quebrar um pré-conceito, aquele de que tudo, até mesmo na ficção, pode ser representado da mesma maneira!
Não aqui, nem em Stonewall e nem na vida de várias Maes e Georges por aí!
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