O Poço - CRÍTICA

Em qual nível você está?


Na década de noventa, uma banda de axé chamada As Meninas trouxe no refrão de sua principal música uma reflexão que até hoje pode ser considerada uma verdadeira aula de como a sociedade funciona: "Porque o de cima sobe e o debaixo desce"!
Em 2020, a Netflix consegue criar o feito, quase isolado, de nos entregar um suspense onde essa máxima cantada acima faz todo o sentido, porém indo além do conceito, modificando as posições sociais em uma luta por comida. O Poço, chegou ao serviço de streaming colocando em xeque o que o ser humano é capaz de fazer quando está com fome, quando há poucos recursos e quando o que resta é a violência.
E você, em qual andar está?

Goreng acorda em uma cela revestida por grossas paredes. O seu companheiro, um senhor já de idade, diz que eles estão no 48º nível do Poço, uma prisão onde quem está nos andares acima consegue comer melhor, pois um banquete é servido numa plataforma todo dia e vem descendo desde o 1º nível, logo quem está nos andares abaixo come o que sobrar, ou não. Assim, Goreng tentará quebrar esse sistema, mas para que isso aconteça se deve começar de cima ou de baixo?

Galder Gaztelu-Urrutia é quem comanda a produção que mescla sátira, crítica social e distopia em uma jornada visceral que de antemão precisamos avisar que é para aqueles que possuem estômago forte.
O diretor não economiza para mostrar a deterioração do ser humano, de suas ações e da forma como lida com quem está a sua volta. A palheta de cores auxilia na atmosfera de suspense, ora azulada, ora avermelhada, consegue transmitir a sensação de tensão, medo e angústia a cada nova sequência. E quando é preciso causar repulsa, o filme eleva o nível da violência, da escatologia e do gore, para nos dar uma visão amedrontadora do que pode acontecer quando os recursos se tornam cada vez menores. Junte isso a cenários construídos para também acrescentar o clima claustrofóbico fazendo com que ao passo que os níveis são mostrados, surge o pensamento de que qualquer coisa pode acontecer. Muito disso está na direção do elenco, encabeça por Iván Massagué (O Labirinto do Fauno), que transmite atitudes e reações que vão do controle à insanidade, da empatia à ganância, passando por ações que o levam ao extremo!
E este é um dos elementos principais que o roteiro pretende trabalhar!


As pessoas de cima não vou te ouvir, porque elas estão em cima, óbvio
O texto então irá provocar no espectador inúmeros pensamentos acerca da sociedade, até mesmo dos últimos dias que estamos vivendo. 
Quando somos apresentados ao poço, começamos a entender seu mecanismo, que os primeiros andares comem o tanto que quiser, pois o banquete começa no primeiro nível e ao descer, o que sobra fica disponível pra quem está abaixo e assim por diante, chegando aos últimos níveis sem qualquer alimento, somente com os pratos, jarros e bandejas sobre a plataforma que carrega a comida. Passamos desta forma a observar com aversão as atitudes cometidas e imaginar o que poderia ser feito em uma situação como essa, levando às pessoas que se encontram tão abaixo a cometerem atos desesperados, como o canibalismo!
Mas por que ir tanto no limite?
A resposta é tão simples, porém ao mesmo tempo complexa: Se cada comesse apenas o necessário, todos teriam acesso aos pratos disponíveis! Tão real quanto ficção! 
Logo a produção vai demonstrando que por mais que alguém se coloque a disposição de mudar os sistema presente, existem questões pessoais que podem ainda atrapalhar esse processo, pois no ato de pensar no todo, não se pode esquecer de si mesmo. Tornando os dilemas próximos da realidade e completamente inconclusivos!

O Poço é um suspense que trabalha a visceralidade e a repulsa do espectador tanto na parte estética quanto no roteiro que apresenta inúmeros dilemas discutidos por anos pela sociedade e, deve servir para despertar novos diálogos.
Com uma direção que consegue permear diversos gêneros da sétima arte, abraçando os aspectos distópicos, a crítica social e a sátira, temos uma obra fora da curva da Netflix, realizada com profissionalismo e assertividade dentro da história que quer contar.
Em tempos de Coronavírus, onde supermercados foram "saqueados" pelo desespero egoísta de muitos, talvez essa obra possa trazer um pouco de entendimento às mentes mais ignorantes ou as deixará convictas de que o nível em que estão as faz merecedoras! Mas se algo que o poço nos faz entender é que em algum determinado momento, o nível de todos muda e ninguém pode prever onde estará!

Nota: 4/5 (Ótimo)
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