A Caçada (2020) - CRÍTICA

O bom comportamento de pessoas de bem



O terror é um gênero do cinema que consegue criar sátiras de situações em suas histórias justamente para tentar convencer o espectador de que existe um pensamento real sobre aquilo e que ele deveria por algum instante questionar tudo isso. Lógico que não são todos que irão capturar as ideias logo de primeira, mas certamente algum elemento vai ficar na mente, então despertando algo, nem que seja a opinião sobre a obra assistida.
Desta forma, A Caçada, cria um cenário onde nem todos ali, ou todos (fica a seu critério), tendem a parecer boas pessoas, com boas intenções, fazendo o que é certo por conta daquilo que acreditam e portando o melhor que há do poderio em armas de fogo! É um verdadeiro: Deus acima de tudo e minha pistola dando tiro em todos! Atirando em quem? Em pessoas consideradas não tão "boas" assim!
Qualquer semelhança com realidade não será uma simples coincidência!

12 estranhos acordam em um local, amordaçados, eles encontram armas e as chaves para se soltarem, contudo, assim que o fazem, passam a ser caçados por outras pessoas e um a um se tornam alvos das piores mortes possíveis. Até que Crystal decide reverte esse jogo sádico, saindo a posição de caça, se tornando então algoz de quem tentou matá-la.

Craig Zobel é quem comanda a produção que abraça o terror visualmente, mas consegue dar um tom de "comédia" a diversos momentos da história que pretende contar. 
O diretor não economiza no que é visceral e agressivo, por isso, as mortes são vistas de perto, sangue espirra, miolos estouram, membros são arrancados sem qualquer contensão, justamente para causar no espectador o espanto necessário. De igual modo, ao escolher uma montagem inicial diferenciada, o comando engana completamente a percepção de quem assiste. Você, a primeira vista, entende que aquela pessoa é a protagonista, tem boas intenções e ela morre. Logo, quando outro está ajudando os companheiros, fazendo uma ato bondade, morre. E ao acompanharmos uma terceira personagem que começa a dar indícios de sua vida, morre! Esse jogo cênico é para mostrar algo que o texto irá expressar com muita segurança e cinismo diversas vezes e ao sermos entregues a protagonista, desejamos constantemente a sua vitória. Não que ela seja a melhor das pessoas, mas o apego relacionado ao arquétipo "herói x vilão" sempre irá surgir, gerando uma identificação quase que instantânea.
Junte isso ao excelente trabalho de design de produção e maquiagem, criando situações grotescas e criativas para com os ambientes, cenários e mortes, ao passo que o diretor vai caminhando por entre os subgêneros do terror, a história vai ganhando novas camadas, tentando parecer tudo e nada ao mesmo tempo!


Nada melhor que ir até a mansão e massacrar uma dúzia de deploráveis
O texto em si é um turbilhão de pensamentos sobre tudo o que está a nossa volta! 
Desde o contexto político à cultura, indo até o comportamento que as pessoas passam a ter quando possuem poder suficiente para sobrepujar outras. 
A narrativa que aos poucos nos leva a entender onde estamos, com quem e qual a causa de tudo aquilo estar acontecendo coloca em confronto ideias e, idealismos, que podem levar qualquer lado ao extremo, seja ele expressado através da internet ou com tiros. A grande jogada então do roteiro é pegar essa dicotomia que existe entre Certo e Errado, Bem e Mal, Direita e Esquerda, Classe Dominante e Dominados e subverter, deixando com que todos se coloquem em uma única posição, a de sobrevivência. Ainda que haja a superioridade pairando no ar, por conta daqueles que se veem no direito, de por exemplo, possuir sete armas pela sua defesa e de sua família, a produção mostra que de uma maneira ou outra, o pedestal irá ceder, colocando todos na mesma altura e é aí que veremos as reais atitudes do ser humano! 
E talvez o grande incômodo desse filme seja o forte apelo a indústria bélica, ao porte de armas e a forma como as pessoas são tratadas e por mais que haja um esforço em mostrar que tudo é uma sátira, beirando o "terrir" (mistura de terror com comédia), não há sustentação dessa ideia, tornando certas situações descartáveis, sem base, atrapalhando então o que tanto se espera assistir: o confronto final! Que diga-se de passagem é um dos melhores em anos dentro desse gênero!

A Caçada (2020) é uma mescla de diversos gêneros do cinema para mostrar de um jeito nada convencional que a luta de classes existe há muito tempo, principalmente quando colocamos pessoas que defendem suas ideias de maneira extrema no mesmo lugar
Com uma direção que permeia todos os campos da sétima arte para fazer rir, chocar e criar a tensão na medida certa, o filme se perde um pouco quando tenta ser profundo quando não precisa e quando há necessidade de um momento assim, tudo acontece de maneira abrupta.
O fato é que sempre existirão pessoas que olharão para os demais com um tom de grandeza, pensando que o seu direito vale mais que os outros e cogitando a possibilidade de retira-los deste mundo, para um bem maior. Essa luta fica evidente dentro e fora do cinema, quando um homem mata outro e se sente ofendido ao ter que pegar uma fiança (Como isso fosse uma compensação) ou quando um entregador é atacado pois a pizza do cliente estava atrasada! As duas situações citadas são reais e mostram o quanto a classe superior não maquia suas reais intenções e se puderem, quem está abaixo irá morrer!
Com ou sem caçada!

Nota: 4/5 (Ótimo)
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