Um convite: Emicida em AmarElo - ARTIGO

Ei, você ouviu o novo álbum daquele artistas lá? 


Qual foi a última vez que alguém te fez a pergunta acima? 
E qual foi a última vez que você respondeu positivamente? 
Parece que estamos cada vez com menos tempo e que a ideia de parar e ouvir um álbum inteiro de um artista é impraticável, ao menos que ele seja um grande ídolo, ou esteja em extrema mídia. Então, dedicar uma hora e meia, às vezes duas, para ouvir música? Impossível!

Ao viver em uma sociedade onde "gourmetizaram" a vida escassa e deram título de “rei” para quem estampa SEMTEMPOIRMÃO, perdemos os laços todos os dias com aquilo que mais tem valor para cada um, mergulhamos em meias verdades e às vezes acreditamos em mentiras inteiras, um mundo sem nenhum elo.

Mas ainda bem que existe, AmarElo!

Emicida é uma grande incógnita para a maioria das pessoas, principalmente aquelas que não sabem o que significa um “e aí, irmão, firmeza?”. Ele representa mais do que uma legião de vozes que nunca serão ouvidas, ele é a pura forma da arte de rua, uma responsabilidade que seria pesada para qualquer ser humano, e se tem uma coisa que ele nos conta em AmarElo, é que ele é humano pra caralho.

O álbum se constrói da forma mais "brasileiresca" possível, misturando ritmos, gêneros artistas e humanos. Participações mais que especiais que vão de Fernanda Montenegro à Zeca Pagodinho, Dona Onete à Pabllo Vittar, do pastor Henrique Vieira às Pastoras do Rosário.

Faz exatamente uma semana que este texto saiu dos campos das ideias, as primeiras letras apareceram na tela e o disco em looping ajudando a escrever cada nova palavra, mas parece impossível parar de escrever, cada nova vírgula que é cantada, um novo canto da alma é revelado, o projeto tem tanto para falar, porém sem gritar, sem incomodar, parece que nem quer mesmo atenção, é uma mensagem tão simplesmente complexa que não parece nem ser real.

Acompanhamos o Emicida durante um grande percurso da sua vida, ele sabe disso, e ele poderia maquiar essa sua trajetória criando algumas narrativas ao seu favor, então decide se expor, mostrar sua fragilidade, expor a ferida e mostrar que todo mundo sangra. 
A sua relação com a paternidade, família e a vida adulta são apresentadas de forma tão orgânica e natural, que parece que sempre estivera ali, apenas não tínhamos prestado atenção.


Meu papel aqui, é apenas te convidar, convidar a parar, respirar e olhar para si, dedicar um pedaço da sua rotina para ouvir um álbum, com o encarte nas mãos, acompanhando cada música, sem muitas distrações, afinal:

Vejo a vida passar num instante
Será tempo o bastante que tenho pra viver?
Não sei, não posso saber
Quem segura o dia de amanhã na mão?
Não há quem possa acrescentar um milímetro a cada estação
Então, será tudo em vão? Banal? Sem razão?
Seria, sim seria, se não fosse o amor
O amor cuida com carinho
Respira o outro, cria o elo
O vínculo de todas as cores
Dizem que o amor é amarelo
É certo na incerteza
Socorro no meio da correnteza
Tão simples como um grão de areia
Confunde os poderosos a cada momento
Amor é decisão, atitude
Muito mais que sentimento
Alento, fogueira, amanhecer
O amor perdoa o imperdoável
Resgata a dignidade do ser
É espiritual
Tão carnal quanto angelical
Não tá no dogma ou preso numa religião
É tão antigo quanto a eternidade
Amor é espiritualidade
Latente, potente, preto, poesia
Um ombro na noite quieta
Um colo pra começar o dia
Filho, abrace sua mãe
Pai, perdoe seu filho
Paz, é reparação
Fruto de paz
Paz não se constrói com tiro
Mas eu miro, de frente
A minha fragilidade
Eu não tenho a bolha da proteção
Queria eu guardar tudo que amo
No castelo da minha imaginação
Mas eu vejo a vida passar num instante
Será tempo o bastante que tenho pra viver?
Eu não sei, eu não posso saber
Mas enquanto houver amor, eu mudarei o curso da vida
Farei um altar pra comunhão
Nele, eu serei um com o mundo até ver
O ponto da emancipação
Porque eu descobri o segredo que me faz humano
Já não está mais perdido o elo
O amor é o segredo de tudo
E eu pinto tudo em amarelo

(Principia - part. Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira e Pastoras do Rosário)
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