Os Órfãos - CRÍTICA

Uma chance desperdiçada de causar terror



Em um determinado momento um personagem olha para câmera de maneira suspeita, enquanto que a trilha sonora usa dos graves para fazer um som que nos leve a fica em dúvida do que está acontecendo. 
Esse tipo de construção é um clichê cênico clássico do gênero do terror e suspense, que foi muito usado nos primórdios da sétima arte e aqui soa mais com uma inserção malfeita dentro de uma narrativa que vai se perdendo mesmo que tenha como base um clássico do terror literário.
Assim Os Órfãos se torna uma chance jogada fora do que poderia ser uma produção icônica dentre tantas que nada carregam para causar o pavor proposto.
E este muito ponto foi bem aproveitado pela produção!

Kate é uma jovem professora contratada para cuidar de Flora, uma menina que mora em uma mansão afastada da cidade junto da governanta e do irmão mais velho, Miles. Ao chegar no local, tudo parece bem, mas ao longo dos dias a moça começa a ter contato com manifestações sobrenaturais que levam a atitudes dos irmãos e algo que ocorreu no passado naquele lugar.

Floria Sigismondi é quem dirige a produção que adapta a obra de Henry James, "A Volta do Parafuso" de 1898, mas aqui a década de 90 é usada para contextualizar ambientação e elementos. 
A direção se esforça para criar sequências onde o medo se torna o condutor de tudo, para isso a câmera percorre os corredores e para sempre em ângulos para que vejamos os cenários de maneira ampla. Ao mesmo tempo faz uso de cortes rápidos tentar criar sustos que peguem o espectador de surpresa. Logicamente, atrelado a trilha sonora que usa das habituais ações de diminuir e aumentar o som bruscamente. E por mais que haja uma dedicação em trazer a narrativa original para mais próximo do público, tudo acaba se perdendo em um terceiro ato totalmente desconexo.
A edição deixa de ter o cuidado com o ritmo da obra, realizando transições mal finalizadas além de encaixar cenas que não completam a história de um jeito coeso. 
Da mesma forma na ousada façanha de inovar, o clímax esquece do que foi realizado na literatura, deixando uma sucessão de confusões narrativas em tela e perdendo totalmente aquilo que buscou fazer dentro do gênero do terror!


Você não está protegida deixando as luzes acesas.
O grande problema na produção está em seu roteiro que apresenta diversos elementos que vão sendo esquecidos ao longo da história. 
O real perigo apresentado é revelado praticamente aos quarenta minutos, já dando a entender para a narrativa irá levar sua protagonista, mas nesse caso o filme decide percorrer outro caminho, ainda que use quase todos os pontos do livro de origem. Se um labirinto é mostrado uma vez e parece ter relevância, nunca mais vemos aquele cenário. Se um manequim é assustador, depois de guardado não vemos qualquer uso disso para fomentar o terror. Se as crianças são o ponto crucial para a exposição do mal que existe no local, se elas não existissem, poderíamos ter uma sequência de fatos no mesmo nível. Por mais que a narrativa busque ser relevante dentro do gênero do medo, o escrito de Henry James se torna um plano de fundo que só serve para entregar o cenário principal, já que os fatos ao final não condizem em nada com o original.
O longa então escolhe fazer um jogo textual entre o sobrenatural e a loucura nos últimos minutos, sendo que essa construção não existe (talvez em uma coadjuvante que você nem recorda que apareceu) e que soa mais como uma redação escolar mal acabada, onde o tema principal até podemos encontrar, mas a coesão e coerência estão longe de ser usadas!

Os Órfãos é uma chance desperdiçada, concluída de maneira abrupta e desleixada de realizar uma nova transposição de uma obra clássica do terror. 
Havia no escrito original toda uma atmosfera a ser seguida e os toques de horror psicológicos que poderiam ser explorados. Mas ao usar apenas o que apenas é bom para causar jump scare (extremamente falhos por sinal), a película sequer consegue se fundamentar como produção do gênero!
Ao final, tudo se torna esquecível, sejam as atuações ou a direção, pois ao esperar que o mistério faça jus a proposta inicial, nada aqui justifica sua realização.
Henry James deve estar se revirando no túmulo ou dando outra volta de desgosto!

Nota: 1,5/5 (É... Existe)
Tecnologia do Blogger.