O Irlandês - CRÍTICA

Uma história sobre a finitude de tudo


Taxi Driver de 1976, Os Bons Companheiros de 1990, Gangues de Nova York de 2002, Os Infiltrados de 2006O Lobo de Wall Street de 2013, cinco filmes de Martin Scorsese que expressam o quanto a procura por vivenciar tudo aquilo que se pode através das ações e do poder que se busca, pode deixar qualquer um com um pensamento de uma vida praticamente eterna. 
E esta talvez, seja a temática mais interessante de O Irlandês, a demonstração que todo ciclo, toda jornada, toda história possui um fim. Mas para que venhamos a entender o desfecho é necessário construir as linhas dos fatos no passado, da origem, dos anseios e do envolvimento com tudo, e o modo que tudo se torna impulsionador para construção de uma persona! 
Martin Scorsese refaz o que conhecemos da máfia!

Frank "The Irishman" Sheeran é um sindicalista veterano da Segunda Guerra Mundial, que acaba se tornando um assassino a serviço da máfia. Chegando ao final da vida, o homem passa a pensar sobre as ações que realizou ao longo da vida, as pessoas com quem teve contato e o que esse ambiente fez com aquilo que buscava para si, envolvendo família, amigos e perdas ao longa de sua trajetória.

Martin Scorsese comanda a produção com mais de três horas de duração para trazer a tela, através do serviço de streaming Netflix, uma jornada sobre uma redenção tardia. 
O diretor sabe como conduzir a obra fazendo auto-referências e nos lembrando de clássicos dos gêneros através dos posicionamentos de câmera, dos atores e da forma como até mesmo os objetos em cena são posicionados. O trabalho de design de produção, maquiagem e efeitos visuais é minucioso ao trazer a cada passagem de tempos as características que contextualizam o espectador dentro daquilo que a história quer transmitir. Ao mesmo tempo, um dos grandes trunfos aqui é a montagem da película que constrói de uma maneira quase que cirúrgica as idas e vindas pela narrativa da vida de Frank. Logicamente, o Scorsese usa também de sua trindade mafiosa para fazer com que tudo ali faça sentido e ao mesmo tempo consiga capturar a atenção de quem assiste. Desta forma, Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino demonstram em cena o que tem de melhor em suas carreiras tornando então os acontecimentos uma verdadeira catarse de emoções ao longo de suas presenças em tela.


Era como no exército!
Você seguia ordens, fazia a coisa certa e era recompensado.
A narrativa transforma essa figuras tão conhecidas por suas atuações em seres que possuem sentimentos, falhas e precisam lidar com aquilo que realizado outrora
O interessante aqui é a desconstrução de algo que muitas vezes o diretor já fez em outras obras, dando a suas figuras masculinas uma presença quase que onipotente, onde do seu lugar jamais poderiam ser abaladas quando conquistassem o que tanto queriam. Desta vez, o sentimento de finitude permeia do início ao fim da trama, acrescentando e costurando então fatos, lugares, pessoas que fizeram e fazem parte da vida do protagonista até o instante derradeiro.
Assim, aos que esperam um filme "mais do mesmo" de Scorsese sobre gangsteres e a máfia, pode haver uma certa decepção, pois a trajetória e a forma como as escolhas constroem o seu humano ao longo da vida, são a chave para que o espectador siga fiel até o término da obra. 
Independente se fez pausas, assistiu direto ou separou como se fosse uma série, a experiência apresentada, quando apreciada como uma obra que já nasceu com o selo de clássico, se torna vivaz da maneira como deve ser!

O Irlandês é uma jornada sobre a humanidade de quem certa vez poderia olhar para tudo com uma persona divina, contudo a mortalidade ainda é uma nuance importante para fazer com que se olhe para o passado buscando ao menos projetar o futuro de outra forma. Com uma direção que usa de todo o histórico pessoal e de outros para engrandecer a tela, utilizando também de toda a parte exímia na técnica, Martin Scorsese praticamente conta uma narrativa definitiva sobre a máfia que tanto permeou sua carreira.
Se para alguns a película é praticamente impecável, só resta deixar a conclusão para quem for realmente encarar a jornada da vida de Frank até o final, pois por mais que não pareça, tudo aqui também expressa uma massagem ao ego do diretor, um tapa nas costas que um chefão gangster daria ao final de uma missão cumprida com excelência. 
Neste caso, uma "auto-celebração" peremptória

Nota: 3,5/5 (Muito Bom) 

O Irlandês concorre as seguintes categorias do Oscar 2020:

Melhor Filme
Melhor Ator Coadjuvante - Al Pacino
Melhor Ator Coadjuvante - Joe Pesci
Melhor Diretor 
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Fotografia
Melhor Efeitos Visuais
Melhor Figurino
Melhor Direção de Arte
Melhor Montagem
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