Maria e João: O Conto das Bruxas - CRÍTICA

Toda história possui versões que ainda desconhecemos


Há um fascínio em Hollywood em subverter contos de fadas de sua estrutura convencional em algo mais aventureiro, aterrorizante e até mesmo mais cômico. 
Tais narrativas que permeiam a cultura há séculos são contadas e recontadas diversas vezes, contudo seus principais elementos não são deixados de lado, pois ainda são o atrativo para o espectador.
E se João e Maria já havia ganhado sua versão caça às bruxas, agora, Maria e João, encontram uma casa na floresta, mas aqui nada é o que parece ser, ainda há comida, um lugar aconchegante e uma senhora tomando conta, só que desta vez a magia está mais presente do que nunca, fazendo com que mais uma vez possamos relatar os acontecimentos por um olhar ainda inexplorado.
Por isso, abrace a escuridão nesta história!

Maria e João perderam o pai, já sua mãe não tem condições de sustentá-los, por isso, ao serem expulsos do lar eles precisam encontrar refúgio em outro vilarejo, mas durante a jornada se deparam com uma casa no meio floresta. Lá há comida, bebidas e tudo mais o que precisam, o grande dilema está em sua dona, uma senhora que os acolhe sob o olhar de desconfiança de Maria, que logo descobrirá a verdade sobre tudo o que ocorre naquele lugar!

Oz Perkins comanda a direção dessa nova adaptação do conto dos Irmãos Grimm adentrando a atmosfera de suspense e tensão, muito mais que o terror propriamente dito. 
Pode ser que alguns espectadores estejam indo ao cinema buscando momentos onde o susto tomará conta da tela, mas neste caso o diretor opta por criar um suspense psicológico, que aliado a atmosfera gótica ganha nuances de horror, sem precisar se apoiar em assombros repentinos. 
Mesclando entre o estático da câmera e o subjetivo, principalmente quando os personagens vagam pela floresta, vamos percebendo que a construção de cenário auxilia nessa movimentação, pois a casa da senhora da floresta parece pequena olhando por fora, porém quando a história acontece lá dentro, os ambientes são espaçosos, imponentes, amedrontadores. Isso também se deve a fotografia que capta a essência das desconfianças criando ambientes onde a luz se dá por reflexos na janela, em um tom amarelado, ou deixando o cenário iluminado quando chegamos ao clímax, criando um verdadeiro contraste entre trevas e claridade.
Esse contraste funciona principalmente por conta de suas protagonistas. 
Alice Krige, que dá vida a bruxa da floresta é uma persona que consegue ir da doçura ao bizarro com muita facilidade, se tornando uma figura semelhante a uma mestra do que uma vilã propriamente. Já Sophia Lillis entrega coragem e imponência, da mesma forma que sua personagem demonstra inocência e curiosidade pelo que está em volta, mesclando bem cada um dos sentimentos que Maria precisa transparecer.
Logo, para conseguir que estes elementos funcionem, a adaptação do texto é essencial!


Nós recebemos o mesmo dom. A mesma magia.
Em determinado instante da trama, uma das personagens diz que a história já foi contada várias vezes e talvez nem se lembre de quando ela ouviu pela primeira vez. E como toda e qualquer fábula, à medida que é revisitada por alguém, ganha novas formas de se apresentar!
E desta vez, o que interessa aqui não são os doces, a estilização da casa ou o que aconteceu com outras crianças que adentraram aquele local, o que importa aqui é o quanto se pode mergulhar em algo que pode trazer poder!
E assim a história dá ênfase a Maria, a sua busca por tentar entender o que ocorre e ao mesmo tempo, sua estranha ligação com tudo aquilo. Não é uma história sobre uma garota boa que precisa derrotar uma bruxa má. É sobre uma jovem encontrando seu caminho através de uma mentora nada convencional e perversa, não com ela, mas para que suas reais intenções para com Maria sejam vistas como as melhores.
Assim a construção narrativa do conto toma um caminho "semelhante" a jornada do herói, justamente no ponto se encontra uma pessoa sábia, mais velha, que poderá ensinar o que for preciso para continuar o caminho. Só que desta vez, tudo é regado com sangue, sacrifício e principalmente, a tentativa de afastar as fraquezas que possam atrapalhar!
Entretanto, o texto acaba perdendo qualidade quando insere personagens que não são nem mencionados depois, quando a origem de alguém é contada deixando de lado um ponto principal e quando chegamos no clímax, alguns detalhes sobrenaturais não se encaixam com a forma que tudo foi estabelecido.

Maria e João: O Conto das Bruxas é uma adaptação cheia de personalidade, mistérios e que acaba perdendo credibilidade por conta de uma campanha de marketing que não soube "vender" da maneira correta do que se trata essa produção.
Com uma direção que consegue estabelecer a atmosfera de tensão e suspense, além de conduzir a história a seu favor, seu único problema é inserir certos pontos que não auxiliam o clímax!
Se ao final do conto original a bruxa morre queimada e os irmãos sobrevivem, o que se espera de uma adaptação é um pouco do que tornou essa uma história possível de ser recontada, mesmo que para isso a figura mágica tenha interesses maiores do que a fome e sua vida continue presente através de um poder ainda maior!
E as migalhas de pão no caminho? Não foram necessárias aqui!

Nota: 3,5/5 (Muito Bom)
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