A Vida e o Terror de Zé do Caixão - Especial

Ah, um último favorzinho, se passares pelo céu dê lembranças aos anjos, mas se teu fim for no inferno, dá meu endereço ao diabo...
Zé do Caixão em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver



Para alguns Zé do Caixão é uma figura excêntrica e estranha que surgia nos programas de domingo para participações nada convencionais. Há outros que sequer sabem o que José Mojica Marins realizou no cinema nacional, ignorando sua obra!
Mas o importante é que a trajetória do "Pai do Terror brasileiro" não começou em shows de auditório ou até mesmo programas de comédia aleatórios, sua participação na sétima arte nacional movimentou até mesmo o gênero Marginal e tudo isso sem conhecimentos técnicos para realização das produções que idealizou.
Zé do Caixão foi um dos cineastas mais importantes do país, que infelizmente nos deixou no último dia 19 de fevereiro e por isso, precisamos percorrer sua vida, produções e o terror de uma personalidade pra lá de icônica.

José Mojica Marins nasceu em São Paulo, em março de 1936, e quando criança se apaixonou pela sétima arte graças ao trabalho do pai, que era gerente de um cinema. Contudo, ao ingressar na carreira como cineasta, Mojica não possuía conhecimentos específicos da área, sequer domínio técnico, o que sabia era justamente através do que havia visto nos filmes e também de sua própria criatividade.
As duas primeiras obras do cineasta (A Sina do Aventureiro e Meu Destino em Tuas Mãos) traziam sua estética singular e repleta de um domínio praticamente instintivo do cinema, mas sem o sucesso pretendido com o público. Foi então que em 1964, Mojica adentrou o gênero do terror, trazendo a primeira obra com esse teor realizada no Brasil, A Meia-Noite Levarei Sua Alma.
E sim, temos um clássico do cinema nacional!

Certa noite, ao chegar em casa bem cansado, fui jantar. Em seguida, estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado[...] 
José Mojica Marins


O Sucesso, o cinema e a televisão

Em A Meia-Noite Levarei Sua Alma, Zé do Caixão, ou Josefel Zanatas, é um coveiro que está em busca de uma mulher para ter um filho perfeito e dar continuidade ao seu sangue. Nem que para isso ele tenha que matar diversas vítimas da cidade.
A produção impressiona pela inventividade, pelas soluções cheias de personalidade e pelas escolhas na movimentação de câmera, que vão desde plano-sequência até pontos de vista que se mesclam deixando o espectador a par de tudo que está acontecendo. Sem contar que para realizar a atmosfera de terror necessária, a utilização de efeitos práticos dão um tom assertivo para que o gênero do terror fosse aqui representado com total maestria.
Além disso, a narrativa possuía elementos totalmente subversivos, indo contra a grande onda conservadora da época. Pois Zé do Caixão demonstrava total desprezo pelas convenções estabelecidas pela sociedade, seja através da cultura, do comportamento ou da religião. Sem contar o visual de cartola, roupas pretas e unhas grandes!
O cinema de Mojica é um marco da sétima arte!
Não se tratava de contar apenas histórias que serviriam para assustar, era uma forma de falar sobre traços da humanidade, características peculiares e principalmente provocar aqueles que esperavam o que era convencional.
Isso, tornou a figura ainda mais aterradora dentro e fora das telas! A Meia-Noite Levarei Sua Alma ganhou uma continuação direta em 1967, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver.

Então, Zé do Caixão e Mojica se tornaram praticamente a mesma pessoa!
Pois pra muitos distanciar personagem do cineasta era praticamente impossível, devido a forma com que era encarnado. Suas aparições em programas de televisão se tornaram quase que frequentes nas décadas de oitenta e noventa, a medida que produzia novas obras de terror, algumas sem tanto apelo e sucesso como as anteriores. A figura esbanjava excentricidade por onde passava e sempre possuía uma maldição para soltar, deixando claro que iria acontecer caso não fizessem o que queria! Se tornando uma das marcas do personagem!
E adentrando o espaço da televisão, Zé do Caixão se tornou ainda mais popular. Com o Cine Trash, transmitido pela Bandeirantes, ele conseguiu alcançar o público ao apresentar produções de terror, às vezes de baixo orçamento, usando todas as características que a figura possuía.
O programa fez um grande sucesso na década 90, ficando diversas vezes em primeiro lugar no ibope!

Sua trajetória ao longo dos anos foi marcada por aparições em canais, participações em programas e logicamente, produzindo cada vez mais para o cinema dentro do gênero que o havia consagrado. Ao todo foram mais de 40 produções dirigidas e atuação em outros 50 longas!
Em 2008, Mojica lançou a terceira e última parte da história de seu personagem principal, Encarnação do Demônio, Zé do Caixão, finalmente conseguiria colocar o seu plano original em prática e com sucesso. A obra, com orçamento de 1 milhão de reais, novamente demonstrou toda a criatividade do Pai do Terror nacional, com cenas desconfortáveis, aterradoras e repletas de efeitos práticos, para dar ainda mais veracidade a narrativa pretendida! Isso fez com que o nome do cineasta fosse novamente comentado, já que beirou o ostracismo nos últimos anos, infelizmente.

Filmografia como cineasta:

1946 Beijos a Granel
1947 Sonhos de Vagabundo
1948 A Voz do Coveiro
1955 Sentença de Deus (filme inacabado)
1958 A Sina do Aventureiro
1962 Meu Destino em Tuas Mãos
1964 À Meia-Noite Levarei Sua Alma
1965 O Diabo de Vila Velha
1967 Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver
1968 O Estranho Mundo de Zé do Caixão
1968 Trilogia do Terror
1969 O Despertar da Besta
1971 Finis Hominis
1972 Dgajão Mata para Vingar
1972 Quando os Deuses Adormecem
1972 Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro
1974 A Virgem e o Machão
1974 Exorcismo Negro
1975 O Fracasso de Um Homem nas Duas Noites de Núpcias
1976 Como Consolar Viúvas
1976 Inferno Carnal
1976 Mulheres do Sexo Violento
1977 A Mulher Que Põe a Pomba no Ar
1977 Delírios de um Anormal
1977 A Estranha Hospedaria dos Prazeres
1978 Mundo-Mercado do Sexo
1978 Perversão
1980 A Praga
1981 A Encarnação do Demônio
1983 Horas Fatais - Cabeças Cortadas 
1984 A Quinta Dimensão do Sexo
1985 24 Horas de Sexo Explícito
1986 Dr. Frank na Clínica das Taras
1987 48 Horas de Sexo Alucinante
1994 Demônios e Maravilhas
1996 Adolescência em Transe
2004 Fim 
2008 Encarnação do Demônio
2015 As Fábulas Negras

José Mojica Marins é uma das figuras mais emblemáticas do cinema nacional!
Sua trajetória, como um autodidata da sétima arte que alcançou o sucesso, saindo do que era corriqueiro para dar vida a sua criatividade e a um dos personagens mais icônicos da nossa cultura pop, deve ser celebrada e honrada ao longo dos anos. Assim como as suas produções que estabeleceram a possibilidade da realização de filmes de terror em terras brasileiras, com qualidade, boas histórias e logicamente, medo! Usando de efeitos práticos, planos inovadores e uma estética totalmente singular!
O Pai do Terror nacional infelizmente nos deixou, porém o legado estranho e assombrado de Zé do Caixão continuará, pois a figura de cartola, capa e unhas compridas sempre ficará no imaginário daqueles que sentiam pavor antes mesmo dele lançar a praga do dia! E seus filmes permaneçam entre as melhores produções feitas em nosso cinema!
E eu já estava esquecendo: A praga do dia é para você, caso não compartilhe esse texto ou não siga o Geek Guia no Instagram, eu desejo spoilers de tudo o que você assiste caindo como uma tempestade vinda do inferno!
Aprende-se muito assistindo ao Zé do Caixão!
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