Um Lindo Dia na Vizinhança - CRÍTICA

Como pode haver tanto sentimentalismo sem emoção?



Hollywood gosta de revirar os seus arquivos cinematográficos e televisivos atrás de figuras importantes, em busca dos principais prêmios da indústria. De atores famosos à cantoras notáveis, as cinebiografias ocupam um lugar carinhoso no coração de diversos espectadores, mas e quando a produção, apesar de falar sobre sentimentos constantemente, não consegue fazer o seu trabalho que era justamente emocionar?
Este é o caso de Um Lindo Dia na Vizinhança!
Com Tom Hanks no elenco, o longa poderia facilmente entrar para a lista daqueles filmes que mal começam e as lágrimas descem junto, contudo é necessário manter-se acordado, com tamanha apatia na atmosfera em pouco mais de uma hora e meia.
E você, pronto para um lindo (ou nem tanto) dia na vizinhança?

Lloyd Vogel é um jornalista designado para escrever uma matéria sobre Fred Rogers, ou melhor, Mr. Rogers, conhecido pelo programa Um Lindo Dia na Vizinhança. Porém, o que parecia ser uma simples matéria fará com que o jovem repórter desenvolva uma amizade inesperada com o apresentador, fazendo com os sentimentos de ambos sejam confrontados em diversos momentos da vida.

Marielle Heller (Poderia me Perdoar?) comanda a produção de uma maneira onde na tentativa de inovar através da montagem e transições, acaba criando um distanciamento do que o texto gostaria de transmitir. 
Usando do cenário como meio de ir de uma cena ou outra, a direção acaba perdendo força ao tentar brincar com a questão lúdica para fazer com a história ganhe forma em tela. Ao mesmo tempo, quando necessário, não é extraído dos atores a dramaticidade necessária para as cenas, sendo que muitas se repetem de uma maneira óbvia e não conseguimos perceber desenvolvimento algum do misancene. E para tentar distanciar-se um pouco do enfadonho ritmo da trama, o foco se volta para performance de Tom Hanks. O ator consegue dar vida a Fred Rogers de maneira exímia e competente, contudo a incapacidade de usar isso ao seu favor para tornar as sequências memoráveis tornam sua atuação quase que esquecível assim que a película chega ao final. 
Ou seja, por mais que ambientação, figurino e design de produção consigam apresentar de maneira fiel a época, o contexto, as pessoas que fizeram parte de tudo, não há esforço cênico para transformar isso tudo num verdadeiro espetáculo emotivo!


É estranho, mas às vezes a coisa mais difícil de todas é perdoar alguém que amamos
E como pode haver tanto sentimentalismo sem emoção alguma?
Soa estranho, mas quando você começa a perceber que a carga dramática está apenas em um personagem, e os demais ficam orbitando como se atingidos vez ou outra, perde-se uma construção importante ao se tratar de um drama. O protagonista, por exemplo, possui dilemas interessantes a serem trabalhados, como o perdão por erros de outras pessoas em seu passado, uma perda, a paternidade que lhe foi removida. Tudo isso são pontos que somente fazem sentido, e efeito, quando Mr. Rogers está em cena, porém ele não é o personagem principal. Nessa escolha de usar a construção da matéria de revista como metáfora para as descobertas e resoluções e Lloyd, é deixado de lado toda e qualquer intensidade quando Tom Hanks entra em cena como verdadeiro "mestre" das coisas que a vida tem a ensinar.
Desta forma, o roteiro acaba caindo no erro de repetir acontecimentos para que venhamos a entender como o protagonista está mudando, pois de uma maneira didática não como ir além do que vemos em tela. E quando se tenta trabalhar com o subjetivo, somos entregues a uma das sequências mais constrangedoras do filme!

Um Lindo Dia na Vizinhança poderia trabalhar a vida de Fred Rogers e a amizade com Lloyd Vogel de uma maneira muito mais cativante, mas acaba escolhendo utilizar do lúdico de uma maneira equivocada e completamente morosa.
Com uma direção que não consegue extrair de seu elenco a emoção necessária, a responsabilidade cai sobre Tom Hanks, que de maneira pontual tenta sustentar a película graças ao seu carisma e a credibilidade ao dar vida ao ser personagem.
Se para uma cinebiografia dar realmente certo os sentimentos precisam "saltar da tela", aqui falta justamente essa ação, aquela captura a atenção do espectador e o leva a querer saber da vida de quem está sendo representado. 
Ao menos a musiquinha cantada é legal! Até fica na cabeça!

Nota: 2/5 (Regular)

Um Lindo Dia na Vizinhança concorre ao Oscar 2020 na categoria:
Melhor Ator Coadjuvante - Tom Hanks
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