Parasita - CRÍTICA

Quando duas realidades tentam coexistir



Em determinado momento uma mulher, de família rica, diz que a chuva que caiu no dia anterior foi uma "benção". Foi perfeita para limpar o tempo ruim que estava anteriormente. Mas ali, estava seu motorista, prestando atenção no trânsito e na conversa de sua chefe. Sua expressão aos poucos vai mudando, pois para ele a mesma chuva não foi benéfica, ela devastou sua casa, deixando sua família sem um lar. 
Ao chegarmos nesse instante da produção passamos a perceber os pontos de vista que existem, as realidades que tentam permanecer dentro do mesmo contexto cultural e social, trazendo consigo um choque de realidade capaz de modificar uma história, fazendo com que o espectador não saiba o que esperar a cada novo momento da obra.
Parasita não é mais uma produção sobre a realidade, é uma obra-prima acerca das desigualdades da vida!

A família de Ki-Taek está sem trabalho há muito tempo. O máximo que fazem, pouco compra alimentos para casa e isso os faz viver em um porão apertado. Porém, quando um amigo da família oferece uma forma do filho ganhar dinheiro sendo tutor de uma jovem estudante rica, a oportunidade é vista como uma maneira de todos saírem beneficiados, mas nem tudo é tão simples assim quando duas realidades passam a coexistir!

Bong Joon-ho (Okja, Expresso do Amanhã) comanda a produção trazendo uma maneira única de apresentar duas formas de vida que em determinado momento passam a colidir devido as discrepâncias da vida. A câmera brinca passando por entre os cenários abertos, ora estática deixando para os personagens nos mostrarem o que será encontrado ao mesmo tempo que cria uma atmosfera claustrofóbica, com toques de suspense e terror, para adentrar ainda mais o conceito de desigualdade que o texto vai abordando ao longo da produção.
A fotografia usa desses artifícios para trabalhar luz e sombra de maneira singular. Os ambientes mais abastados são claros, limpos, com cores sóbrias. Já os locais mais pobres as cores ganham uma intensidade desconfortável, dando ênfase a sujeita e a decadência, tornando o contraste cada vez mais gritante. 
Ao mesmo tempo, um detalhe que ainda não faz parte do cinema em si é o cheiro. Como um artifício narrativo o diretor utiliza bem das atuações para expressar que os odores característicos das pessoas e as classes que representam possuem grande diferença. Isso faz com que a Bong Joon-ho nos entregue uma película que ao falar de desigualdades, utiliza todos os elementos em torna para tornar isso claro. Seja a lâmpada que pisca em uma inundação em contraste da que pisca na mansão, os corredores que se alongam nos locais ricos e se estreitam na periferia ou as preocupações através das falas da família burguesa em contrapartida daqueles que nada tem.
Nada é jogado por acaso ou aleatoriamente durante a exibição.


Isso é tão metafórico
A frase acima é dita diversas vezes dentro da película pelo filho da família pobre. Como uma alegoria ao próprio texto do filme, pois a medida que vamos entendendo para onde a história está se encaminhando, encontramos não apenas uma luta entre classes, mas a forma como uma consegue apagar de maneira quase que total o sofrimento, as dificuldades e as faltas que a outra possui.
O roteiro vai permitindo que primeiramente ao conhecermos a família composta pelos que moram na área periférica criemos um laço de empatia pelos mesmos. Apesar da ideia e do plano traçado soar como uma grande "golpe", nada mais é que um exercício pela sobrevivência diante de uma oportunidade gerada por quem já mais do que o suficiente. Ao mesmo tempo, a família que mora na área rica carregada os esteriótipos dos mesmos, a esposa falsamente preocupada com os filhos, um marido distante, os filhos que não aparentam estar satisfeitos com o que tem. 
Nesse jogo linguístico, Bong Joon-ho usa da narrativa para aumentar ainda mais a carga de trejeitos e expressões das classes sociais, as tornando diversas vezes caricatas, mas não de uma maneira ruim. Esse excesso auxilia ainda mais quando tudo parece se encaixar da maneira devida e assim somos entregues a uma reviravolta que poderá fazer qualquer um parar para pensar no que irá acontecer nos últimos minutos. 
Para isso, o texto então chega a real luta entre as classes, demonstrando que algumas vezes, o resultado de tamanha desigualdade e falta de oportunidades proporcionalmente iguais, levam o ser humano ao extremo, seja das maquinações ou da violência.

Parasita é uma obra-prima acerca das desigualdades da vida, da forma como as pessoas procuram sobreviver diante de tudo que possuem ou não. Com uma direção que utiliza bem a técnica para mostrar as diferenças entre as realidades e um roteiro que utiliza dos recursos textuais, visuais e metafóricos para contar uma história que aproxima o público, o filme se torna uma produção obrigatória nos dias atuais.
Se atualmente minorias e classes mais baixas se veem ameaçadas por conta de uma valorização daqueles que já possuem em excesso, é necessário lembrar que tudo aquilo que aparentam nem sempre é a vida adequada a se seguir, por mais que muitas vezes venhamos a ansiar pelo local do opressor, o oprimido em algum momento tomará uma atitude extrema.
Pois nem toda a chuva que cai é totalmente uma benção!


Nota: 5/5 (F#D@ PR$ C*RALH@)

Parasita concorre aos Oscar 2020 nas Categorias:
Melhor Filme
Melhor Direção
Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Roteiro Original
Melhor Direção de Arte
Melhor Montagem
Tecnologia do Blogger.