O Escândalo - CRÍTICA

Um filme importante em tempos machistas


Uma das grandes realizações que o cinema consegue provocar são os diferentes pontos de vista quando uma produção acaba. Boa ou ruim, péssima ou maravilhosa, você acaba escolhendo um lado! Já o crítico, aquele que comenta logo após as luzes se acenderem, possui o papel de analisar cada detalhes do filme, técnico, atuação, narrativa e chegar a uma determinada conclusão, que certamente será lida ou ouvida por muitos. 
Contudo, ao percorrer a internet, justamente ao procurar análises de O Escândalo nós podemos nos deparar com inúmeros textos que se colocam a disposição da atitude de simplesmente pontuar a direção e referenciar a obra em cima de outras que possuem estilos parecidos, como a A Grande Aposta e Vice, do diretor subestimado Adam McKay. Ou até mesmo usar expressões como "caricata" e "cômica" para citar uma cena de assédio que ocorre durante a película.
O que eu quero dizer com tudo isso? Algo simples, filmes que contam o ponto de vista feminino conseguem incomodar da mesma forma que os relatados daquelas que sofreram assédio, pois para alguns homens é difícil se ver na figura de vilão!
Sendo assim, fazer um escândalo é mais que o suficiente!

Gretchen Carlson (Nicole Kidman) é uma apresentadora da Fox News que vê sua carreira ser alvo constante dos ataques do CEO da emissora, Roger Ailes, a rebaixando dentro da programação. Logo, ela decide processa-lo por assédio sexual, devido a inúmeras atitudes do até então chefe. Isso colocará Megyn Kelly (Charlize Theron) e Kayla Pospisil (Margot Robbie) na mesma história, cada uma com seu ponto de vista, relato, dentro do mesmo escândalo.

Jay Roach é quem comanda a produção que se encarrega de revelar os acontecimentos que levaram as acusações de assédio do diretor do canal, em plena eleição que deu a Donald Trump a vitória. 
O diretor por mais que se esforce emula um estilo já conhecido de outras histórias que possuem a intenção de trazer os bastidores das notícias, o que ocorre nas redações jornalísticas e os fatos por detrás daqueles que os apresentam!
Para isso, diversas vezes, e se apoiando no carisma e talento de seu elenco principal, o comando quebra a quarta parede, justamente para trazer o público mais para perto do que está se construindo. Principalmente para que venhamos a ter, e ver, o ponto de vista de quem é a vítima nesses casos. Desta forma, ao dar uma sequência incômoda, degradante e triste para a personagem de Margot Robbie, o diretor extrai um dos momentos mais odiosos da película, gerando no espectador (em alguns, pelo menos) aquela empatia necessária que já idealiza a justiça. 
E talvez a forma como a justiça ocorre durante o ritmo seja pautado através de um didatismo que deverá causar certo desconforto nos mais criteriosos. (O que não deve incomodar quando a história apenas se coloca pela ótica masculina, não é mesmo?)
Entre erros e acertos da direção, é o cerne do texto e quem o reproduz que faz da obra algo importante nos tempos atuais!


Você odeia os homens. Aprenda a lidar com eles.
A narrativa então faz o papel de acompanhar três pontos de vista da mesma história. Três mulheres que passaram pela mesma situação e que em sua construção de mundo lidaram com o acontecimento de maneiras que pensavam ser diferentes.
A medida que vamos entendendo como funciona o comportamento organizacional e a cultura da emissora entendemos que o conservadorismo pregado consegue com o tempo "engolir" quem se colocou para trabalhar no local (a personagem de Kate McKinnon por exemplo), fazendo assim com que discursos de preconceito, machistas e racistas fossem tratados como banais ou piadas realizadas nos momentos errados. (Nada de diferente de alguns lugares do Brasil)
O ponto aqui é a forma como tudo isso é apresentado a nós. Para isso o trio de protagonistas estabelecem uma relação de força conjunta, ainda que sem saber, e que aos poucos ganha notoriedade dentro de um discurso feminista que algumas não estavam sequer querendo pronunciar. E certamente quando os relatos de assédio ganham voz e forma em tela, a reação é justamente desagradável, porém gerando aquele desejo para que algo tenha acontecido a favor das vítimas.
E assim, chegamos num ponto tão importante, a voz das vítimas.
Como uma mulher se coloca contra um CEO de uma emissora?
Como uma apresentadora coloca em risco tudo o que possui?
Como uma jovem promissora conquista espaço em um local tão disputado e predominantemente masculino?
O descrédito, minimização e a objetificação também tem seus momentos de presença, onde uma carreira é colocada em debate por conta de acusações ou o futuro de alguém é totalmente influenciado caso algo de ruim venha ocorrer. Todos esses elementos trazem à tona uma importante postura: A denúncia! Assim, ao chegarmos ao desfecho proposital, a sensação de alívio ocorre misturada àquele pensamento de quem muitas ainda passam por tais situações!

O Escândalo pode não ser o primor técnico esperado para alguns, mas o discurso empregado supera toda e qualquer falha de execução, pautado em atuações que conseguem estabelecer a ligação necessária com o público
Carregando então fatos que precisam ser cada vez mais contados na sétima arte, eis uma produção de grande importância em tempos onde a sociedade ainda insiste em culpabilizar e desacreditar a vítima. 
E de certa forma é o que alguns críticos fazem com obras assim, depreciam e diminuem pelo simples fato de não conseguirem entender que o texto vai além das comparações à outros diretores. Ou porque existe ainda aquele incômodo quando mulheres ocupam um lugar de protagonismo.
Em tempos machistas, um escândalo é o suficiente para assustar os de masculinidade frágil!

Nota: 4/5 (Ótimo)

O Escândalo concorre ao Oscar 2020 nas Categorias:
Melhor Atriz - Charlize Theron
Melhor Atriz Coadjuvante - Margot Robbie
Melhor Cabelo e Maquiagem
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