História de um Casamento - CRÍTICA

E o seu relacionamento, como anda?


Quando Nicole chega a casa de Charlie para o que seria uma última conversa pacífica sobre o divórcio, suas novas vidas e o filho, os fatos do passado, do presente e as questões do futuro tornam este momento um turbilhão de emoções quase que imparável! Ao chegar neste ponto da produção você, assim como diversos espectadores, devem ter tomado algum partido em meio a todo o processo do casal, em meio a inúmeras situações, idas e vindas. 
Contudo, História de um Casamento não é sobre qual lado devemos apoiar, mas como tudo aquilo chegou a este ponto e o quanto somos levados a atitudes semelhantes no decorrer da vida!
Em algum momento, certamente você já foi um Charlie ou uma Nicole!

Nicole e Charlie moram em Nova York, porém o seu casamento não é mais o mesmo. Ela é uma atriz que está prestes a estrelar uma nova série, ele, um diretor conceituado que conseguiu finalmente emplacar uma de suas produções na Broadway. Entretanto o relacionamento dos dois chega ao fim e o processo de separação não é tão fácil como parece. Sentimentos, vontades, o passado e um filho permeiam essa jornada onde o outro é a peça fundamental para continuar.

Noah Baumbach (O Fantástico Sr. Raposo) escreve e dirige a produção de uma maneira quase que ininterrupta ao demonstrar o quanto os relacionamentos que vivemos contém camadas ainda não exploradas. O diretor escolhe contar a história sob diferentes olhares e pontos de vista, brincando diversas com a percepção do espectador acerca de quem está "certo" em meio a tantas situações. A câmera se coloca como uma terceira pessoa quando os protagonistas começam a conversar, uma forma de observar e dar o entendimento do todo que quer ser demonstrado. Ao mesmo tempo, quando necessário, o foco vai para o rosto de seus atores, onde toda dramaticidade, emoção e visceralidade vem à tona numa catarse de palavras, gestos e expressões que não podem ser contidas, trazendo então uma realidade ímpar ao se tratar de um assunto que parece comum, banal e que ninguém se importaria. Fugindo então de qualquer um desses aspectos, Noah faz deste um trabalho profundo onde a cada cena vamos ganhando mais informações sobre os protagonistas, sobre suas escolhas, vontades e o jeito com que realmente lidam com a separação. Por isso, ao escolher um terceiro manejo de câmera, a que acompanha Adam Driver e Scarlett Johansson, somos entregues a momentos icônicos de atuação. 
Quando Nicole conversa com sua advogada pela primeira vez, encontramos doçura, força e uma raiva que é demonstrada na lembrança das situações onde se viu diminuída, indo do choro a expressão de seriedade ao final, logicamente isso se deve ao talento de Scarlett. Já Charlie, ao receber sua ex-esposa em casa coloca para fora todas as frustrações, todo o descontentamento e frustração naquele momento, onde sua figura cresce perante o espaço, mas logo se torna vulnerável diante das emoções expostas, dando a Adam Driver uma das cenas mais importantes de sua carreira!


Sabe como tudo é parecido numa relação?
A narrativa vai além do convencional de outras histórias onde encontramos a figura de vilão em um dos protagonistas, pois aqui cada um deles é responsável pelas escolhas assertivas ou não que levaram o fim do seu relacionamento. 
Para isso, a medida que vamos avançando no processo, situações são apresentadas e às vezes de maneira muito simples, mas que significam muita coisa. Como a escolha da fantasia de Halloween do filho, a forma como se entrega uma correspondência, ou um portão que para de funcionar, proporcionando umas das sequências mais metafóricas e significativas da produção.
Nesse jogo textual, não há quem está errado ou certo, quem é melhor que o outro ou quais são as intenções mais adequadas para o momento, o que encontramos é uma construção da jornada sobre entender que nem tudo nessa vida dura para sempre. Por isso, situações que para um pode soar como normal, para o outro são uma sucessão de palavras egoístas, que demonstram individualismo, agressivas ou debochadas. 
Assim, ao longo da história, o roteiro vai deixando essas pequenas nuances soltas pelas cenas, resultando numa epopeia emocional quando o confronto do casal se dá na sala da casa de um deles, não no tribunal, mas em um lugar comum, do convívio do dia a dia, onde a história teve início e chega a um final!
Pois se há algo que História de um Casamento consegue nos dizer é que toda relação, em algum momento, acaba! 

História De Um Casamento é essa jornada sobre a vida que levamos no dia a dia com outra pessoa, sobre as palavras que dizemos, ou deixamos de dizer. É sobre as escolhas que fazemos ou que abrimos mão pelo outro e principalmente, sobre seguir em frente.
Com uma direção que explora o máximo de seus protagonistas e coadjuvantes (Laura Dern espetacular), entregando atuações e situações que nos fazem mergulhar cada vez mais nas vivências do casal, a experiência como um todo é praticamente um reflexo do cotidiano, direto, verdadeiro e sem rodeios! 
Em algum momento, certamente você já foi um Charlie ou uma Nicole, deixando oportunidades passarem pelo outro, se tornando altamente organizado para cobrir o que o outro não faz, ou fez as piores comparações possíveis ao discutir uma relação, pois o fato é que não existe relacionamento perfeito, casamento, namoro, seja o que for imaculado, há sempre algo que não mexido, há sempre algo que não foi dito, há sempre uma carta esperando para ser lida!

Nota: 5/5 (F#D@ PR% C*RALH&)

História de um Casamento concorre ao Oscar 2020 nas categorias:
Melhor Atriz - Scarlett Johansson
Melhor Ator - Adam Driver
Melhor Filme
Melhor Atriz Coadjuvante - Laura Dern
Melhor Roteiro Original
Melhor Trilha Sonora Original
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