Bendita Cura - ESPECIAL LEITURAS DE ANO NOVO

Em tempos de abstinência uma leitura pode ser libertadora



Ao longo da história a religião determinou muitas práticas da sociedade e também foi capaz de apoiar outras que atacavam (e atacam) minorias ao longo dos anos.
A homossexualidade foi tratada como doença até 1990 pela Organização Mundial da Saúde e para que houvesse uma "cura", tratamentos como histerectomia, clitoridectomia, castração, vasectomia e a lobotomia foram utilizados ao longo dos anos em diversos países. Incluindo ainda terapias de aversão, tratamentos de eletrochoque e hipnose. É preciso ressalta que durante o período entre-guerras, o governo da Alemanha nazista tentou "tratar" homossexuais através de métodos como tratamentos hormonais e relações sexuais forçadas com prostitutas. No entanto, diante da "ineficácia das tentativas de cura", todos as pessoas envolvidas nas terapias foram castradas para impedi-los de sentir qualquer tipo de prazer sexual.
E o que isso tem haver com os quadrinhos de hoje? Tudo!
Pois a bendita cura que muitos pregam é a maldição que destrói inúmeros!

Acácio é um jovem diferente dos demais, mais quieto, contido e ao brincar sempre tinha uma companhia feminina. Porém isso faz com que seus pais, Galdino e Mara, comecem a pensar que seu filho possar ser homossexual. Logo decidem submeter o pequeno à diversos tratamentos que o impeçam de ter, ou sentir, qualquer coisa por outros homens. 
E isso irá reverberar em sua infância, adolescência e início da vida adulta! Um processo de "cura" altamente destrutivo!

Mário César é quem escreve e desenha os dois volumes de Bendita Cura, sendo que o primeiro volume lançado em 2018, foi vencedor do troféu HQ Mix de Melhor Web Quadrinhos e finalista do prêmio Jabuti
Não há como distanciar narrativa do traço cartunesco e cheio de expressividade empregado. Um completa de maneira sublime o que o outro realiza, ajudando então o leitor a adentrar ainda mais ao universo angustiante de Acácio. A escolha de cores também se torna um dos pontos chaves nessa construção técnica, já que o azul e o rosa, sempre em evidência, vão ocupando lugares diferentes na vida do protagonista a medida que a história vai ganhando a forma devida. Principalmente quando Acácio tem "atitudes erradas" (na visão dos pais) o rosa toma conta de suas roupas e ambiente, já quando ele realiza ações "aceitáveis", o azul completa o quadro como um todo. Nesse jogo imagético, não tem como lembrar a frase pífia proferida pela então Ministra da Família, Damares Alves, em que "menina usa rosa e menino usa azul", mas neste caso, Mário escolhe romper com o paradigma de cores principalmente quando ambas se mesclam nos momentos onde seu personagem pode ser quem é, rompendo os discursos impostos. Da mesma forma, o autor escolhe recortes históricos para dar ainda mais ênfase na luta pelos diretos, aceitação e respeito, pois nas páginas encontramos fotos de movimentos civis em prol da causa LGBTQIA+, como a Rebelião de Stonewall,  e matérias jornalísticas que contextualizam ainda mais em que tempo se encontra jornada do personagem principal. 
Dando ainda mais força ao discurso presente nas páginas de ambas edições!


O ato mais difícil para quem for ler é tentar criar um distanciamento do roteiro de Bendita Cura.
Pois percorrer cada acontecimento de Acácio nos torna parte de alguma forma dessa história, mesmo que indiretamente. Principalmente quando você encontra elementos que fizeram parte da sua infância, adolescência e começo da fase adulta. 
Neste momento, peço sua licença para deixar de lado a visão ampliada para dar um pouco do que os sentimentos das páginas me fizeram.  
No meu caso, a religião foi responsável por diversos bloqueios, conceitos e pré-conceitos que ao longo dos últimos anos foram sendo quebrados para então entender quem eu sou diante da sociedade que ainda exige uma "cura" para quem ela não quer respeitar. Eu fui Acácio diversas vezes, na escola, em casa, na igreja, no trabalho! Assumir uma persona que não é sua, falar de uma forma que não pertence a você, sentir coisas de maneira forçada e por fim se entregar de cabeça a dor como forma de ajuste!
Acácio é apenas um jovem em busca do seu lugar, das pessoas que ama, das vontades que possui, contudo, a presença da normatividade, empregada através da heterossexualidade forçada e da masculinidade tóxica, o tornam vítima de tratamentos constantes pautadas em uma regularização comportamental imposta culturalmente e através de credos (terapias religiosas de "cura gay" são vendidas livremente até hoje). E ao longo das histórias em quadrinhos surge sempre o desejo de libertação, não aquela vendida em cultos de quarta-feira ou através de ritos abençoados, mas daquela liberdade capaz de romper com qualquer necessidade de se deixar mover pelas imposições alheias!
O que mais me chocou, é que ao final do segundo volume, aquele destino poderia ter sido o meu!

Bendita Cura é uma leitura libertadora e verdadeira sobre como pessoas são colocadas debaixo do controle clerical, atrelado a uma cultura patriarcal, hétero-normativa, que está disposta a anular quem se não cumpre suas regras ou não segue a conduta imposta em qualquer âmbito de sua vida.
Com roteiro direto e emocionante, um traço que evidencia a emoções, deixando o leitor cada vez mais imerso naquele universo (nada distante do nosso), Mário César nos entrega uma literatura carregada de um discuso político importante, informativo e repleto de sentimentos.
Em tempos onde se prega a abstinência ao invés da educação, onde se busca inspiração nos regimes do passado ao invés de estimular a liberdade, onde as verdades são divulgadas em caracteres e não por quem pesquisa, a "Cura" que tantos gritam do palanque é a maldição que destrói inúmeros. Porém se há algo que a história sempre nos mostra é que toda violência demagógica, partidária, acaba e normalmente vem carregada de uma revolução! 
E certamente Acácio irá encontrar uma forma de ser revolucionário consigo mesmo!

Leitura para o seu ano novo: Bendita Cura, volumes 1 & 2, de Mário César!
Tecnologia do Blogger.