Adoráveis Mulheres - CRÍTICA

Greta Gerwig deveria ter um lugar entre os indicados a Melhor Direção



Muito se discute hoje em dia como o papel da mulher na sociedade por muitos anos foi reduzido apenas o de ser esposa, mãe e dona de casa. Por mais que ainda existam pessoas, organizações e até vertentes religiosas que ainda usem desse discurso para apoiar sua visão de mudo, cada vez mais mulheres ocupam os lugares que lhes são devidos, justamente onde bem entenderem estar. Mas quando se tratava do século XIX, os desafios eram tão grandes quanto os da atualidade, principalmente quando se é jovem e cheia de sonhos imperáveis! 
Para dar vida de uma maneira poética e poderosa, Greta Gerwig usa do texto de Louisa May Alcott, publicado em 1868, para dialogar perfeitamente com 2020! 
Sem deixar a luta e o amor de lado!

As irmãs March, Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh), vivem suas vidas regadas a amizade que possuem, o amor da mãe e as manifestações artísticas que cada uma possuem, enquanto que o pai está lutando na Guerra de Secessão que assola os Estados Unidos. As jovens se veem ligadas umas as outras, porém, quando Beth adoece novamente, questões do passado também surgem para talvez modificar os caminhos que estão por vir.

Greta Gerwig (Lady Bird) é quem escreve e dirige a produção que é sexta adaptação para o cinema do livro de Louisa May Alcott. Escolhendo um jeito interessante de contar a história, a diretora faz uso das cores para contextualizar o espectador do que está acontecendo, principalmente para transitar entre passado e presente. Quando estamos vendo eventos que ocorreram, aos tons quentes e até mesmo o clima harmonioso, feliz e otimista toma conta da tela, numa vivacidade de cores. Já quando acompanhamos os fatos atuais, o cinza, azul e as sombras ganham espaço, trazendo uma atmosfera pessimista e repleta de incertezas. Atrelado a isso, Greta conduz a câmera de um jeito livre, ainda que posicionada de uma única forma é como se ela tivesse deixado no cenário só esperando as reações e formas que suas protagonistas iriam dialogar. Essa aparente despretensão na verdade está pautada num domínio cênico que consegue dar voz a cada uma de suas personagens, cada uma com seu discurso, personalidade, peculiaridade e acima de tudo, jeito único de ver a vida que levam. 
Desta forma para que essa força interpretativa ficasse ainda mais estabelecida, design de produção e figurinos são responsáveis por tornar a época ainda mais palpável, seja nas ambientações ou em simples adereços usados. Ademais, a trilha sonora que carrega a assinatura de Alexandre Desplat é responsável por contribuir com a dramaticidade, alegria e força que o ritmo da película consegue transmitir ao longo de seus mais de 120 minutos!


E eu estou cheia de nos dizerem que a mulher só serve para amar.
Questionadoras! Se existe um adjetivo ou sentimento acerca de cada personagem seja esse ao longo da produção. Ainda que algumas tenham seguido o caminho considerado o correto para as mulheres da época há sempre um questionamento na fala, nas ações e nos olhares que cada uma das quatro irmãs March lançam. 
O texto, escrito com maestria por Greta Gerwig, rompe a linha temporalidade para trazer pontos que certamente deixaram espectadoras, e espectadores, pensando após as sessões. Pois como é possível mulheres tão talentosas não ocuparem os lugares devidos?
Por que a imposição constante sobre casamento?
Por que a realização total de mulher está justamente quando se encontra ao lado de outra pessoa?
Certamente se formos analisar cada uma dessas perguntas partiremos para respostas nos âmbitos culturais, sociais e políticos, que envolve a presença do patriarcado, o sexismo e o machismo constante e a diminuição da presença feminina de qualquer manifestação, seja ela artística ou não. Mas aqui, de uma forma poética, o roteiro vai quebrando cada um dos conceitos misóginos, ainda que de forma ficcional e numa época tão opressora para as mulheres. Assim, situações são colocadas justamente para expressar a força, a genialidade, a doçura e individualidade feminina ao longo dos séculos. Justamente pautada nos talentos e personalidades de cada uma: uma pintora, uma musicista, uma atriz e uma escritora. Profissões que até séculos atrás não admitiam a presença de uma mulher, porém aqui, são expressões que fazem parte de cada jornada, como ferramentas de liberdade para cada sentimento único.

Adoráveis Mulheres é uma adaptação poética e repleta de força que nas mãos de Greta Gerwig se torna uma jornada atemporal sobre o papel da mulher ao longo da história, e a capacidade feminina de mudar a sua jornada da maneira que for necessária. Com uma produção que evoca toda imponência da época, galgada por uma trilha sonora que impõem emoção e dá ritmo a trama, é uma injustiça imensa não ter a diretora concorrendo a premiação do Oscar em 2020.
Se um livro escrito em 1868 consegue transformar tantos pensamentos, a cada nova adaptação que possui, imagine quando as autoras da atualidade também tiverem a chance de ver suas obras que falam de representatividade alcançando multidões nas telas. 
Aliás, a tradução para o português do Brasil do título da obra original (Mulherzinhas), não condiz com a força do discurso presente!

Nota: 5/5 (F#D@ PR$ C*RALH@)

Adoráveis Mulheres concorre ao Oscar 2020 nas categorias:
Melhor Filme
Melhor Atriz - Saoirse Ronan
Melhor Atriz Coadjuvante - Florence Pugh
Melhor Trilha Sonora Original 
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Figurino
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