Cats - CRÍTICA

Quem soltou os gatos poderia os prender de novo?


Cats é um dos mais conceituados musicais da Broadway. Criado por Andrew Lloyd Webber, teve sua estreia nos palcos norte-americanos em 1981 e trouxe a canção "Memory" como destaque, se tornando uma das composições mais icônicas da cultura pop. 
O que ninguém esperava era que em 2019, uma adaptação cinematográfica faria com que os gatos Jellicle, fossem motivo de inúmeras piadas e reações de estranheza pelo público, por conta de seu visual que abraça a computação gráfica e captura de movimentos de uma maneira constante no longa. Mas será que Cats é esse desastre todo ou apenas a reação do coração amargurado de críticos que não conseguiram ser escolhidos para viver um momento especial?

Victoria é uma gata que acaba de ser abandonada. Contudo, é encontrada por um grupo de gatos Jellicle que estão se organizando para um grande baile aquela noite. Pois, nesse encontro, um deles será escolhido pela velha gata Deuteronomy, e assim poderá viver uma nova vida! Só que pelos becos ainda existe o terrível Macavity, um gato ardiloso que será capaz de qualquer coisa para ser o felino vitorioso ao final de tudo!

Tom Hooper é quem comanda a produção! O diretor tem em seu currículo produções como O Discurso do Rei, A Garota Dinamarquesa e Os Miseráveis, mas aqui sua personalidade diante da direção se perde em meio ao excesso de efeitos digitais.
Ainda que consiga entregar boas sequências musicais, tudo é artificial ao extremo, pois nessa empreitada de deixar o visual mais próximo do realista, abandonando as roupas felpudas e maquiagem caricata da peça teatral, a artificialidade se encontra em choque com o mal emprego do CGI. Durante as movimentações é nítido que a textura da pele e pelos não acompanha os atores, da mesma forma o rosto fixado ao corpo felino, que em diversos momentos paira no ar de uma maneira assustadoramente desconfortável.
E apesar de construir grandes situações para a dramaticidade vir à tona, o diretor parece que ligou o botão do automático em outros quesitos, deixando a montagem do filme estranha, com cortes abruptos e sem uma continuidade direta das ações ou a forma como os cenários ora querem parecer maiores, ora se tornam do mesmo tamanho que os "gatos" de Hooper. Algo que funciona no espetáculo, contudo ao transpor a mídia para o cinema, este cuidado deveria ser primordial, pois nem sempre a teatralidade se encaixa no ritmo de um filme.


...é tão fácil deixar-me tão sozinha com a memória dos meus dia de sol.
Se tocar-me você entenderá o que felicidade é...
A narrativa por sua vez apresenta cada um dos seus gatos através de números musicais. Cada canção expressa o talento e também as características da personalidade do felino de uma maneira única. Ao mesmo tempo, essa criação textual brinca com os sentimentos e vontades das personagens. Uma gata preguiçosa que não pretende sair da sua zona de conforto, um gato gordo e comilão que está apegado a gula, um gato medroso por conta do seu talento e até mesmo aquela que acabou de chegar, demonstrando curiosidade e inocência.
E nessa jornada através de cada diferente persona, sobra espaço para questionar aqueles que são deixados de lado por conta de suas jornadas. Ora de grande destaque, mas no momento escondido por entre becos. Caso da personagem de Jennifer Hudson, Grizabella, que possui um dos momentos mais emocionantes e impactantes da película, principalmente por estar atrelado a performance de Memory!
Desta forma, a narrativa não se propõem a dar algumas explicações que poderiam ajudar na imersão, já que o visual certamente irá fazer com que muitos desistam de continuar olhando para tela. Personagens são introduzidos de forma abrupta, a real ambição do vilão não possui uma estrutura textual que a sustente e diversos números musicais não se encaixam na sequência estabelecida, tornando o conjunto num formato de clipe conceitual mal concluído.
E apesar das falhas há sim o elemento fantasioso expresso de maneira sem medidas durante as mais de duas horas de produção, o que para alguns irá superar qualquer tipo de renderização mal concluída. Diferente do que falam, Cats não é essa vergonha alheia sem tamanho ou o maior fracasso de 2019 (pois se formos entrar nesse mérito a lista será diferente), é simplesmente uma produção que não soube ao certo em qual caminho conceitual iria trilhar para dar uma vida diferente a um enredo tão conhecido dos palcos norte-americanos. 
O resultado, na tentativa de inovar e criar um conceito que pudesse ser utilizado outras vezes, perde-se a força do espetáculo em meio a várias camadas de pixels que poderiam ter sido deixadas de lado.

Cats não é um desastre completo, mas está longe de ser um clássico que ganha uma versão competente na sétima arte. 
Infelizmente, pautado por uma direção mais preocupada em inovar através de uma computação gráfica mal empregada, os números se perdem em meio a estranheza e artificialidade, deixando a magia que se conhece dos gatos Jellicle de fora várias vezes. E por mais que as sequências musicais demonstrem a qualidade sonora esperada, nem assim será capaz de agradar o público como um todo. E Talvez este seja então aquele momento em que os críticos cinematográficos tão esperavam, uma obra onde se pudesse depositar toda a raiva que outras não receberam ou que os embargos não permitiram durante o ano. 
Entre falhas, pequenos acertos e ódio nas opiniões, certamente fica uma lição importante para Hollywood: Nem tudo aquilo que é feito através de um espetáculo, fica espetacular nas salas do cinema! 
Então, quem soltou os gatos poderia os prender de novo, por favor?

Nota: 2/5 (Regular)
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