Ninguém tá Olhando: 1ª Temporada - Crítica

Como seria o seu anjo da guarda?



Quem protege os humanos de serem alvos dos incidentes do dia a dia?
Seria uma força maior que tudo rege?
Um deus dotado de onipresença?
Um senhor barbudo com ótimo senso de humor para causar desastres?
Talvez para alguns essas repostas não serão respondidas de maneira tão fácil, mas em 'Ninguém tá Olhando', os Angelus fazem parte de um sistema que tem como missão proteger os seres viventes da Terra. E como todo e qualquer sistema, existem regras, normas, controle. E como em todo e qualquer sistema, alguém irá se opôr ao estilo costumeiro de ser! Mesmo que isso se volte contra o chefe de tudo, o "cara lá de cima"!

Uli, é um anjo da guarda que pertence ao sistema Angelus, seres que estão sempre ao redor para não deixar que coisas simples do dia a dia se tornem desastres grandiosos na vida dos humanos. Porém, quando o novato guardião começa a questionar o sistema, as coisas passam a se tornar uma jornada repleta de novidades para que está ao seu redor, principalmente quando Uli encontrar Mirian, uma jovem que também está buscando o seu lugar no mundo.

Dirigida e criada por Daniel Rezende (Turma da Mônica: Laços), a série chegou ao serviço de streaming da Netflix com oito episódios de no máximo trinta minutos, trazendo um elenco principal repleto de rostos conhecidos da internet (Kéfera Buchmann, Julia Almeida, Victor Lamoglia).
No comando, Daniel utiliza o timing cômico de cada um a favor do texto, tornando então o dinamismo o seu principal trunfo a cada mudança de cena. Não há nada de novo aqui, mas a forma como a história, que até parece simplória e insossa, é contada faz com que a obra seja mais um acerto nacional em um catálogo vasto de produções internacionais. Atrelado a isso, o diretor demonstra uma precisão cênica fluida quando demonstra a forma em que os Angelus auxiliam as pessoas, como uma coreografia precisa e pontual para cada ação. 
Desta forma, ao escolher contar os fatos de maneira linear, Rezende aproveita para dar ênfase em seus personagens, criando uma mitologia própria sobre criaturas que há muito tempo permeiam o imaginário e a fé da sociedade, principalmente os que se consideram cristãos!
Ao mesmo tempo, a série usa das referências a cultura pop para projetar as piadas de forma assertiva e eficaz, aproveitando dos questionamentos para fundamentar ainda mais o jogo de imagens rápido, inteligente e repleto de características próprias.


A narrativa então apropria da alusão a qualquer sistema que conhecemos, com sua burocracia diária, procedimentos corriqueiros e sem explicação, para dar formato ao que iremos encontrar no universo desses "anjos". As figuras místicas com grandes asas, roupas esvoaçantes e em alguns casos armados sem de cena para assumir uma forma comum, de camisa e gravata, cabelos ruivos e sempre mantendo a mesma postura. Novamente algo que nos remete ao sistema controlado.
Quando adentramos ao texto percebemos que há muito mais nas entrelinhas e de forma exposta para todo aquele que assistir. Os Angelus estão ali cumprindo ordens sem saber o porquê, apenas devem cumprir pois existe um "Chefe", ao qual ninguém viu! Eles conhecem todos os idiomas, vagam por todos os lugares, porém são limitados em suas habilidades, o tanto que suas asas não servem para voar! Essa desconstrução de algo tão conhecido é um trunfo sagaz do roteiro, que de forma sútil coloca em cheque diversos questionamento que em algum determinado momento da vida, o espectador deve ter feito. Logicamente, que as consequências de um ser que se vê em meio a tantas dúvidas apresentariam situações peculiares e complicadas. Por isso, ao criar sequências para discutir o papel de cada pessoa, a existência de um ser superior, relacionamentos e até mesmo carreira, a narrativa transporta para tela situações do cotidiano, apontando então para a empatia necessária a fim de capturar o espectador até o final. Que reserva um plot twist brilhante!

Ninguém tá Olhando é uma produção competente ao criar uma nova mitologia com criaturas que são conhecidas, mas não de uma forma tão próxima da humanidade. Ao apresentar um dinamismo na direção e uma liberdade ao deixar seu atores percorrem o texto, a s
érie ganha força ao fazer questionamentos interessantes de algo que tanto se acredita!
Se a fé ainda é algo que não se discute, graças a produção de Daniel Rezende poderemos trazer em pauta perguntas que há muito se perderam, justamente para não gerar um constrangimento ou situação de animosidade com alguém, às conversas do dia a dia. Pois certamente existem crenças, vontades, pensamentos e deuses adorados de inúmeras formas, mas o importante aqui não é uma verdade absoluta, é o quanto é possível se encontrar quebrando todo e qualquer conceito absoluto! 
E isso seria uma ação angelical!
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