A Vida Invisível - CRÍTICA

Um murro poético no patriarcado


Produções que tratam da realidade da mulher, de seus dilemas, de suas experiências, ao serem analisadas por nós, homens, certamente passam pelo mesmo tipo de olhar. Aquele que irá se apegar mais nas atuações do que propriamente na narrativa, já que "não é para nós", como muitos dizem por aí! Contudo, A Vida Invisível serve de lição necessária para os dias atuais, trazendo um murro certeiro na face dos homens, mostrando suas atitudes e principalmente, dando voz a inúmeras histórias que ainda não puderam ser contadas por aquelas que continuam lutando todos os dias contra uma cultura que sempre existiu e que contribui até hoje para que os reais anseios dessas mulheres não sejam conquistados! O Machismo existe, ontem e hoje!

Guida e Eurídice são duas irmãs que moram no Rio de Janeiro dos anos 50.
Suas vidas, ao lado dos pais, é envolta de muitas situações que as colocam sobre inúmeras imposições, principalmente a de serem ótimas donas de casa e esposas. Até o dia que Guida decide ir viver um amor no exterior, mudando completamente o destino de sua irmã.
Logo, separadas pelas questões da vida, passam a escrever cartas uma para outra, porém nunca sendo correspondidas. E assim, traçando uma jornada por entre costumes e a cultura machista da época, as jovens irão vivenciar experiências, amores e perdas que as marcarão para sempre!

Karim Aïnouz (Praia do Futuro de 2014, Madame Satã de 2002) comanda a adaptação do livro "A vida invisível de Eurídice Gusmão" de Martha Batalha, tornando a película uma poesia profunda sobre uma época, que assemelha demais com os dias atuais.
Usando um ponto de vista que nos convida a acompanhar cada movimentação das protagonistas, o diretor passeia pelos cenários fazendo com que sejamos parte daquela história. Como se o espectador fosse mais um membro da família (ou famílias que vão se formando) ao longo da construção da narrativa. Apoiado a uma fotografia que consegue trabalhar o clima quente e desconfortante do Rio de Janeiro aos quarenta graus, a sensação é que todos ali estão sufocados, literalmente e de forma metafórica. E aos poucos, isso vai ganhando cada vez mais força em tela, tornando situações muito parecidas ou idênticas as do cotidiano.
Ao mesmo tempo o diretor busca transformar as figuras femininas em verdadeiras entidades dotadas de uma presença austera, pois quando entram em confronto com alguém, ou internamente, fica nítida nas expressões, tom de voz e na maneira como as cenas se desenvolvem. De tal modo, a construção da montagem de maneira única é eficaz ao mostrar as consequências de como as mulheres eram (e são) criadas dentro da cultura brasileira. Para isso, cenas onde pênis aparecem são banalizadas, a primeira relação sexual entre marido e mulher se torna uma sequência de violação e o modo como as protagonistas passam a ser tratadas ganha um peso dramático incômodo, nocivo e principalmente, real!


- Guida e a criança? Era o quê?
- Era Homem!
- Sorte dele!

O diálogo breve acima exemplifica bem o que a produção quer apresentar com seu texto, baseado no livro publicado em 2016! O drama das irmãs Gusmão se torna um épico sobre saudade, perdas e o sexismo intrínseco na sociedade desde que a mesma se constituiu.
Ao passo que somos apresentados a vida das protagonistas, percebemos a forma como foram criadas, e isso inclui os jantares em casa para que os pais consigam um bom casamento, a fala sempre sendo contida por uma atitude masculina e os sonhos sendo colocados de lado por conta de outras "prioridades", como engravidar.
Quando Guida então decide viver um amor na Grécia, o ponto de ruptura ocorre e a narrativa passa a ser um grande relato das tentativas de manter as memórias das irmãs vivas, além de passarem por cima das regras impostas pelo patriarcado. E com uma profundidade ímpar, sentimos as dores, os conflitos e o quanto o sentimento da separação pode consumir com tudo o que se possui.
Se Eurídice sempre teve o sonho de aprender piano, sua prioridade muda para se casar com Antenor. Tornando-se então uma dona de casa, cozinheira, mãe (contra sua vontade). Já Guida, precisa enfrentar inúmeros momentos de dificuldade para criar o filho, porém encontra um novo jeito de formar uma família, ao mesmo tempo que situações degradantes surgem para que ela consiga ao menos se manter viva! 
O discurso desta forma nos demonstra o que, desde sempre, as mulheres precisam enfrentar em seu dia a dia: a privação de seus sonhos, a não liberdade sexual, os trabalhos que pouco pagam, a violência doméstica, a postura regrada. É evidente isso quando pouco antes de um casamento, a protagonista revela que nunca teve relações sexuais. Em reposta, outra personagem a diz que no "começo arde, mas depois você acostuma e pensa em outra coisa"! Ou quando dois homens decidem o destino de Eurídice após uma crise, contudo, dando prioridade a sua gestação como função única da mulher.
E com o passar dos anos, o abandono do que se desejava e as mentiras em prol de um bem-estar familiar se tornam, literalmente, cartas amareladas escondidas. Uma alegoria certeira para a vida de muitas mulheres que ao longo dos seus anos, esconderam e guardaram os reais pensamentos, vontades e planos, mas por conta da imposição masculina, continuaram assentindo com tudo a sua volta!

A Vida Invisível é uma trajetória profunda, sensível e triste da vida feminina em meio a uma sociedade que tenta todos os dias anular sua presença. 
Com uma direção que utiliza das situações do cotidiano de maneira poética, a produção ganha força e se torna uma das melhores produções do ano, principalmente por conta do discurso atemporal que extrapola a metáfora para golpear na face os promulgadores de tanta manifestação misógina.
Ao final, quando a emoção toma conta e as lágrimas se tornam a companhia, nos resta apenas aceitar o espetáculo em tela, que ensina, incomoda e revela onde muitas vezes as verdadeiras vontades são depositadas, pelo terrível benefício de seguir as normas impostas. Ao mesmo tempo, transforma-se em uma grande ode a saudade, daqueles que jamais podem ser esquecidos e nem mesmo uma cultura  que diminui a sua figura pode apagar!
Um representante brasileiro do cinema e da realidade nas premiações!

Nota: 5/5 (F*DA PR# CAR@LH&)
Tecnologia do Blogger.