Watchmen (série) - Review

O relógio para o juízo final não parou


Em 1921, ocorreram diversos ataques violentos na cidade de Tulsa, em Oklahoma nos Estados Unidos. Brancos atacaram negros no distrito de Greenwood, local conhecido por ter um desenvolvimento sócio-econômico elevado, sendo a comunidade negra mais rica do país. Foram mais de 16 horas de ataques com um número de mortos que varia de 39 a 300 pessoas, em sua grande maioria afro-americanos; mais de 30 quarteirões da cidade foram totalmente devastados pelas ações em terra e via aérea, causando então um dos momentos que maior expressa a intolerância na história da humanidade.
E com essa história, a série baseada nos quadrinhos de Alan Moore, adentra a grade da HBO, demonstrando que Watchmen é tão atual quanto se possa imaginar!

34 anos depois dos eventos dos quadrinhos, o mundo se reconstrói após as ações realizadas por Ozymandias. As coisas mudaram em diversos sistemas e até mesmo figuras, que antes eram vistas como heróis, hoje precisam seguir um anonimato ainda maior, principalmente porque hoje as máscaras escondem não apenas identidades, mas um mal pautado no extremismo. Enquanto isso, o relógio do juízo final continua marcando!

Nicole Kassell comanda o episódio piloto evocando tudo aquilo que a obra original possui, logicamente trazendo as boas e velhas referências que todo fã de quadrinhos admira.
A direção não economiza na violência gráfica, com sequências onde a câmera percorre os locais em busca de se posicionar da melhor maneira para que o espectador não perca nenhum golpe, ataque ou escoriação. Desta forma, toda a cena de abertura transforma os ataques da comunidade negra de Tulsa num grande cenário de guerra, onde as explosões são sentidas, a tensão se torna palpável e o perigo fica a cada nova mudança de cena.
Ao mesmo tempo, quando chegamos aos dias atuais, tudo aparenta uma calmaria, que aos poucos vai sendo estremecida graças ao trabalho de colocar diálogos que vãos nos entregando um pouco do que esse novo mundo, pós os acontecimentos vistos na década de oitenta, tem a oferecer às pessoas. Tudo isso alinhado a um design de produção que por mais que estejamos vendo um cenário que deveria ter muita tecnologia, os objetos e elementos são analógicos, ou seja, novamente uma forma de não perder a essências das páginas em que se baseia a produção.


Atrelado a isso, a narrativa nos apresenta um cenário conflituoso, onde opiniões extremistas, preconceituosas e violentas tentam ser combatidas. Contudo, ainda são a principal fonte de manifestação de diversos grupos.
O texto assume características atuais que facilmente irão fazer comparação com a situação da sociedade. Sejam através dos discursos ou na transformação de uma figura conhecida da história, em algo que jamais foi defendida por ela. Para isso, surge a Sétima Cavalaria, um grupo pautado na "supremacia branca", utilizando máscaras de Rorschach, fazendo uma alegoria direta ao ultraconservadorismo que se expande no mundo a cada dia. Junte isso, aos pontos que abordam racismo, preconceito, políticas públicas e as formas como o sistema, por mais que tente contribuir, acaba causando ainda mais embates dentro da sociedade.
Assim, as figuras dos vigilantes aparecem agora ao lado dos policiais, que por sua vez também precisam manter o anonimato devido aos embates que surgem no dia a dia e a retaliação que podem sofrer, mas esses novos "heróis" não estão aqui simplesmente para posar diante das câmeras. Aqui, Sister Night, Looking Glass e o Vermelho, aparecem como os aliados do sistema de segurança, realizando missões que para os demais seriam impossíveis, em contrapartida fica evidente que a medida que eles adentram mais o cenário, mais estranho se torna o ambiente em que estão, deixando então a dúvida amedrontadora do que está por vir.

A série de Watchmen começou de maneira absolutamente assertiva! Sem a necessidade de fazer o que foi realizado no longa-metragem que adaptou a história original, a narrativa da produção procura sua própria linha de características e raciocínio, a fim de demonstrar que os novos conflitos estão presentes em âmbitos que vão da escola do filho à morte de policiais.
Se para mutos Alan Moore precisava estar relacionado ao projeto ou que Zack Snyder precisava ao menos dar uma opinião, fica evidente que nenhum, nem o outro, fazem falta diante da maestria na condução do piloto demonstrada por Kassell e  Lindelof, que conseguem o feito de expandir, atualizar e referenciar esse universo político-violento-heroico ainda mais com os dias atuais.
O relógio para o juízo final não parou, ele continua marcando o tempo, apenas houve um certo atraso e isso é o que mais preocupa. Pois desta vez não se questiona mais quem está vigiando os vigilantes, mas onde eles estarão quando tudo vier abaixo?
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