Segunda Chamada: 1ª Temporada - REVIEW

"- Pediram um professor de biologia, mas eu dou aula de artes!
 - Então aproveita pra dar o fora daqui!
 - Não posso, roubaram meu carro e eu não sei sair daqui!
 - Nem eu, tô tentando há dez anos e não consigo..."


Um professor trabalha em três turnos diferentes, escolas diferentes, com um total de seis turmas, cada um delas com 40 alunos, um total de 240 discentes para lidar de segunda à sexta. Em um ambiente onde é privilégio carteiras com recosto, quadro com uma lousa branca, pincéis e quando muito, uma biblioteca. Pode ser que alguma dessas escolas esteja localizada em um bom bairro, as outras na periferia, e quem sabe, ao lado de uma "boca de fumo". Ademais, os índices da escola são baixos, a cobrança para aprovação existe e com isso cada vez mais o sistema educacional se perde em discursos vindos das autoridades que não condizem com a realidade.
Logo, Segunda Chamada é a nova série da Globo que busca mostrar um pouco do que acontece no dia a dia da vida escolar, principalmente revelando que sobra tempo para desigualdades e pouco para doutrinação.

A Escola Estadual Carolina Maria de Jesus fica localizada numa região periférica, seus professores precisam lidar com todas as situações que surgem. Assim, conhecemos Lucia, uma professora de língua portuguesa que após um incidente retornou as suas funções; Sônia, uma professora de história que trabalha em três turnos para sustentar casa; Eliete, uma professora de matemática que além de vender itens diversos procura manter o bom humor em sala e Marcos, recém chegado a escola, vindo do ambiente das escolas particulares, tendo que encontrar seu lugar na nova realidade educacional. Além disso, os alunos irão completar essa fórmula guiada por casos de violência, discriminação, pobreza e a esperança por um ensino de qualidade para mudar de vida.

Comandada por Joana Jabace a produção se mostra atual e direta quando precisa demonstrar os conflitos e as dificuldades de sala de aula. 
A câmera percorre os ambientes da escola, mostrando as condições precárias da estrutura que abriga o sistema educacional. Alinhada a um design de produção que evoca o ambiente colegial de forma fidedigna e uma fotografia acinzentada, a atmosfera se torna densa, inquietante, repleta de incertezas, medos, contribuindo para o realismo que a narrativa possui. Junte isso a dois episódios iniciais que são dirigidos com maestria, mesclando entre acontecimentos atuais e alguns flashbacks, nos dando breves informações sobre o alguns dos personagens. Ao mesmo tempo, a principal escolha ao contar a história está nas expressões dos atores, nos gestos e elementos que compõem a sua trajetória. Se é preciso demonstrar a sobrevivência de uma, o foco fica no que ela carrega no bolso e no seu olhar de desconfiança, mas se é necessário mostrar os conflitos internos, a imagem passeia até o rosto de alguém do elenco, tornando os sentimentos palpáveis. Para isso também, a trilha sonora se encarrega de completar essa demonstração de coesão, utilizando de canções conhecidas da música popular brasileira, onde tanto o contexto da letra quanto à história se fazem repletos de exatidão.


E isso é o que também encontramos na narrativa da série!
Os episódios iniciais servem para expor uma realidade desconhecida de muitos ou noticiada de uma maneira equivocada. Se para muitos escola pública é palco para doutrinação, a produção da rede Globo demonstra a incapacidade real dos ambientes escolares de incluir pessoas, sejam elas idosas ou transsexuais/transgêneros. Desta forma, a batalha diária dos professores se faz presente não apenas ao pedir silêncio dentro da sala de aula.
Nesses dois capítulos, entendemos o início de adoecimento psicológico de uma docente, o desgaste físico de outra e as tentativas de conseguir completar a renda de alguma forma. Cada um desses elementos ilustra o cotidiano da sala dos professores (Escrevo este texto pensando que amanhã, às 7 horas da manhã estarei em sala de aula), não apenas isso, mas o descaso das autoridades com relação a tais ambientes, a administração que em certos momentos se faz conivente com erros e deixa passar fatos importantes, alunos que trabalham ao invés de estudar e acabam não acompanhando as aulas, o trafico de drogas, a violência dentro de sala e nos corredores, o preconceito que não acaba tão facilmente nas lições do quadro. Um a um desses pontos são exemplos fiéis do que ocorre todo dia na rede pública, seja ela estadual ou municipal, pelo menos uma das sequências apresentadas já deve ter acontecido na realidade. 
Contudo, o texto de Giovana Moraes e Maíra Motta procura também reverter todos esses intempéries vivenciados. Os personagens docentes estão ali para fazer a diferença, tentar encontrar e trazer aos alunos um pouco da esperança que o ensino pode gerar na vida daqueles que escolhem a sala de aula ao invés da violência. Para isso, fazendo referência a autora Carolina Maria de Jesus, tanto no nome da escola fictícia, quanto no roteiro do piloto, o discurso empregado é o de transformação através do lugar onde se pode aprender além do que está escrito em apostilas ou imposto pela sociedade.

Segunda Chamada é um acerto fundamental nas produções nacionais em tempos onde o sistema educacional vem sido questionado por pessoas que sequer pisaram em uma sala de aula, sequer ouviram os alunos, sequer entendem como é ser professor no Brasil. E para isso, a cada final de episódio, relatos reais de pessoas que frequentaram e ainda estão no ambiente escolar surgem em tela, para nos lembrar que é possível sim realizar mudanças em meio a discursos que apenas se preocupam com o ódio e a exclusão. Com uma direção que evoca o sentimento inquietante de quem precisa enfrentar as dificuldades diárias para estar no colégio, tanto na carteira quanto de frente pro quadro, a série estabelece um ritmo dramático assertivo e cativante logo no início, sem desperdiçar momentos que servem para instrução do espectador acerca do cotidiano da escola pública.
Talvez para alguns esta seja uma produção "lacradora" ou voltada para se tornar um "panfleto", porém contra os fatos apresentados, os argumentos sobre o tempo gasto com doutrinação se tornam nulos, pois para cada professor que tenta convencer o aluno a permanecer naquele lugar para mudar de vida, falta tempo para que mentes possam ser manipuladas. Na verdade, a manipulação está justamente em quem ainda sustenta o discurso pejorativo sobre a sala de aula, que pode surgir na figura de um aluno descontente ou até mesmo de um ministro que carrega a nomenclatura que deveria lutar por esse ambiente. Ao final, é o mestre, o docente, o professor que carrega a principal ferramenta de discurso: o sentimento de esperança por algo melhor toda vez que se entra em sala de aula e vislumbra o rosto de quem escolhe acreditar na escola!

Segunda Chamada é exibida toda terça-feira na faixa das 22 horas na rede Globo, e os episódios também estão disponíveis no GloboPlay.
Tecnologia do Blogger.