Mês do Terror: O Bebê de Rosemary (1968)

O terror que acontece de dentro pra fora



Temos uma concepção do cinema de terror já estabelecida! Onde as cenas precisam causar espanto gráfico, sangue precisa jorrar, criaturas precisam ser ameaçadoras e o pavor por aquilo que não se entende deve percorrer toda a linha narrativa. Mas em 1968, o cineasta polonês, Roman Polanski, fez de seu primeiro trabalho na sétima arte norte-americana, uma verdadeira aula de como se criar o terror a partir do caráter psicológico, além de estabelecer uma estética que serviria de referência para diversas obras que surgiriam nos próximos anos. Logicamente, sem deixar o mistério e o oculto de lado, já que se trata de uma de uma história sobre um filho que se origina nas trevas.

O jovem casal Woodhouse se muda para um espaçoso apartamento de um prédio antigo, com um histórico de acontecimentos estranhos. Guy é um ator ambicioso que vive em busca de algum sucesso na profissão, mas nunca conseguiu um papel de verdadeira importância em sua carreira. Rosemary é um jovem dedicada ao seu marido e que possui o desejo de ser mãe. Logo eles conhecem os Castevets, que se mostram muito enxeridos. Após um maior envolvimento de Guy com o casal, cresce a suspeita de que os acontecimentos estranhos ocorridos no prédio não eram apenas coincidência e que algo poderá colocar a vida de Rosemary em perigo.

Roman Polanski realiza uma obra que certamente ensinou a muitos como executar uma adaptação da literatura de terror. A escolha de câmera subjetiva ao mesmo tempo que percorre os ambientes, para em ângulos diferenciados, sem focar às vezes em quem está em cena, serve justamente para revelar detalhes do que a história irá contar nos próximos atos. Para isso, o diretor se mantém longe do cinema de terror convencional! Aqui encontramos um ritmo apegado aos elementos psicológicos e fantásticos, onde os pensamentos, sonhos, se transformam em sequências aterradores pelo fato da atmosfera criar a sensação de que a qualquer momento algo de ruim pode vir a ocorrer com a protagonista. Ao mesmo tempo, a câmera ajuda a cria um ambiente assustadoramente claustrofóbico, onde o prédio e o apartamento se tornam como grandes entidades que vão "engolindo" e se apoderando de Rosemary, de sua consciência e forças. Ademais, a fotografia que mescla entre tons coloridos, ora avermelhados e sépia, se junta ao design de produção para criar cenários suntuosos, imponentes e aterradores só de ver um personagem passar pelas escadas ou entrar em uma sala.


E certamente, esse sucesso não seria nada se a narrativa não usasse os elementos do material original da maneira correta.
Desde o começo fica evidente que não se trata de um terror convencional, por mais que haja a suspeita do que iremos encontrar nos atos finais, nada disso está explicitamente em tela. Logo, a película assume características da época, abordando o comportamento da sociedade, suas ações, curiosidades e envolvimentos com diversas novas formas crenças. 
E nesse jogo de brincar com a expectativa, Polanski usa do texto como artifício para confundir não apenas sua protagonista, mas o espectador que deseja receber um susto a cada cinco minutos. Desta forma, atrelado a atuação esplêndida de Mia Farrow, vemos a degradação de uma pessoa, a paranoia, os medos e a sujeição ao perceber que sua condição derradeira é justamente a qual lutou durante todo o tempo para se manter longe. Conforme vamos sendo entregues a situações que colocam Rosemary em um limite físico e mental, percebemos que o medo se torna a ferramente que cria todo o horror que dá a atmosfera o tom exato para manter o espectador cativo.
Para isso, os elementos sobrenaturais surgem de uma maneira sutil, que vão ganhando força e proporção maiores ao longo da produção, gerando um sugestionamento de que se realmente tudo aquilo estava acontecendo de verdade. E quando o clímax ocorre, não é da forma habitual do cinema de terror, se torna uma reação simples, porém que expressa a rendição diante de algo que não se pode controlar, principalmente se tratando do instinto materno.

O Bebê de Rosemary (1968) é um clássico do cinema de terror que hoje serve de inspiração para novas produções que buscam criar uma atmosfera onde as situações de medo vão sendo construídas de forma gradativa, até um ápice nada convencional, mas que se encaixa perfeitamente dentro da proposta. 
Com uma direção que utiliza dos elementos subjetivos e psicológicos para causar uma tensão inerente durante os mais de 120 minutos, a obra é um exemplo técnico de como se realiza algo dentro de um gênero que merece ter boas histórias contadas.
Se para Rosemary ter um filho e ser feliz no casamento era um sonho que foi atrapalhado de forma inesperada, o cinema de terror está aí para nos provar que nem sempre os planos que iniciam a narrativa dão certo. E justamente é o que se espera de tramas assim, onde as sensações da protagonista saltam a tela, causando em quem assiste um terror que é absorvido sem a necessidade de pulos na cadeira, um terror que acontece de dentro pra fora!

Toda segunda do mês de outubro, um filme de terror sendo comentado.
Semana que vem: A Bruxa, de 2015.
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