Mês do Terror: Midsommar - O Mal Não Espera a Noite

A perda, o luto e a entrega


Sempre esperamos dos filmes de terror um clima soturno, sombrio, escuro e totalmente horripilante entre a pouca luminosidade. Onde as movimentações serão sorrateiras e quase que imperceptíveis, ganham mais força ao subir da trilha sonora e uma figura animalesca surgir na tela. Porém, em Midsommar encontramos um caminho oposto, onde não existem manifestações sobrenaturais tão pouco a escuridão se faz presente. Os perigos se encontram na claridade, à luz do sol, na companhia de figuras receptivas, que de certa forma se fazem familiares, e talvez, este seja o maior risco de todos, aproximar-se do mal que está configurado sob um ambiente que não demonstra terror aparente, e consegue te fazer ir além em todos os sentimentos.

Dani acaba de sofrer uma terrível perda e com a ajuda do namorado, com quem já está se relacionando há quatro anos, aos poucos consegue recuperar ânimo para continuar sua vida. Certo dia, eles decidem viajar, ao lado dos amigos para Suécia, para participarem de um festival de verão em uma comunidade pastoril. Contudo, o ambiente acolhedor se torna um cada vez mais estranho a medida que a jovem vai adentrando aos rituais e costumes daquele povo.

Ari Aster já se provou um diretor que conhece muito bem o gênero de terror, trazendo aqui um aumento de sua capacidade técnica de comando e ao contar uma história.
Desde o princípio temos pistas do que está por vir, sejam através de pinturas nas paredes, câmeras que percorrem ambientes e cenas onde o desespero ocorre logo nos primeiros vinte minutos. Para isso, os ambientes aqui são escuros, tristes, sem vida alguma. A câmera percorre então tais cenários junto da protagonista para nos revelar a mudança de espaço de maneira significativa quando chegamos no festival. Aqui estamos sob à luz do sol o tempo todo, as cores são vivas, há brilho, calor, o que deixa tudo mais calmo aparentemente, criando uma atmosfera de acolhimento imediato, tanto para os personagens quanto para o espectador. Que certamente não encontrará perigo em figuras que apenas estão celebrando tradições milenares a base de muitos alucinógenos naturais.
Desta forma, quando o diretor precisa novamente gerar uma mudança em seu ritmo, entrega cenas com uma violência gráfica assustadora, daquelas que conseguem fazer com quem assiste, o ato de virar o rosto por tamanha exposição grotesca. Isso se dá ao design de produção e efeitos visuais, práticos, que juntos criam locais belos e assustadores, extrapolam ao fazer sangue jorrar, membros serem quebrados e vísceras expostas. E a medida que tais fatos ocorrem, todo o pensamento de segurança estando diante de um ambiente tão fantasioso, vai se tornando cada vez mais distante! 


Esses sentimentos estão presentes em um texto que trabalha de forma clara os sentimentos de luto, perda e a entrega para então se experimentar algo novo, ainda que isso custe um relacionamento.
Desde o início percebemos o quando Dani e Christian estão presos a um status como casal que nenhum dos dois vê relevância para continuar, porém não existe coragem em ambas as partes para deixar o outro livre. Logo, quando a jovem sofre com suas perdas, o sentimento de obrigatoriedade ganha espaço no lugar do verdadeiro carinho, criando situações constrangedoras, abusivas e até mesmo, machistas. 
A narrativa a partir disso começa a elevar as situações da protagonista a uma jornada que começa com a perda, o abraço de Christian e o choro desesperado ao saber do falecimento dos familiares, o enfrentamento do luto e da dor ao presenciar uma traição, o abraço de várias mulheres membros da comunidade como um instrumento de conforto enquanto o namorado participa de um ritual de fertilidade é altamente desconcertante e ao mesmo tempo empoderador, e por fim, a entrega, quando Dani entende o porquê de estar naquele local e a escolha que precisa ser feita. 
O terror aqui se constrói a medida que vamos passando pelas fases de desconstrução e reencontro da protagonista, pois através disso, as situações de gravidade para com seus amigos ocorrem, ao mesmo tempo que é necessário entender do que se trata tudo o vem sendo mostrado. E assim a sensação de incômoda de imersão ganha força, trazendo sua atenção para tela até os minutos finais, onde o sons de gritos, mesclam em um sentimento de alívio mórbido.

Midsommar - O Mal Não Espera a Noite consegue retirar da luz todo a sensação de segurança que outrora poderíamos ter atribuído. 
Com uma direção que trabalha elementos técnicos de forma brilhante, criando ambientações, sequências e uma atmosfera inquietante, Ari Aster fundamenta ainda mais sua presença dentro do gênero de terror, entregando uma história que permeia todos os estágios de uma pessoa que precisa enfrentar seus traumas e dores para continuar a vida. Logicamente, pautado por um grafismo extremo de violência.
Relacionamentos começam, terminam, se estendem e alguns até podem resultar em algo ainda mais profundo, e este pode ser um dos grandes medos para muitas pessoas, o medo de se sentir preso a alguém, atrelado a sentimentos que não mais existem simplesmente para manter algo que pode ser preenchido quando finalmente você se liberta e realiza uma entrega. Pois a perda precisa ser sentida, o luto precisa ser vivenciado, a dor precisa ser externada e a entrega é uma escolha, uma ocasião, uma celebração, e neste caso, expressado com um sorriso de satisfação enquanto as chamas tudo consomem! 

Toda segunda de outubro, um filme de terror sendo comentado!
Semana que vem: O Bebê de Rosemary, de 1968.
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