Vai que Cola 2: O Começo - CRÍTICA

Para contar o início vamos de O Rei Leão à Matrix


Filmes baseados em séries de televisão são quase um costume da cultura nacional na sétima arte. A produção faz sucesso numa mídia, logo recebe a oportunidade de criar um longa onde as situações conhecidas se tornam maiores, com mais detalhes e outros elementos. Alguns, e poucos casos, mantém a qualidade do produto original, em outros, sobram espaço para os famosos "bordões" seguidos de situações que não fazem qualquer sentido com a história que quer ser contada. Esse foi o caso de Vai que Cola - O Filme de 2015, que sobravam personagens, resultando num desfecho perdido.
O tempo passou, e eis que temos uma continuação, ou melhor, um "prequel", um início para todas as confusões no Méier e de uma maneira surpreendente, funciona muito mais que o original.

Ferdinando está de malas prontas para ir pro Rio de Janeiro tentar a carreira de ator, ao mesmo tempo que Maicol vai de encontro a mãe que mora na cidade. Enquanto isso Terezinha aguarda ansiosa a saída do marido Tiziu da cadeia e para isso organiza uma feijoada, feita pela Dona Jô, com o "auxílio" de Jéssica. Logo, o caminho de todos irão se cruzar pela primeira vez, dando origem a tudo o que conhecemos do Vai que Cola.

César Rodrigues é um especialista em comédias no cinema nacional, o diretor já havia realizado Minha Mãe é uma Peça 2, Uma Professora Muito Maluquinha e o fraquíssimo, Vai que Cola - O Filme! O que torna tudo o que acontece nesta "continuação" uma total surpresa para o espectador.
A direção aposta num dinamismo para contar a história, deixando que os personagens façam suas ações tão habituais, mas que para muitos irão soar como novidade.
A câmera e a edição trabalham aliadas para criar cortes ágeis, sequências longas e bem executadas, além de uma montagem fluida, que dá personalidade ao longa. Ao mesmo tempo, o Méier ganha vida através de seus costumes, lugares e pessoas. É nítido que o diretor escolheu uma naturalidade para contar a narrativa, que aliada a fotografia colorida e o design de produção que extrapola no que é caricato, sem perder o jeito cômico. Desta vez acertando no tempo das piadas, encaixadas de forma assertiva, em sua maioria, no ritmo que o filme possui, pois atrelado a isso percebemos a liberdade dos atores para o improviso e o desapego as frases corriqueiras ditas na série. Os bordões estão lá, porém o comando da película extrai mais do que se espera daqueles personagens e história.


Mas será que outro filme desses funciona sem Paulo Gustavo e seu personagem, Valdomiro?
A resposta é totalmente positiva, pois a história se atém a amarrar cada elemento apresentado na televisão, dando a oportunidade de conhecermos um pouco mais de cada morador da Pensão da Dona Jô.
Com a trama dividida em arcos que se unem, não é mais necessário aquele recurso exaustivo do longa original de quebra da quarta parede, pelo contrário, a narrativa linear se encaixa perfeitamente, fazendo o trabalho de ir do ponto A ao B corretamente, sem exageros ou tendo que se levar a sério.
E neste ponto, Vai que Cola 2 se torna ousado ao contar os fatos que antecederam as temporadas televisivas. Para isso, referências a O Rei Leão, Ghost - Do Outro Lado da Vida, Matrix, Avenida Brasil e Lua Cristal surgem na tela trazendo momentos que irão certamente arrancar do espectador aquele riso nada forçado. Há graça quando num momento a música que toca por conta de um contato sobrenatural é um pagode dos anos noventa, quando um personagem surge ao estilo Mufasa, quando Carminha retorna em suas maldades ou quando Ferdinando encarna a Rainha dos Baixinhos, ao lado de paquitas drag queens
Esse jogo intertextual do roteiro comprova a capacidade de se contar uma boa história sem a necessidade de se prender a um único "astro" ou personagem, que certamente aqui não se encaixaria! A produção é sobre todos e todos tem seus bons momentos que conduzem ao que é habitual da série de televisão. Contudo a produção acaba perdendo a mão ao criar um clímax previsível, que não consegue encontrar o tom certo que venha dosar o senso de perigo e o humor, ao mesmo tempo que personagens secundárias, como a lutadora e ex-namorada de Lacraia ou até mesmo Velna, não tenham um propósito claro até os minutos finais.

Vai que Cola 2 - O Começo é uma grata surpresa que demonstra ousadia e personalidade, superando seu original. A direção aqui se demonstra mais segura, com características próprias, inovando na montagem, fotografia e na escolha do posicionamento de câmera, o que transforma momentos clichês em divertidos. Ao mesmo tempo, ao realizar diversas referências cinematográficas e televisivas, a produção conquista ainda mais o seu público, fazendo com que tais situações realmente entreguem o humor tão esperado.
Se na televisão Dona Jô, Jéssica, Tereza, Maicol, Velna, Ferdinando e Lacraia já estabeleceram um determinado sucesso, no cinemas eles adentram um novo lugar, aquele das boas continuações, que de forma inesperada, conseguem arrebatar quem está na sala de cinema, até mesmo dando a oportunidade para que se possa contar outra história! Afinal de contas, fica comprovado que as desventuras da pensão mais conhecida do Méier funcionam muito mais sem o apego a um único personagem. O melhor tudo mesmo, é que este filme nos faz esquecer de vez o de 2015!

Nota: 3,5/5 (Muito Bom)
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