O Som ao Redor - ESPECIAL: MÊS DO CINEMA NACIONAL

O Brasil é até hoje uma grande disputa de terras


Que o nosso cotidiano consegue render boas histórias para o cinema, isso não temos dúvidas. Existem coisas que acontecem apenas no Brasil, e somente aqui ganham proporções que Hollywood apenas reproduz com muitos efeitos visuais. 
No nosso caso, sem precisa de computação gráfica, o dia a dia se torna uma grande epopeia sobre conquistas, perdas, sobrevivência e como tudo ao nosso redor pode modificar, mas ainda assim manter uma essência que nos persegue desde início dos tempos nas terras Tupiniquins.
Em O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho retrata uma nação que por mais esteja crescendo ao lado da tecnologia ainda se faz fiel a suas disputas antigas, permanecendo intacta a sua cultura de "jeitinhos" à exploração.

Em um bairro de Recife, tudo parece seguir sua rotina, vizinhos que não se suportam, barulho excessivo, assaltos, casais que se apaixonam, crianças brincando, porém quando um grupo de vigilantes particulares surge oferecendo o serviço, o cotidiano passa mudar, o que pode gerar conflitos diretos e indiretos com quem possui muito naquelas ruas.

Kleber Mendonça Filho escolhe contar uma história do cotidiano, do dia a dia, feita no nosso quintal, para nos mostrar que não evoluímos dentro das nossas questões de Brasil Colônia.
Ao iniciar a produção com fotos em preto e branco mostrando o trabalho escravo, os latifúndios, os senhores de engenho, os empregados, o diretor já prepara o espectador para uma jornada onde certamente irá gerar uma identificação com algum personagem ou momento.
A câmera transita entre os ambientes, ora claustrofóbicos, ora amplos, mas sempre nos lembrando que estamos encarcerados de alguma forma. O ângulo por muitas vezes parte de uma grade, seja a visão de quem está dentro, ou nos levando a ter uma percepção de fora, revelando que a preocupação com a segurança é algo que sempre está presente, seja em qualquer lugar, seja em qualquer contexto. Se para a dona de casa incomodada com o cachorro do vizinho que late, temos um close na sua expressão até jogar um pedaço de carne com remédio para aquietar o animal, para o senhor que é dono de diversos imóveis, a câmera fica distante, em um ambiente com pouca luminosidade, até que sua silhueta surja na porta, num momento de espera constrangedor e incômodo.
Atrelado a tudo isso, a trilha sonora de DJ Dolores, que somente dá vez a canções em dois momentos, utiliza dos ruídos, barulhos, estampidos que estão em volta do lugar, portas batendo, latidos, máquinas de lavar, elevadores funcionando, tudo se torna uma sinfonia do cotidiano, sons que ouvimos com frequência e que através de sua existência possuem a capacidade de contar uma história.

Tal história que nada mais é que o Brasil.
Em determinado momento ocorre uma reunião de condomínio para decidir o que fazer com o porteiro que de acordo com uma moradora "abre sua revista" ou que "recebe pra dormir". Mesmo com a intervenção de um dos protagonista ao alegar sobre o tempo de trabalho do mesmo, o que vale mais aqui é o que se possui, é o que se tem, é quem aquelas pessoas são a partir de seus locais de moradia. Nessa linguagem metafórica, quando os vigilantes chegam a rua para começar primeiro precisam conversar com o Senhor Francisco, que funciona como um grande senhor das terras, de engenho (literalmente), e como o mesmo diz, possui inúmeros imóveis nas quatro quadras onde a narrativa percorre sua trama. Ao demonstra poder, vemos outra face da nossa nação, aquela onde os "pequenos poderes" são entregues a pessoas que acabam criando um pensamento de comando sobre aqueles estão a sua volta, seja por possuírem mais ou por estarem em algum lugar por muito mais tempo. E quando esse ciclo sofre algum tipo de intervenção, todo o seus sistema se vê prejudicado, logicamente, um conflito é o resultado que se tem.
Mas sem partir para o gráfico, entendemos as disputas através das falas, dos discursos impostos, dos olhares para uma caixa de televisão, por uma bola que não é jogada de volta quando cai no outro terreno ou quando é necessário pedir ajuda para a segurança da rua. Porém ciclos são difíceis de quebrar, facilitações se tornam vícios e a rotina ainda continua estabelecida, ainda que tenha algumas mudanças.

O Som ao Redor é sobre as nossas relações de poder diárias, sobre as disputas que temos constantes, sobre erguer muros, colocar grades para se sentir seguro, ao mesmo tempo que a distância se torna um martírio muitas vezes. A direção utiliza vários elementos do cinema que conhecemos, desde o suspense, ao humor, passando pela tensão, pelo romance, mas estabelecido através de uma crítica social inerente e presente a cada porta que se abre, a cada ângulo por detrás de uma janela. Aqui tudo é claustrofóbico, apertado, e dos poucos momentos de amplitude, se pode tirar as situações de escapismo de uma rotina aprisionadora.
Ao final o som que está a nossa volta é aquele que dita o nosso o dia a dia, que por si pode contar uma história, revelando quem realmente são os personagens da vida, quais são suas questões e por onde eles andam e quais cercas foram construídas que causam um conflito até hoje. Do Brasil colônia aos dias atuais não evoluímos tanto assim, "nossos senhores de engenho" só mudaram de endereço mesmo!

Produção: O Som ao Redor
Ano: 2013
Diretor: Kleber Mendonça Filho

Esse é o Especial Mês do Cinema Nacional do Geek Guia, toda segunda de setembro um filme nacional sendo comentado! Não perca!
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