Hebe: A Estrela do Brasil - ESPECIAL: MÊS DO CINEMA NACIONAL

Uma cinebiografia que comprova que a história no Brasil se repete



O cinema brasileiro tem uma paixão por contar histórias reais!
As cinebiografias fazem parte do vasto número de obras que possuímos, que vão desde cantores populares a figuras políticas. Logicamente, passando por uma das mídias mais importantes do nosso país, a televisão. 
E para ilustrar os anos onde havia um grande público acompanhando uma das maiores comunicadoras do país, Hebe: A Estrela do Brasil, expressa não apenas a força de uma mulher lutando contra questões políticas e sociais, mas também enfrentando problemas pessoais, para manter sua presença, voz e ideais presentes na história na tv nacional. Tudo isso com uma impressionante atuação e caracterização de Andréa Beltrão.

Década de oitenta no Brasil, a censura ainda paira sobre os meios de comunicação. E o programa de Hebe Camargo não está agradando os políticos, assim, decidida a mudar, a apresentadora se vê obrigada a deixar a emissora que está, porém sua vida pessoal e carreira também irão sofrer consequências com os novos rumos que irá traçar a partir disso!

Maurício Farias comanda a produção indo além do que estamos acostumados das outras cinebiografias nacionais, entrando no hall de grandes filmes como Bingo - O Rei das Manhãs.
O diretor escolhe movimentar sua câmera de um jeito intimista, onde a nossa visão do público se funde ao olhar da protagonista. Quando passa por entre os corredores da emissora, entra em sala ou conversa de forma enfática com o diretor do canal, há um trabalho de transformar esses momentos em grandes embates através de diálogos diretos, expressivos, que podem, para alguns, beirar o caricato, porém aqui, ganham nuances responsáveis por contribuir ao andamento da trama. Em contrapartida, em sequências, onde Hebe sai dirigindo por São Paulo, sozinha, somos entregues há um momento belo, artístico, onde a luminosidade cria uma atmosfera melancólica que encaixa ainda mais nuances a uma figura tão importante.
Atrelado a isso, a fotografia e ambientação dão vida a década apresentada, desde os elementos cênicos, às luzes, brilho e colorido, que ganha alguns tons de sépia, transformam cada local percorrido em um retrato importante do Brasil daquela época. Sendo assim, a escolha de percorrer entre a vida pessoal e a carreira da apresentadora torna a narrativa interessante e ao mesmo tempo imersiva.


Nós conhecemos a apresentadora, sabemos os seus trejeitos, as frases emblemáticas e sua postura de uma diva do espetáculo, mas existem situações que o roteiro se encarrega de nos revelar de forma surpreendente. O comportamento de Hebe ao enfrentar grandes nomes da política para manter o seu discurso à favor dos que chamava de "excluídos", sua amizade para com a comunidade LGBTQ+ e as brigas que teve que comprar por conta disso, o seu relacionamento complicado com o último marido e as tentativas de se fazer presente na vida do filho. 
A construção do texto faz um trabalho de apresentar ao público camadas de uma personalidade imponente, porém repleta de medos. Se Hebe ataca a politica nacional e seus desmandos, é lembrada de sua postura como apoiadora de um político contestável, se a apresentadora quer manter seu programa ao vivo, é necessário enfrentar uma sala cheia de empresários armados de suas falas machistas institucionalizadas e quando usa de sua liberdade para se expressar, o ciúmes do marido vem à tona de forma agressiva. Por mais se trate de uma biografia, a figura criada aqui é como de uma personagem fictícia, que assume a imagem de diversas mulheres e seus problemas do dia a dia, e e em uma época tão tempestuosa, ousava ir além do que era uma regra.
E para que tudo isso se tornasse emblemático, Andréa Beltrão eleva o nível das atuações em uma cinebiografia. O tom de voz, movimentação, expressões e postura fazem com que atriz incorpore Hebe de um jeito surpreendentemente competente. A pessoa que vemos é a apresentadora de segunda-feira ao vivo, as frases habituais são ditas de maneira natural, nos lembrando de como era acompanhar aquela mulher tão importante na televisão. Beltrão além de tudo, vai do cômico ao dramático expressando um talento ímpar que a torna responsável por conduzir a história a seu favor, transformando a protagonista numa figura quase fantástica.

Hebe: A Estrela do Brasil é uma produção que expressa a história da televisão de uma maneira que por mais que os anos passem, tudo pode se repetir, com uma censura expressa, ou de forma velada e demagógica, porém há sempre uma figura imponente para enfrentar tudo isso. Logo, a direção de Maurício Farias se encarrega de contextualizar e dar vida a época, além disso, coloca sua protagonista como uma força de mudança, sem deixar de lado seus dilemas e inquietações. Tudo isso também devido ao brilhantismo de Andréa Beltrão.
A televisão brasileira já passou por diversas transformações, hoje, se torna um veículo que ainda tenta entender o que o público atual procura como entretenimento. Existem aqueles que tentam se renovar, atrair, e dar voz a quem nunca teve chance, contudo, há ainda os de pensamentos atrasados, que realizam infames apresentações e exposições absurdas da imagem alheia. Entre liberdade e conservadorismo, Hebe nos ensinou que é possível enfrentar quem ainda pensa num Brasil exclusivo de poucos, e como uma mulher, em meio a um universo dominado pela heteronormatividade masculina, se torna a verdadeira rainha de uma mídia que parece inatingível, mas que se abala quando a verdade é exposta. E não estamos falando daquela verdade "editada" para o programa ir ao ar!

Produção: Hebe - A Estrela do Brasil
Direção: Maurício Farias
Ano: 2019
Nota: 4/5 (Ótimo)
Tecnologia do Blogger.