Deus e o Diabo na Terra do Sol - ESPECIAL: MÊS DO CINEMA NACIONAL

O sertão ainda não virou mar e tudo ainda soa muito parecido


Glauber Rocha, aos 25 anos de idade, realizou um marco nas produções da sétima arte nacional, ao contar uma história que ao ser revisitada hoje, diz muito sobre um Brasil que pouco mudou em relação a desigualdade, religião e violência. 
O Cinema Novo alcançou o mundo graças a Deus e o Diabo na Terra do Sol de 1964, realizado no período de Ditadura Militar, tornando-se uma referência que consegue transpor o tempo e nos lembrar que em nossa terra as histórias podem sofrer com as mudanças do tempo, porém possuem uma estrutura que dificilmente se modifica da mesma forma.

Manuel após uma discussão com o patrão acaba matando-o, tendo que fugir com sua mulher, Rosa, e entrando para um grupo de fanáticos liderados pelo profeta Sebastião. Porém, a presença do religioso por aquela bandas não tem sido bem vista, já que seu métodos incluem violência aos que são considerados infiéis. Por isso, Antonio das Mortes é chamado para dar fim aos beatos e seu líderes, colocando em perigo o caminho de Manuel e aquilo em que acredita.

Glauber Rocha aqui faz um trabalho conhecido pelo conceito de "câmera na mão e uma ideia na cabeça". Isso fica claro logo de cara pois a produção não é fácil de ser assimilada e assistida. Podendo até mesmo soar estranho certas movimentações, ações e acontecimentos que possuem um tom muito mais teatral do que cinematográfico. Contudo, tudo isso é justamente parte da linguagem e do contexto em que foi realizado, dando então a obra camadas cada vez mais artísticas e intimistas a medida que as cenas vão surgindo.
O clima árido, a fotografia e o preto e branco da imagem ajudam a aumentar a atmosfera de miséria, desespero e falta de esperança, que fica evidente quando vamos sendo apresentados personagens, que acabam atingindo seu auge através de sequências onde violência, penitências, dor e entrega, saltam a tela deixando tudo um tanto desconfortável, agressivo e poético. O diretor dessa forma, ao movimentar a câmera, usa de planos abertos, subjetivos, acompanha cada passo, expressão, gesto, ao mesmo tempo que as vezes deixa tudo estático, e retorna a comandar  tudo com uma fluidez "grosseira".
Não há aqui efeitos visuais ou especiais, cenários altamente elaborados ou construções que se alterem, tudo é um retrato quase que documental de uma realidade que não se alterou apesar dos anos se passarem.


Tudo o que Deus e o Diabo na Terra do Sol representa ao cinema ao brasileiro se deve também a sua narrativa que demonstra as mazelas e crenças de um povo que se vê dependente de uma figura messiânica, que nada de fundamentado possui.
Se Manuel representa o povo, com sua falta de esperança, é encontrando na religião, na presença de Sebastião, o fio condutor para uma certa mudança. Ao surgir Corisco tudo muda, e o sistema ao qual conhecemos entrega violência, agressividade como válvulas de escape para finalmente se conseguir o que quer. Enquanto que figuras de poder ainda decidem quem deve ou não viver, quem está causando ou não algum tipo de oposição ao que acreditam ou defendem, para isso existe as mãos de Antonio das Mortes.
É um registro atual de um Brasil que ainda não mudou, não se alterou ou pretende sequer realizar transformações, já que andamos a cada dia a dia rumo ao que tanto configura o atraso, o preconceito e a maldade para aqueles que ainda vivem a margem de uma sociedade que arma as pessoas como gesto de esperança. 

Deus e o Diabo na Terra do Sol é esse Brasil que vemos nos noticiários sensacionalistas, nas pregações da televisão, nos discursos vazios dentro do congresso e das câmaras espalhadas por todo território nacional. Com uma direção que entrega toda visceralidade e realidade de uma época, alinhado a uma produção quase que teatral para contar uma história de vida e morte de muitos "Severinos", Glauber Rocha realmente transformou a sétima arte que realizamos para que merecesse a atenção necessária.
O que mais impressiona ao final de tudo é que o sertão ainda não virou mar e cada fala soa muito parecida com que ouvimos atualmente!

Produção: Deus e o Diabo na Terra do Sol
Ano: 1964
Direção: Glauber Rocha
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