Ad Astra: Rumo às Estrelas - CRÍTICA

Uma jornada através da solidão


O gênero de ficção científica abraça diversas vertentes quando precisa contar uma boa história, principalmente as questões psicológicas e filosóficas sobre a existência humana. E mesmo que em meio a tecnologias, descobertas e viagens dos mais diversos tipos, há sempre um momento para se questionar tudo o que está a sua volta. 
Ad Astra, novo filme de James Gray, faz justamente esse trabalho, de trazer a discussão o quanto a humanidade ainda se encontra solitária, mesmo que seu conhecimento o leve a vastidão do universo em busca de respostas e vida fora do nosso planeta azul. Para isso, coloca Brad Pitt em um dos de seus papéis mais introspectivos e contemplativos de sua carreira no cinema.

Roy McBride é um astronauta condecorado, o melhor quando se trata de explorar o espaço. Porém, quando estranhos acontecimentos colocam a vida na Terra em risco, ele parte em uma jornada pelo universo à procura de seu pai, desaparecido em uma missão de exploração há anos e que pode ser um dos motivos para tudo o que está ocorrendo.

James Gray comanda e escreve sua produção espacial indo além de uma simples viagem através de planetas e satélites.
O diretor escolhe uma câmera que procura extrair as reações de seu protagonista diretamente, isso logo de cara fica evidente, quando o reflexo do capacete do astronauta é usado para trazer o título do longa na tela e nos localizar de onde a história está partindo. Assim, acompanhamos cada um dos passos de Roy, a forma como lida com as pessoas a sua volta, com os problemas e sua pronta disposição para ir na próxima missão. Para isso, o diretor utiliza de forma assertiva os efeitos visuais e práticos, criando cenários espaços grandiosos e ao mesmo tempo claustrofóbicos quando se adentra a uma espaçonave, logicamente, o brilhante trabalho do design de produção eleva ainda mais esses detalhes. Desta forma quando Gray decide criar momentos de ação, como uma perseguição de veículos lunares ou um resgate a uma estação no meio do trajeto, a direção subverte tais momentos, deixando de lado as mega explosões e conflitos, para focar nas reações de quem realmente está passando por tudo aquilo.
Ademais, a fotografia dá um tom introspectivo e melancólico a trama, extrapolando a vermelhidão, os tons em azul e o cinza, atrelado a isso e criando uma sensação de apatia diversas vezes, não prejudicial, a trilha sonora entrega sinfonias, os barulhos das naves, trechos instrumentais, nos fazendo acompanhar os sentimentos do personagem principal através do som.


Neste ponto, a narrativa dá a produção ainda mais força!
Quando o longa tem início começamos a perceber o quão estranha é a relação do protagonista com as demais pessoas a sua volta. Não há ligação, sentimentos, muito menos demonstração do que ocorre em sua vida pessoal. Sempre o vemos distante dos outros, dando respostas inexpressivas, automáticas, até mesmo andando por entre os colegas sem ao menos realizar qualquer interação.
Nisso, quando a história vai ganhando os elementos que irão conduzir até o clímax, entendemos que não se trata de mais uma viagem através das estrelas, mas sim de uma descoberta pessoal. Tendo como principal ponto a solidão! 
E o fato de Roy estar em um lugar tão vasto, porém solitário, como o espaço, indo de encontro a uma pessoa que ele mal conheceu, expressa o quanto o ser humano ainda se vê daquela forma. A procura de algo que não sabe ao certo o que é, a conexões que criamos sem importância real e o sentimento de isolamento inerente permeiam cada atitude do protagonista E para dar impacto a essas nuances, Brad Pitt se coloca a disposição do texto.
O ator, em poucas ações, palavras e expressões contidas, que podem parecer repetitivas, não extravasa emoções, sentimentos, até um momento chave. A forma como cria a personagem poderá gerar até um desconforto de quem espera um pouco mais de vivacidade, contudo, se encaixa perfeitamente para onde a atuação quer nos levar.
Entretanto, o principal deslize da produção está em colocar uma narração off do protagonista inúmeras vezes, principalmente para explicar o que está sentindo, o que beira um didatismo incômodo que acaba por atrapalhar momentos em que poderia ser apenas a trilha sonora e a presença de Pitt em tela.

Ad Astra: Rumo às Estrelas é uma ficção científica que mergulha justamente nos elementos que o gênero tem de melhor para contar uma história sobre a solidão humana em meio a universo de possibilidades. O diretor utiliza os aspectos técnicos a favor de sua narrativa, empregando uma beleza, grandiosidade e precisão ao comandar as cenas que vão do drama à ação, sem a necessidade de cair nos clichês superficiais. Empregando conceitos conhecidos, apresentando um universo coeso e crível para fazer seu roteiro transitar livremente.
Um dos grandes enigmas é se realmente estamos sozinhos no universo e talvez essa pergunta já tenha sido respondida por alguém, em algum lugar, porém ainda se espera um contato que trará a resposta definitiva. Enquanto isso, o próprio ser humano cria maneiras de fomentar o seu isolamento, mesmo que não pareça evidente. Ao final, é indubitável que o maior medo no espaço não é aquele que te faz gritar, mas sim o que te faz ficar sozinho!

Nota: 4/5 (Ótimo)
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