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A Censura Nossa de Cada Dia - ARTIGO

Você, eu, todos nós, em algum momento, seremos privados de algo


Nossa constituição federal diz:
"Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.
§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística."
Mas e quando as questões religiosas, preconceituosas se colocam sob toda e qualquer lei? E quando há apoio por parte de quem deveria se opor? O que realmente tudo isso representa para os dias atuais?
É sobre isso que vamos permear nosso pensamento agora, dentro e fora da cultura pop.

Na última sexta-feira, o atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ordenou que fiscais da prefeitura fossem até a Bienal do Livro do Rio de Janeiro afim de apreender, confiscar e empacotar livros que tivessem qualquer temática LGBTQIA+. Principalmente, a história em quadrinhos A Cruzada das Crianças, título da Marvel, por apresentar um beijo homoafetivo entre dois personagens.
Rapidamente a Bienal se posicionou, até mesmo entrando com um mandado de segurança que impediria o tal recolhimento dos exemplares da HQ, que por sua vez foram esgotados em todos os estandes da feira. Contudo, o prefeito conseguiu derrubar a liminar no sábado, retomando o movimento de censura contra a literatura Queer na feira. Com isso, o produtor de conteúdo, Felipe Neto, em uma ação contra o veto da prefeitura, comprou 14 mil exemplares de livros com temática LGBTQ+ e distribuiu na feira de forma gratuita. Logo, no domingo, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffolli, derrubou a liminar da prefeitura, dando um fim a ação de Crivella e de seus co-partidários.

Porém, se algo que a história nos ensina, é que momentos assim podem se repetir.

A Cruzada das Crianças


Publicada pela Marvel em 2010 nos Estados Unidos, tem autoria de Allan Heinberg e sua história começa em um confronto entre os Jovens Vingadores e a Sociedade da Serpente, um grupo de vilões do extremistas, liderados pelo Capitão América que aniquila minorias.
Durante o confronto, Wiccano, perde o controle de seus poderes, deixando vários imigos feridos, principalmente quando um deles ameaça explodir uma bomba que carregava.  Por conta deste descontrole do jovem herói, os Vingadores decidem levá-lo afim de evitar que aconteça o mesmo episódio da saga Dinastia M, onde a Feiticeira Escarlate também se descontrolou e dizimou boa parte dos mutantes. Logo, Wiccano fica ciente de que a Feiticeira pode ser sua mãe, partindo então em uma jornada ao lado de seus amigos para descobrir o paradeiro de Wanda Maximoff e dar a ela uma chance de redenção.

Logicamente, você está se perguntando: E a tal cena do beijo?
Ele acontece na última edição da saga, isso em 2012, quando Wiccano e Hulkling tem um momento de carinho onde tudo aparentemente se encontra resolvido. Tudo isso, sete anos após sua primeira aparição nos quadrinhos da Marvel.
Ou seja, A Cruzada das Crianças não possui "temática" e nem é "voltada" para o público LGBTQIA+, é uma jornada de descoberta, principalmente pela identidade de um herói e seus poderes, que ao término se concretiza com uma manifestação da vitória daquilo que realmente importa, daquilo que realmente é bom.

E o nosso preconceito?

Tudo começou com uma reclamação após a compra de uma história em quadrinhos. E atualmente a palavra "doutrinação" serve apenas para atacar um lado da história. Mesmo que saibamos que sempre existam dois. Esta expressão surgiu em diversos compartilhamentos de imagens, comentários e grupos em redes sociais. Um festival de "achismos" por parte de quem sequer ousou pesquisar para entender do que se tratava a obra em questão. Algo que certamente o prefeito do Rio de Janeiro não fez, aos moldes da maior autoridade hoje no Brasil.
A ação de censura, e deixemos claro que foi uma tentativa de censurar uma obra literária, nada mais é que uma materialização do falso discurso conservador, normativo e regrado que tem se espalhado pela nação, mas se pararmos para pensar e revirar a nossa história, principalmente há uns dez anos atrás, ou melhor, vinte, encontraremos as pessoas, que hoje fazem uso de um discurso nesse tom, aplaudindo a "boquinha da garrafa", vidrados na tal "Banheira do Gugu" e cantando "Robocop Gay" com os Mamonas Assassinas.
Você pode pensar: "Mas os tempos mudaram!"
Será mesmo? Ou será que agora, figuras de poder assumiram a real identidade de boa parte dos brasileiros, aqueles que nunca toleraram minorias, seja elas relacionadas a gênero, orientação ou raça, dando para uma parte da população as ferramentas que mascaram atitudes de preconceito como "defesa da família" e em prol de sua religião? 
Simplesmente hoje as atitudes de ódio se fazem presentes no nosso dia a dia livremente, pois quem veste uma faixa verde e amarela deu todos os cartuchos para tal, literalmente.

E o nerd nisso tudo?

Sabemos bem que a comunidade da Cultura Pop não é acolhedora para quem é diferente. 
Podemos divagar por aspectos simples como as brigas por conta das adaptações, pela velha disputa Marvel e DC, sobre remakes e reboots, live actions e desenhos clássicos, porém o que mais causa espanto é a forma como as pessoas que dizem amar quadrinhos, cinema, séries, games, entre outras mídias, conseguem propagar um discurso de ódio totalmente diferente daquilo que assistem, leem, ouvem ou jogam. E quando líderes, na vida real, usam desse mesmo discurso para proibir, censurar, inibir e machucar minorias, tirando até mesmo os seus direitos, o tal nerd, o geek, o gamer, o otaku, se levanta como um apoiador de tais falas, com argumentos pífios e uma altivez pautada em um conhecimento que nada o fez crescer até hoje.

Quer saber o que mais é chocante?
Pessoas LGBTQIA+, que também estão na comunidade da Cultura Pop, apoiaram pessoas como Crivella e Bolsonaro nas urnas! Logicamente as razões políticas e econômicas irão surgir em suas justificativas, mas nada disso comprova a ação de entregar os seus nas mãos dos algozes, de pessoas que não querem que aqueles que vivem a margem da sociedade em algum momento possam fazer suas vozes serem ouvidas.

A Medida Provisória de nº 870/19, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, não menciona a população LGBT na lista de políticas e diretrizes destinadas à promoção dos direitos humanos no Brasil

E agora o que ocorre? Um leve discurso hipócrita tentando reverter a situação, regado a fotos com leitura dos "quadrinhos proibidos", por parte de quem nunca se posicionou, mostrando que existe sim neles um sentimento contrário as atitudes atuais, contudo, não se pode esquecer onde estava o apoio desses em 2018, ou em anos anteriores! 

Pois assim como muitos personagens que ao pensarem em salvação para suas narrativas, entregaram vários dos seus! Mas certamente eles não contavam com algo: a resistência de quem nunca se escondeu!

A Censura nossa de cada dia está quando olhamos de maneira estranha e julgadora para uma pessoa gorda na rua, quando seguramos a mochila com força ao ver um jovem negro dentro do ônibus, quando estabelecemos padrões na fala, gestos, expressões, quando ao vermos uma manifestação de carinho diferente colocamos dentro das nossos conceitos, exigindo que se adequem, quando interrompemos ou questionamos os conhecimentos de uma mulher. 
Nós censuramos todos os dias! Nós somos instrumentos de proibição diária.
O episódio na Bienal do Livro de 2019 é um reflexo dessas atitudes, que ganharam ainda mais força por conta dos discursos e manifestações políticas em busca de uma melhoria, travestida de moralismo, abraçada ao ódio e o preconceito. E você nerd tem contribuído para isso todos os dias!
Contudo, como toda e qualquer boa história, a bondade e o amor vencem ao final! Talvez um dos meios seja através das mãos de quem nunca passaria pelas mentes dos mais esperançosos, ou por aqueles que decidem não se calar diante das proibições diárias. Há sempre uma esperança que não some ou desaparece no primeiro berro intimidador. Pelo contrário, existe em nós a força de Diana, T'Challa, Carol Denvers, Jean-Paul, personagens e histórias que não serão esquecidas, apagadas ou proibidas por conta da arrogância, ignorância e aversão alheia.
Hoje a resistência se manifesta ao distribuir livros, ao cantar ao lado de uma drag queen, ao fazer um filme sobre manifestações, ou num texto redigido por um editor-chefe gay!
Atualmente os vilões do cotidiano nos assustam mais do que os da fantasia, mas da mesma forma como os heróis que escolhem defender a todos, todas, todis, tod@s, podemos fazer isso todos os dias, o dia todo.
Ao final, deixemos claro algo: Este site é impróprio... para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas!
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