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The Righteous Gemstones - Review

Em nome do pai, dos filhos, sem a filha e sem santidade alguma


Na década de noventa Steve Martin estrelou a comédia Fé Demais não Cheira Bem, que colocava em questão o movimento neopentecostal nos Estados Unidos e os exageros em suas manifestações de fé.
Dezessete anos depois, com John Goodman encabeçando o elenco, a nova produção da HBO parece assumir vários aspectos daquela antiga produção. Não é um remake, não é reboot, mas é impossível não encontrar em referências de uma narrativa na outra, o que não exime das comparações com a realidade que nos faz rir a cada situação protestante absurda de uma maneira nervosa, pois é bem possível que isso esteja acontecendo.

Os Gemstones são uma família de religiosos evangélicos que se tornaram uma grande congregação. O pai, Eli, junto dos dois filhos, viaja o mundo fazendo missões e abrindo novas igrejas, porém as aparências enganam totalmente a medida que segredos vão sendo revelados, a ganância de membros da família vem a tona e o comportamento sem filtro passa surgir a cada nova conversa.
Sejam bem-vindos a essa igreja onde ninguém é o que realmente aparenta, e o humor sem filtros está solto!

Danny McBride é o criador da produção, além de dirigir e escrever o episódio piloto que é carregado de exageros, sem tirar o pé do que aparentemente é real.
Ao adentrar a vida da família religiosa somos levados a conhecer as excentricidades, a ostentação e a forma como lidam com a fé alheia. Por mais que sempre usem a justificativa de estarem realizando a "Obra do Senhor"! Mesmo que isso envolva uma piscina com ondas e diversos crentes quase se afogando antes do batismo.
O diretor utiliza do humor ácido, afiado e questionador diversas vezes, deixando nitidamente que seus atores trabalhem com o texto também no improviso, o que gera boas situações durante dos diálogos. E talvez este seja um dos pontos altos da produção, a interação entre os Gemstones. Cada um, dentro de suas bizarrices, porém mantendo a postura diante do "rebanho" é um verdadeiro exercício de versatilidade em tela, que produz uma comparação automática com diversas figuras reais de tele-evangelistas e pastores de multidões.
Desta forma, a crítica para com a religião fica firmada na trama que McBride dá início. Pois como uma família tão disfuncional e gananciosa consegue orientar, guiar e ajudar pessoas que encontram em algum credo algo para continuar trilhando seus caminhos? Assim, os erros, os "pecados", as ambições de cada irmão surgem em tela, estabelecendo a relação de empatia para com o público. O que se repete com o patriarca da família interpretado por John Goodman, que aparentemente esconde algo por trás daquela figura tão "santificada", ao mesmo intimidadora.
Aliás, é por conta de um mistério que a série sai da linha acomodada de uma trama que poderia seguir qualquer formato, só alterando as personalidades e crenças.
A primeira vista, aparenta mais uma das séries de humor desenfreado da HBO, sem qualquer capacidade de fazer algo que outras produções da casa já não tenham feito. Porém, ao chegarmos no terceiro ato do episódio as coisas ganham novas proporções, até surpreendentes, e novamente, poderiam realmente ter acontecido (ou acontece) com algum pregador famoso.


The Righteous Gemstones não economiza nos exageros, no caricato e no absurdo para demonstrar que fé demais não cheira tão bem assim.
Fundamentada por um elenco que possui uma interação assertiva e competente, a produção realiza uma sátira sobre pessoas que se apropriam da fé alheia para realizar uma obra, que até então, ninguém os pediu para fazer. Tudo isso, escondendo atitudes, querendo um lugar de destaque, usufruindo do dinheiro alheio e se algo der errado, colocando medo em outros ministros da fé pelo controle das igrejas de algum lugar.
Só que isso é só ficção, não temos na vida real, pastores e pregadores envolvidos em escândalos, acusados, fomentando a violência, desviando dinheiro, transformando a fé num grande show regado a passeatas e fogos de artifício. Jamais, e se você está vendo isso, certamente lhe falta um pouco do amor divino em seu coração.
Mas espere, tem algo escrito nas escrituras sagradas: "Para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor." 1 Coríntios 1:3. É, alguém avise os Gemstones, e se puder coloque isso numa certa bancada para ler, porque certamente, tanto essa "fé", como a da série, exalam um odor estranho.
Tudo isso em nome do pai, dos filhos, sem a filha e longe de qualquer santidade! Oh, Glória!
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