The Boys: 1ª Temporada - CRÍTICA

Os seus heróis também pecam


Quem vigia os vigilantes?
Esse questionamento permeava como um todo a HQ Watchmen, uma das obras que foi responsável por realizar uma mudança na visão que temos dos super-heróis que conhecemos. Com um tom real, com problemas e confrontos que estavam presentes na sociedade. Porém, Garth Ennis e Darick Robertson extrapolaram ainda mais essa nova versão dos salvadores do planeta ao lançarem os quadrinhos de The Boys, primeiramente pela DC Comics, que pouco depois cancelaria a revista pelo fato de ser "pesada demais", que mostrava os superseres despreocupados por completo com as consequências de seus atos, e por serem quem são, se colocarem acima de tudo e todos.
Então se você ainda acredita em um Superman extramente bonzinho e um Capitão América escoteiro-amigo de todos, esta não será uma produção para você! Pois a Amazon Prime nos traz uma série que irá mostrar que os nossos "heróis" são excelentes pecadores.

Uma legião de heróis, chamada Os Sete, é que mantém a paz, a justiça e também ganha dinheiro em cima do nome criado por uma empresa que os gerencia através de brinquedos, quadrinhos, filmes e inúmeros produtos. Porém, para alguns seres humanos normais isso tudo está longe de ser perfeito e está na hora de confrontar essas criaturas poderosas. Então quando o jovem Hugh perde a sua namorada por conta de um desses heróis, ele se une a um grupo que fará o possível para expor toda a podridão que existe na vida dos vigilantes.

Adaptada por Evan Goldberg, Eric Kripke e Seth Rogen, em oito episódios, a história permeia os piores e mais bizarros comportamentos dos super-heróis.
A direção escolhe extrapolar no visceral, gore e violento, aumentando ainda mais graficamente as ações e as consequências com que está em volta, quando um desses seres se coloca a disposição de salvar, ou não, as pessoas da cidade.
Desta forma, quando a ação começa, sangue e membros, voam em direção da tela, assim como é possível sentir cada golpe, contusão e impacto, deixando tudo ainda mais desconfortável, mesmo que nos faça permanecer com o desejo mórbido de continuar assistindo. É impossível não deixar de fazer comparações nesse momento, principalmente quando a câmera lenta começa deixando desde um ataque de terroristas em um avião, a um caminhão ser parado com o corpo, com um toque de Zak Snyder ao extremo. Ou as sequências apressadas, repletas de efeitos visuais, onde muita coisa acontece e quase não é possível entender. Insira aqui o nome qualquer diretor genérico da Marvel!
Junte isso a fotografia que não é colorida exacerbada, nem sombria bucólica, o que torna tudo uma amalgama satírica do que já foi, nesse aspecto, apresentado em séries e no cinema por ouras produtoras.
Ao escolher esse caminho, a produção então abraça sua classificação do jeito correto, sem a necessidade de modificar elementos de forma extrema dos quadrinhos. A transposição da história ganha novas nuances, o que é ampliado na construção dos personagens e no ritmo, que por não possuir sempre momentos de combate, se empenha em costurar cada um dos arcos de forma que tudo venha fazer sentido até o capítulo que encerra esta primeira temporada.


A narrativa procura não apenas abraçar o escárnio e a comédia para desconstruir heróis conhecidos, os colocando na alcunha de outras personagens, há muitos mais dentro de um texto que se propõem a falar de diversos aspectos da sociedade atual, tocando em inúmeras feridas.
Se há o apreço quase que divino por esses seres tão poderosos, que tal atrelar suas personas a verdadeiros cultos e seitas. Se uma delas passou por uma situação de violência e entendeu a importância de falar sobre, que tal usar isso para criar um movimento social que possa empoderar e dar vozes a outros casos. Se outro perde a chance de continuar sendo o melhor no que faz, que tal o colocar diante de uma situação de discriminação racional que ocorre todos os dias. Tudo isso sendo realizado com muitas campanhas de marketing, produções cinematográficas, aparições em programas, artigos, brinquedos. Coincidência com realidade? 
Ou seja, o roteiro não apenas modifica nossa visão para com aqueles que acompanhamos nos quadrinhos, no cinema, nas séries. Ele eleva o questionamento de porque estamos colocando nessas pessoas um certo sentimento de esperança.
E isso podemos transpor para a nossa sociedade quando depositamos em políticos, artistas, líderes religiosos e alcunha de um Messias perfeito, imune aos erros, distante de pecados, que não se assenta na roda daqueles que são considerados contrários de suas crenças. Por isso, a série faz esse um dos seus principais trunfos, acabar com o esteriótipo de heróis livres de qualquer mancha, mostrando que as vezes para se realizar o bem para todos, é necessário deixar que outros morram, seja num acidente de avião ou quando se está indo atrás de drogas para ampliar seus poderes.

Ademais, tais atitudes são compostas por egoísmo e megalomania, maquiadas de falas sobre o bem de todos aqueles veneram tais criaturas, entretanto, ao desligar das câmeras tudo se torna completamente diferente. Homelander, interpretado Antony Starr, é o Superman daquele universo. A figura divina e poderosa usa justamente essa alcunha para se colocar acima dos outros, matar, logo após sorrir para câmera com o penteado impecável e liberando uma frase de convencimento para todos os seus seguidores (Lembra de alguém assim?). Queen Maeve, ganhando vida aqui pela atriz Dominique McElligott, é a versão da Mulher-Maravilha, que não sabe ao certo quem é, ou melhor, não pode ser quem deseja, apenas segue ordens e não se vê obrigada a trilhar um caminho de liderança, fazendo com que a heroína fique apenas consentindo com tudo o que está a sua volta.
The Deep, vivido pelo ator Chace Crawford, vai da fama ao descaso em pouco tempo, apesar de sua figura ser sempre alvo das piadas que envolvem todo e qualquer personagem de quadrinhos que tenha poderes relacionados ao mar. A-Train, interpretado por Jessie Usher, precisa se manter sempre no topo e quando algo o faz retroceder, uma simples experiência desencadeia vários questionamentos, principalmente as questões raciais nos Estados Unidos. Por fim, Starlight, que ganha vida por Erin Moriarty, é quem permeia a linha da razão e do poder diversas vezes, condicionada desde pequena a ser uma heroína, ao ter diante dos olhos a verdade, suas intenções também mudam.
Essa escolha de transformar heróis em personas detestáveis e humanas é o grande ponto de virada da história, não apenas os colocando nas ocasiões que tais comportamentos surgem, mas construindo a ganância, o machismo, o sexismo, o preconceito, pois ao mesmo tempo que o expectador começa a enxergar em certas atitudes figuras públicas e até próximas, nitidamente o medo desses seres em parecer com aqueles que não tem nenhum poder, sobressai, revelando sua vulnerabilidade em algum momento e assim, dando a oportunidade para que sejam combatidos de igual forma. Comprovando que é possível ferir os deuses!

The Boys vai além de uma simples desconstrução da figura heroica, abraçando a crítica e a sátira política, social e cultural do que estamos vivendo nos dias atuais, através de personagens que nos dão a capacidade de comparar a série não apenas com aqueles que conhecemos dos quadrinhos, mas atrelando a pessoas reais suas ações. Com uma direção que explora a violência, o gore, mesclando momentos em que consegue fazer com que a personalidade de cada membro dos Sete venha se desenvolver, o material final é uma obra capaz de causar inúmeros sentimentos que irão da revolta ao medo, da empatia ao total desprezo por quem usa uma capa esvoaçante.
Logo, olhar para o céu em busca de esperança não será mais uma atitude corriqueira de quem termina a produção, pelo simples fato de que daquele lugar pode vir um gesto de salvação, tanto como uma rajada de energia capaz de dizimar boa parte daqueles que ainda depositam nesses heróis, e em seus discursos, a fé. Não que você tenha que deixar de acreditar, mas convenhamos que ninguém com tanto poder assim, se mantém firme até o final apenas ajudando senhoras a atravessar a rua e resgatando gatinhos em árvore. 
Para ser sincero, nesse universo, e no nosso, quem detém o poder despreza quem não é bom o suficiente, aos olhos daquele que está no comando, contudo se aprendemos algo nesta primeira temporada, é que todo herói e mito tem um ponto fraco, e quando menos se espera sua existência se esvai numa explosão que irá expor até mesmo suas vísceras! 
Os seus heróis pecam e os mitos não existem!
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