Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro - CRÍTICA

O velho hábito de contar histórias de terror que nunca tem fim


Quem nunca, durante a infância, até mesmo na adolescência, reuniu os amigos para contar histórias de terror? Ou ao menos repetir uma lenda que certa vez foi contada por alguém próximo que afirmava que tudo aquilo havia acontecido de verdade. 
Fábulas ou não, tais contos percorrem o imaginário da literatura, do cinema, ganhando forma, cores e proporcionando sustos. Assim, utilizando como base a série de livros escrita por Alvin Schwartz, o brilhante diretor e produtor Guilhermo del Toro adentra os pensamentos e os medos ao se ler algo que pode causar arrepios, ao mesmo tempo, trabalhando todo os aspectos que são capazes de homenagear esse gênero cinematográfico que consegue nos fazer saltar da poltrona.

Stella e seus amigos querem aproveitar o último Halloween juntos, após uma brincadeira com um valentão da escola, o grupo decide terminar aquela noite de "gostosuras e travessuras" em uma mansão considerada assombrada. Ali viveu uma jovem chamada Sara Bellows que passou por terríveis momentos na vida os transformando em histórias macabras, guardadas em livro. Porém, Stella acaba se apoderando do escrito, desencadeando os efeitos dos contos em cima daqueles que estavam no local.

André Øvredal dirige a produção que conta com roteiro e produção de Guilhermo del Toro.
Desde o começo fica perceptível toda ambientação e atmosfera que homenageia os clássicos filmes de terror, até mesmo seguindo uma fórmula clássica para dar o tom inicial da trama: Um grupo de amigos de uma cidade do interior numa casa assombrada, descobrem algo perigoso e logo vão sendo alvo das consequências de terem ido até lá. 
Apesar de soar piegas há todo um trabalho de criar realmente situações de apreensão, medo e sustos. Por mais que não sejam extremos, a forma como música, movimentação de câmera e fotografia trabalham, expressam o cuidado da película em ir além de mais um filme do gênero com adolescentes. 
Usando isso de um jeito diferenciado, as sequências são montadas com uma estética que abusa dos efeitos práticos, deixando de lado o digital, principalmente por se passar no final de década de sessenta. Fazendo com que ambientação eleve a aura de suspense, transformando certos lugares em verdadeiros labirintos sem escapatória do perigo que se aproxima, por mais que sejam enormes. E a medida que as cenas onde os contos ganham vida surgem, mais o espectador quer saber, mais ele quer ouvir e mais incômodas são as criaturas. Essas, expressando um excelente trabalho de corpo e maquiagem, atrelam a produção o valor de deixar suas aparições desconfortáveis e tensas, pois por mais que as lendas sejam conhecidas, não se sabe ao certo o que cada uma fará com suas vítimas.


Desta forma, a narrativa explora o material original além de acrescentar e mesclar diversas passagens para dar um ritmo assertivo a tudo que será contado no escuro.
Ademais, o roteiro faz homenagens e referências a outras produções do gênero que vão de A Noite dos Mortos Vivos ao Monstro do Lagoa Negra, contextualizando ainda mais o que estamos prestes a acompanhar. Nesse jogo nostálgico, o roteiro deixa de plano de fundo o contexto histórico da época, que fará todo sentido quando descobrirmos as ações de um dos protagonistas, ao mesmo tempo que a lenda principal faz uma metáfora com a vida da personagem principal. Stella é a típica adolescente curiosa, com medo, contudo quer ir até o final da história. Certamente ela representa nós espectadores com a mesma idade que por mais medo que tivessem, continuavam assistindo aos filmes de terror, mesmo que isso prejudicasse o sono.
Mas a produção não consegue sustentar o senso de mistério até o final. Em determinado momento tudo se torna incoerente, com um idas e vindas de lugares que poderiam ser substituídos por detalhes maiores das histórias que estão relatadas. De igual modo, o clímax se torna arrastado e clichê, culminando em uma sequência desnecessária que serve apenas para reafirmar, de maneira bem didática e piegas, que estamos acompanhando histórias assustadoras.

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro mistura aventura e terror, ao mesmo tempo que aposta nos elementos nostálgicos para dar vida ao material literário de uma maneira assertiva e divertida em tela. A direção trabalha com personalidade, fazendo com que fotografia, ambientações, efeitos e maquiagem realmente entreguem a atmosfera amedrontadora que se espera de produções do gênero.
Dizem que histórias de terror jamais são esquecidas ou se perdem no tempo, pois sempre haverá alguém que guardará na memória os fatos que poderão ser relatados para novos espectadores e sucessivamente, mantém a tradição. E uma vez que começamos a contar, os fatos podem ganhar novos personagens, formas e lugares, mas o importante é que continuem a ser transmitidas, fazendo com que a cultura pop sempre tenha onde se inspirar para transformar lendas em tramas capazes nos fazer duvidar daquilo que se leu. Ainda assim, lá no fundo da nossa mente, há sempre uma certeza, aquela certeza que nos faz acender as luzes dos cômodos, cobrir bem os pés antes de dormir e esperar que os barulhos sejam apenas algo físico, que vão passar. 
Se não passarem, bem, eis uma nova história a ser contada em volta de uma fogueira ou quando tudo tiver em plena escuridão!

Nota: 3,5/5 (Muito Bom)
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