Euphoria e a Catarse Sentimental de uma Geração

Os extremos que vivenciamos a cada dia moldam quem somos



Drogas, sexo, violência, álcool, permeiam a vida dos jovens na época de formação intensamente, trazendo consigo a necessidade para que suas primeiras experiências ocorram. 
Muitos percorrem os caminhos escolhidos por aqueles que são seus responsáveis, outros preferem ir por conta própria, de cabeça em inúmeras venturas que não se sabe ao certo onde vão culminar. 
O resultado? Uma catarse de sentimentos e decisões que certamente irão se transformar em marcas para o restante da vida, e nesse caso, Euphoria utiliza dessas consequências para demonstrar a capacidade intensa dos jovens de ir além do que querem, do que as pessoas planejam, mas principalmente, dos seus limites.

Rue é uma adolescente com transtornos psicológicos que acaba encontrando nas drogas uma maneira de compensar seus principais dilemas.
Após sair da reabilitação, a jovem se vê tentando retornar a vida costumeira que tinha, até que uma nova garota chega a cidade, Jules, despertando o seu interesse, ao mesmo tempo adentrando ainda mais a um mundo de drogas, sexo e rebeldia, o que colocará essa amizade em risco, além de trazer à tona segredos de outras pessoas de forma extrema.

Com oito episódios, Euphoria vai além de qualquer produto que traga histórias de adolescentes e seus dilemas diários do ensino médio. Aqui, tudo é agressivo, exposto e direto!
A produção adentra um território que atualmente poucos se propõem a andar e conhecer, a real vivência dos jovens durante as suas descobertas. 
A série com sua narrativa nada convencional, vai intercalando o jogo de câmera, a narração da protagonista e a montagem com acontecimentos que para muitos são considerados "polêmicos". Para criar tais atmosferas, carregadas de um tom sombrio, melancólico e misterioso, o neon assume seu papel na fotografia nos ambientes escuros, a sombra e a luz que se tornam quase algo único e um tom de sépia nos poucos takes durante o dia, ganha seu espaço. O que torna o produto final tomado por uma escuridão literal e metafórica. 
Assim, quebrando constantemente a quarta parede, os assuntos considerados tabus pela sociedade vão sendo descortinados diante do público, elevando a capacidade de ser natural diante de algo que certamente faria, ou faz, muitas pessoas ainda virarem o rosto.
Desta forma, utilizando também de um tom fantásticos, experiências como o uso de drogas, a primeira relação sexual e suas descobertas, o abuso, a violência, transcendem a tela de uma maneira quase que incômoda, deixando no pensamento de quem assiste que todas aquelas histórias existem, já aconteceram e acontecem de uma maneira ou outra. Seja a exposição da intimidade na internet pelos colegas, o bullying por não seguir os padrões estabelecidos, por não "escolher" o gênero considerado "normal" ou por se entregar de vez a um vício que não parece acabar! A viagem técnica de Euphoria ultrapassa a tela realizando uma mudança por completo no gênero de série que sempre carrega como trama principal o dia a dia de adolescentes e seus problemas.


Mas o que realmente faz de Euphoria uma série importante?
O seu diálogo com a realidade!
Ok, neste ponto podem ser levantados diversos questionamentos e argumentos acerca da vida sexual de adolescentes, a forma como são criados, educados, onde andam, quem são suas amizades, porém o fator crucial é o quanto o roteiro retrata algo que sempre irá permear a sociedade: uma geração é o reflexo da outra.
Se Rue, Nate, Jules, Katy, possuem problemas, vícios, segredos, dores, é porque em algum momento, vivenciaram algo extremo e aquilo se tornou o impulsionador de suas vidas. E convenhamos, pais e responsáveis jamais querem observar em grandes proporções os erros que já cometeram diante da criação de sua prole (Não é atoa que um grupo queria boicotar a série). Essa forma de discurso natural, incisivo e chocante torna o texto da produção uma das obras mais sinceras sobre crescimento e confusão, durante uma fase da vida que se é condicionado a muita coisa. Por isso, se existe uma geração de Millennials mais preocupada com as publicações, com relacionamentos intensos, contudo curtos, e o desprendimento para certas convenções sociais obrigatórias, é que justamente, sempre na historia da humanidade, pessoas com esse tipo de comportamento irão se levantar.

Talvez o que mais assuste durante a narrativa de Euphoria seja a superexposição sexual, o consumo de álcool e drogas ilícitas, a falta de pudor e despreocupação, entretanto, ao trazer cada um desses pontos para a história, os arcos nos apresentam também as causas e consequências. Nada aqui é colocado de maneira aleatória, tudo faz parte do contexto, interligando as partes e completando o todo que se quer transmitir. Neste caso, deixando de lado a exploração do corpo da mulher, aqui se escolhe superexpor o homem, o pênis, seus corpos, quebrando o conceito de audiência predominante sexista, que sempre faz uso do par de seios de alguém para garantir seus espectadores por mais uma semana. Da mesma forma, ao usar crack, ecstasy ou remédios, a protagonista não apenas irá desmaiar ou ficar rodopiando em cena, isso interfere ao contar os fatos, ao conversar com outros personagens, gerando um desconforto palpável de quem, por mais que demonstre o contrário, ainda está atrelada ao vício.
E ainda que nenhum dos personagens representem pessoas próximas ao convívio social do espectador, isso não quer dizer que não existam. E eis o grande trunfo de Euphoria, estourar a bolha do pensamento de que temos uma geração que apenas está entregue as tecnologias. Existem inúmeras situações ocorrendo e são justamente essas, consideradas polêmicas, tabus, estranhas, que formam o discurso que consegue aos poucos minar a dose de esperança que os personagens carregavam, tornando-os prisioneiros de seus próprios atos. Pois aqui e na vida real, não há diálogo!

Euphoria, em sua primeira temporada, modifica tudo o que já foi realizado sobre uma fase da vida em que não se sabe ao certo o que se deve fazer ou escolher.
Abrindo mão daquilo que é convencional, tanto em sua técnica, quanto na forma como a história está sendo contada, a série subverte e rompe com o clichê proposto por diversos outros programas que poderiam realizar algo parecido. Não seguindo fórmulas "teens", não se preocupando em resolver mistérios, simplesmente expondo um pouco do quão real e sombrio pode ser o crescimento. 
E todo e qualquer tipo de exposição da realidade, assusta!
Ao final, quando a protagonista se vê carregada por diversas pessoas, num momento onde música, luz, cores, toques, sentimentos, sons se tornam uma coisa só, podemos encontrar aí mais uma metáfora. Aquela que expressa a vida de quem está em meio a tantas coisas acontecendo, em meio a tantos questionamentos, num turbilhão de ordens, regras, inquietações, que qualquer coisa, seja a menor, que possibilite um escape, será suficiente para desencadear algo assustador para muitos: a realidade de quem somos, contudo abrindo caminho para um desfecho sem retorno.
Assim, a catarse sentimental de uma geração ganha espaço refletindo a existência, e se encerra num clímax eufórico, inquietante e triste!
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