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Espero tua (Re) Volta - REVIEW

Uma bomba de gás lançada contra uma multidão de jovens manifestantes equivale a 500 merendas escolares desperdiçadas


Em 2013 o Movimento Passe Livre levou milhões de pessoas as ruas, movidos pelo desejo de reduzir o valor da passagem de ônibus em São Paulo. Sociedade nas ruas, o governo recuou. Contudo, como a história nos conta, as coisas ganharam uma proporção inesperada. 
Em 2015, novos movimentos começaram, contra as mudanças no sistema de educação da capital paulista, que causaria o desmonte de escolas, professores demitidos e alunos sem vaga. Logo, os estudantes se reuniram e passaram a ocupar as instituições de educação, um lugar que é seu, um espaço propício para que estes atos ocorram. Sendo assim, através do olhar sincero e imersivo da diretora Eliza Capai, os fatos que delineiam os movimentos secundaristas são revelados a todos, em pouco mais de noventa minutos, que se tornam uma verdadeira aula cinematográfica de política, cidadania e encontro com a identidade daqueles jovens.

Marcela Jesus, Nayara de Souza e Lucas "Koka" Penteado, conhece esses nomes? Talvez sejam pessoa que passam despercebidas no cotidiano, porém, nesta história eles são os protagonistas, e irão contar como os movimentos secundaristas aconteceram de fato. Como sua luta pela melhora da educação começou e o que tudo isso representa para cada um deles. 
Espero tua (Re) Volta é o documentário que serve de ferramenta para tornar essas vozes conhecidas diante de um Brasil que tantas vezes os tentou calar.

Eliza Capai é quem comanda a produção que possui parceria com a Globo Filmes, contudo, sua distribuição tem sido feita de maneira independente. 
O documentário, com pouco mais de uma hora e meia, possui um narrativa que dá aos três protagonistas o lugar de fala essencial para que suas histórias em meio aos movimentos estudantis de 2013 e 2015 possam surgir em tela. Escolhendo uma edição dinâmica e fluida, a diretora mescla entre os acontecimentos das datas que são mostradas, com a reação de cada uma de suas personagens. Sejam os confrontos na rua, a organização da escolas e até mesmo uma conversa informal com os amigos, a câmera ganha um aspecto subjetivo diversas vezes, como se estivéssemos no exato momento em que tudo está se desenrolando. Desta forma, graças a uma visão empática, Koka, Marcela e Nayara vão nos mostrando o seu dia a dia, de onde vem, onde estudam e o que os levou até lá. É como se a diretora colocasse a câmera na mão daqueles adolescentes e dissesse: "Me conte o que você está vendo". E o olhar se torna o nosso. Eliza não economiza em informação e dados para nos trazer as diferentes formas de sucateamento que ocorrem na educação, os discursos demagógicos, além de nos lembrar que a história se repete de uma maneira irônica, mas profundamente trágica.


O grande trunfo de Espero tua (Re) Volta é justamente a sua narrativa que possui três pontos de vista diferentes para um mesmo período. Uma militante que se encontra como pessoa em meio a tudo, um jovem talentoso que sofre com o racismo diário e a garota politizada que se coloca a disposição de liderar. Os três com o mesmo objetivo, uma educação de qualidade.
Essas três vivencias são responsáveis por nos conduzir diante de uma catarse emocional, política e social do Brasil. A cada momento, os jovens dividem a narrativa, numa brilhante brincadeira do roteiro de criar uma disputa por fala, o que nos apresenta momentos de total tensão e desespero, como a mulher negra moradora de rua golpeada por um policial diante de uma manifestação, quando a Assembleia Legislativa é ocupada ou quando os estudantes são reprimidos com um grau de violência absurdo. 
A medida que os fatos vão sendo descortinados, o trio de personagens são encarregados também de apresentar os dados que complementam ainda mais acontecimentos, fazendo com que tudo ali tenha uma base, uma fundamentação. E novamente o protagonismo é colocado nas mãos destes jovens, que representam muito mais que apenas estudantes. Eles fazem parte das minorias tão atacadas diariamente, são mulheres, LGBT's, negros, que aqui conseguem contar suas histórias e esse ato revela que ao mesmo tempo que escolas eram ocupadas (não invadidas), que a polícia os agredia (não garantindo a sua segurança) e que as vitórias aconteciam, seus corpos, seus pensamentos, seus desejos também ocorriam, descobertas ganhavam força e os medos, infelizmente se tornavam mais reais.
Nessa capacidade de tornar tudo tão próximo, percebemos que os movimentos que lideraram tantos outros, que serviram de inspiração para muitos, carregavam pessoas que precisavam enfrentar a discriminação, a violência e suas próprias limitações, como a ansiedade. E nesse trabalho de trazer para tela o que é real, o que não foi mostrado pelas grandes mídias, o texto do documentário se torna mais uma peça importante para entendermos os dias tenebrosos que estamos vivendo atualmente.

Espero tua (Re) Volta é uma obra essencial para formação de estudantes, professores e profissionais da educação. Mas acima de tudo, é uma produção que deveria ser transmitida para toda família, para o tio preconceituoso que deseja a ditadura militar, para o amigo que diz que racismo não existe, para a colega de trabalho que se sente prejudicada quando uma manifestação bloqueia o trânsito. 
Com um jogo imagético carregado de personalidade, um edição dinâmica e uma narrativa divertidamente politizada, Eliza Capai nos leva uma verdadeira aula sobre a história do Brasil, social e política, de fatos que talvez tenham sido contados por aí de outra forma.
Na verdade tanto ela, quanto nós espectadores, somos alunos de um trio de professores que nos mostra que mesmo em meio as explosões de bombas de gás, mesmo diante do silêncio das autoridades, mesmo tendo que mostrar nota fiscal de um item que é seu, esperar diante de tantos acontecimentos escusos pode ser um ato que atrapalhe o futuro de tantos outras Marcelas, Nayaras e Kokas. Não é apenas um documentário, é o brado de quem cansou de ficar calado diante do sistema!

Espero tua (Re) Volta entra em cartaz do Cinemetrópolis da UFES, além disso, há possibilidade de entrar em contato com a diretora para realização de exibições da produção em diferentes locais.
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