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Bacurau - CRÍTICA

O cinema nacional insurgente em meio a dias sombrios



A revolução do cinema brasileiro começou na década de noventa, quando após ter seu principal órgão de auxílio para novas produções extinguido, voltou a ter força graças a nomes que se colocaram a frente para defender as produções realizadas em nossa pátria amada, salve, salve! Carlota Joaquina de Carla Camurati, Central do Brasil de Walter Salles, Cidade de Deus de Fernando Meirelles e Kátia Lund, são obras que trouxeram um movimento de renovo para com nossa cultura
Os anos passaram, novamente vivemos dias sombrios e de incertezas para o cinema nacional, porém através das mãos de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vemos insurgir uma história sobre os diversos "brasis" que conhecemos ou não, e que de alguma forma, mantem a nossa cultura firme, forte e estabelecida. Novamente nos lembrando do sentimento renovador quando saímos da obscuridade fílmica. E quando alguém tenta dominar, apagar ou invadir este espaço, é o momento de um espetáculo visual que coloca o Brasil como ele é, em cores e voracidade.
E acima de tudo, resistindo!

Daqui alguns anos, a cidade de Bacurau, no interior de Pernambuco, vive de forma normal, com sua cultura, sua sociedade, suas tradições. Porém, algo acontece que o vilarejo deixa de aparecer no mapa e logo seus habitantes começam a aparecer mortos, o que nos leva ao mistério do que pode estar acontecendo naquele lugar.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles dividem a direção de uma maneira que subverte diversos gêneros e subgêneros do cinema clássico.
A princípio a câmera escolhe o molde habitual para começar a contar sua história, optando por planos abertos que evidenciam a beleza do sertão, os ambientes áridos e a escassez que sempre estão presentes, resultado alinhado a um trabalho de fotografia que tanto de dia quanto no ambiente noturno sabem por onde percorrer, o que mostrar e como revelar a muitos essa parte do Brasil. Ao mesmo tempo, a produção que inicia com créditos que lembram as produções de ficção científica da década de oitenta, se torna uma mescla de inúmeras referências, ao escolher planos nada convencionais para mostrar um enterro, um velório e até mesmo como a cidade vai se construindo. Muito além de focar apenas nos seus personagens, os diretores nos revelam que Bacurau é um organismo vivo, tem suas necessidades, tem suas formas de expulsar quem lhe causa mal e ainda se organiza para se manter em pé. 
Logo, quando é necessário adentrar o suspense, a tensão é estabelecida, aliada a uma trilha sonora que vai de Gal Costa a John Carpenter, dando um tom sobrenatural, tecnológico e de perigo iminente. E no instante em que se escolhe partir para o visceral e gore, não há economia em nenhum momento, mesmo que câmera não foque na ação, sabemos o que está acontecendo. Os diretores escolhem um espetáculo de impacto, eufórico, histórico em seus elementos inspiracionísticos inerente na forma como as coisas ocorrem!
Assim, nesse baile imagético que corteja diversas formas de se contar uma história na sétima arte, a psicodelia, a violência e o tom político vão crescendo a cada novo elemento narrativo que vai se encaixando, sem perder o ritmo, o mistério e o que desde o começo está sendo contado.


Desta forma a narrativa vai demonstrando um festival de alegorias acerca do Brasil de ontem, de hoje e das possibilidades terríveis que poderemos enfrentar daqui alguns anos. 
De maneira gradual, sem didatismos, os pontos que foram brevemente mostrados ganham força, para nos lembrar de algo que passa rapidamente em uma televisão, é comentado ou até mesmo cantado em forma de ‘repente’. Por isso, Bacurau ganha uma forma inesperada e eis a grande estrela da produção: A cidade! Pode, e certamente deve representar inúmeras outras localidades do nosso país, com sua cultura própria, costumes únicos e figuras importantes para manter tudo aquilo do jeito que se conhece. E ainda que na cidade exista um museu, é através de seu povo que a história é contada, e se repete, em palavras e ações. É ousadia dizer que a história do Brasil está no cerne de Bacurau? Acredito que não, encontramos no texto a corrupção em forma de reeleição, o desejo do retirante em procurar algo melhor, o retorno a sua terra, as figuras de representatividade de uma comunidade, o descaso de quem deveria estar no poder, a violência que pode vir de fora, abraçada por quem deveria no caso servir como instrumento de proteção e a resistência de um povo muitas vezes subjugado de maneira cruel. 
E nesse ato de resistir, o discurso político de Bacurau nos mostra a capacidade de um povo sofrido em se manter fiel aquilo que acredita, de quem construiu a sua história através das lutas e de revoluções, mesmo que para isso a agressão se torne o único meio de manter os alicerces internos e externos em pé. Diante de uma situação que os coloca nas mãos de quem os quer apagar da história, sem apreço ou empatia por tudo o que já foi realizado naquele lugar e por aquelas pessoas.
Como um verdadeiro grito de permanência, o povo de Bacurau insurge em meio a dias sombrios, aprisionando o seu algoz, e deixando claro que ali continua uma gente formada por Teresas, Lungas, Domingas, Plínios, Carmelitas, com uma força incontrolável quando o motivo é sobreviver em prol de seu legado, representando todo aquele que algum dia já teve que enfrentar um obstáculo pelo simples fato de ser quem é! 

Bacurau é uma obra farol, uma cidade farol, uma luz que se destaca no meio do sertão pernambucano para nos lembrar que resistência requer luta, e essa luta, muitas vezes, acontece em nossa casa. Ao abraçar e subverter diversos gêneros, a direção entrega um espetáculo visual que vai do suspense ao terror, do drama a comédia, mas sem a necessidade de exageros ou mesmice, e quando é necessário mexer com o pensamento, com a imaginação e a visão do espectador, novamente somos entregues a mudanças na narrativa que servem para engrandecer ainda mais a força de sua história.
Tal história é formada por um professor negro, uma médica nordestina, uma jovem determinada, uma senhora idosa, a dona de um bar, um grupo de prostitutas, figuras que hoje e amanhã, talvez por mais três anos, ainda sejam vistas como a escória, como aqueles descartáveis de uma sociedade apoiada na violência em prol de quem pouco está interessado em suas vivências. Porém, para o pavor destes, tais figuras resistem, existem e lançam mão de suas armas para combater quem os quer apagar do mapa sem medo. Infelizmente, em nossa história, muitas pessoas como estas foram esquecidas, descartadas, para que o Brasil ganhasse uma versão “polida” dos seus acontecimentos, mas o ato de se erguer e continuar não pode ser retirado, e isso faz com que a verdade possa ser contada e espalhada.
O cinema nacional precisava deste momento, da demonstração da sua resistência em noites cheias de perigo e em dias onde claramente podemos ver aqueles que nos querem sem vida, e em meio a tudo isso, Bacurau vive! O Nordeste vive! A sétima arte brasileira vive!

Nota: 5/5 (F*D# PR@ CAR%LH$)

P.S: Vá assistir e fique longe de qualquer tipo de spoiler! 
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