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Stranger Things 3 - CRÍTICA

Terror, suspense, gore em uma aventura que abraça todas as emoções em um verão de mudanças


Trabalhar com elementos nostálgicos pode ser um grande acerto como pode gerar uma certa sensação de que tudo aquilo não funciona para dar a narrativa um verdadeiro ritmo. Stranger Things em suas duas primeiras temporadas utilizou essas nuances como muletas para conduzir sua história, o que resultou em uma segunda temporada morna e sem tantos atrativos.
Dois anos após a última aventura, somos contemplados então com uma produção que realmente abraça todos os elementos que decidiu evocar quando teve início, mas desta vez eles são coadjuvantes, o que importa aqui é a aventura, o perigo e principalmente, o crescimento dos personagens em meio as perdas e novas escolhas.

A cidade Hwakins vive um momento de paz, principalmente que o verão está fazendo com que todo mundo se divirta de alguma forma. Porém, algo está acontecendo de errado. Um portal está sendo aberto para o Mundo Invertido, fazendo com que o Devorador de Mentes consiga se apoderar de pessoas para criar um exército e tudo destruir. Assim, cabe a Mike, Dustin, Will, Lucas, Max e Eleven, junto de seus outros amigos, deterem essa nova ameaça antes que tudo seja dizimado!

Matt Duffer, Ross Duffer, Shawn Levy e Uta Briesewitz comandam a produção com oito episódios criada pelos irmãos Duffer. E desta vez elevam os aspectos técnicos da série, apresentam verdadeiras aulas de direção, montagem e fotografia.
Ao abraçarem os conceitos de terror (principalmente fazendo referência a Invasores de Corpos e Dia dos Mortos) é criada uma atmosfera densa, ao mesmo tempo que o colorido do verão seja o contraponto de tudo que começa a ser mostrado desde o primeiro episódio do terceiro ano. Com isso, a direção cria ótimas sequência de ação e suspense, proporcionando o entendimento de que as ações trarão consequências catastróficas para os personagens. Desta forma, planos longos são usados, câmeras que giram em 360 graus, além de ponto de vistas que começam de um determinado local e finalizam em outro, gerando total compreensão do que está acontecendo.
Junte esses elementos a uma fotografia colorida, avermelhada, que se faz o oposto dos perigos apresentados, brincando então com as percepções dos espectadores pois se nas duas primeiras temporadas tudo seria solucionado com uma boa dose de poderes sobrenaturais, desta vez, pode ser que eles não sejam os suficientes.
Para isso, ao trabalhar a construção de um vilão que possui uma consciência coletiva, o ritmo pode transitar de diferentes formas pelos gêneros e subgêneros, dando aos espectadores cenas como o ataque do hospital, a investigação numa base militar subterrânea, perseguição e confronto em uma cabana na floresta e até mesmo um show de fogos de artifício.
Assim, em meio a tantas escolhas para tornar o espetáculo visual atrativo, as referências são meros adendos no decorrer da narrativa, e não mais o que mais importa Se antes de tudo, Stranger Things era sinônimo de menções ininterruptas de filmes, músicas, séries e outros produtos dos anos oitenta, os diretores mostram quão estranha, violenta, bizarra e sinistra a produção consegue se tornar. Pois quando é necessário golpear alguém com uma tesoura, o sangue vai jorrar, os membros serão decepados e cada vez mais cenas semelhantes a possessões irão surgir. Um prato cheio para os amantes de um bom horror!


Logo, o roteiro começa um trabalho de finalização dos arcos apresentados desde a primeira temporada, ao mesmo tempo que da início a novas jornadas que precisam acontecer.
A mudança de comportamento e o crescimento são aspectos explorados de diferentes formas, não é só apenas dar a um personagem um relacionamento, é fazer com que aquele momento se torne e crie situações que contribuam para sua transformação no decorrer do roteiro. Ou quando uma personagem precisa enfrentar o chefe e os demais colegas com seu machismo institucionalizado, da mesma forma quando o passado ainda impede que novas decisões possam ser tomadas.
E novamente, tudo funciona como uma grande partida de RPG, onde todos os jogadores estão a mercê do Mestre, e esse Mestre, certamente não é mais algo que consegue ser detido estendendo a mão e sangrando o nariz.
Nesse jogo narrativo, as personalidades e escolhas dos indivíduos surgem como seus próprios inimigos, o fato de não se expressarem, não se comunicarem, as paranoias, as perdas ganham formas diferenciadas ao longo da série. Seja através dos monstros, dos inimigos próximos ou a ameaça soviética. O texto então se torna auto-referente, onde situações que poderiam ser resolvidas facilmente como visto nas aventuras anteriores, agora são mais reais, densas e podem matar!
Ademais, o terceiro ano dos "Bagulhos Sinistros", consegue tempo para falar de feminismo, gênero, sexualidade, amadurecimento e desapego. O que fica claro quando acompanhamos a narração de uma carta ao final da temporada. Culminando em um encerramento que pode possibilitar inúmeras jornadas, pois entendemos que na primeira vez foi apenas um aquecimento para os perigos, na segunda, a preparação do terreno para a chegada do vilão, e nesta terceira "quest", o embate derradeiro, onde todos sofreram alguma consequência, e partir disso deverão aprender a lidar com o que resta.
Mas há possibilidade da história continuar? Certamente, apesar de um fator importante ajudar para que essa narrativa ganhe força e se torne então a menção de outras, o tempo! Não há necessidade de uma temporada imediata, é preciso primeiro assimilar esta que acabou de chegar!

Stranger Things 3 pode ser considerada o encerramento de uma trilogia com uma maestria quase impecável em sua execução e narrativa. 
Com uma direção que usa das referências apenas como um pano de fundo, para que sua história se sobressaia, dando aos personagens a possibilidade de crescimento, não apenas literal, a produção se fundamenta como uma das melhores de 2019, tornando-se uma jornada de amadurecimento necessária.
Se em um verão tudo pode mudar, essa máxima se comprova ao final do oitavo episódio, onde mudanças ocorrem, literais e figuradas, no físico e nos sentimentos das crianças e adultos que acompanhamos, mas acima de tudo isso, fica a certeza de que a capacidade de se contar uma boa história não depende da época onde ela ocorre, e sim, da criatividade empregada e da vontade de realmente transmitir o que pode ser tão fantástico quanto aquilo que se propôs a ser feito lá no primeiro ano da série. Entre Demogorgon, Devorador de Mentes e Mundo Invertido, os perigos futuros podem ser tão assustadores quanto, pois em Stranger Things um novo "mestre" sempre surge tentando sobrepor os jogadores, contudo, o que essas figuras sempre esquecem é que quando a equipe supera um desafio, as habilidades também crescem, e a precisão nos dados torna a jornada ainda  interessante, bizarra e sinistra! 
Aguardemos o que está por vir!
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