O Rei Leão (2019) - CRÍTICA

Sem emoção, a versão realista se apega a grandiosidade técnica para impactar


O que faz de um filme um clássico?
Para muitos, o capacidade de transpor a barreira do tempo, mantendo a relevância dos aspectos técnicos e um texto que consegue dialogar com diversas gerações é essencial. Tal máxima se aplica a animação O Rei Leão de 1994, que até hoje é uma referência para diversas outras obras. E na onda das adaptações em Live Action, não seria surpresa que logo fosse anunciada a versão realista de uma das produções de maior sucesso do estúdio Disney.
Filme realizado, chegamos em julho de 2019 e nos cinemas uma legião de fãs aguardam ansiosos pelo espetáculo vivenciado na década de noventa. Certamente um deleite para vários desses, já para outros, fica impossível não estranhar a falta de emoção envolta em artificialidade de sentimentos.

Simba é um pequeno leão que irá herdar o trono de seu pai, Mufasa, quando crescer. Porém, quando o rei da savana africana morre, o filhote acaba sendo exilado do seu local nascimento e do convívio da família, trilhando então uma jornada de descoberta, acima de tudo, retornando para ocupar o seu lugar de direito.

Jon Favreau é quem comanda a produção, elevando o nível técnico de um live action, mas esquecendo de coisas essenciais, principalmente ao trabalhar com a narrativa de O Rei Leão.
Toda a construção de cenários, ambientações, texturas, proporções é algo incrível aos olhos. A utilização da computação gráfica para criação de cada personagem impressiona, causando aquele questionamento se realmente são ou não animais de verdade que estão em tela naquele momento. Desde as marcas na pele, as ranhuras, pelos e o balançar contra o vento, é perceptível o nível de cuidado que a obra teve em empregar um realismo que certamente será reproduzido daqui em diante por outras produções que seguirem essa linha.
Ao mesmo tempo, o diretor escolhe modificar momentos, ainda que mantendo as mesmas posições de personagens, inserir falas, acontecimentos, o que acrescenta certa agilidade para que ações ocorram. Gerando então maior contexto em uma história que aparentemente não precisava de novos pontos, mas quando acontecem, deixa tudo um pouco melhor. 
Ademais, a trilha sonora de Hans Zimmer se encarrega de algo que a direção não trouxe para essa adaptação, alma! A música se torna então responsável por cativar, capturar e relembrar aos espectadores que história estão acompanhando, mais um brilhante trabalho do mestre das composições e uma "tábua" de salvação para o que Favreau realizou.


A narrativa segue o roteiro original sem grandes mudanças. 
Um ou outro elemento foi inserido, para ajudar a amarrar e conectar a trama principal, mas se tratando da aventura que conhecemos, nada aqui é novo ou necessitaria de algo para correção. Pelo contrário, a história desta versão realista, respeita os diálogos, as frases, os questionamentos, as lições que o protagonista precisa aprender, ou seja, estão todas lá, sem nenhuma restrição. Desta forma, personagens secundários como Nala, Sarabi, Zazu, Timão, Pumba ganham mais tempo de tela, até mesmo, situações que os coloquem como responsáveis para que a jornada conhecida realmente chega ao clímax esperado.
Principalmente se falarmos do aspecto musical. 
Quando a introdução da melodia começa, há até um preparo na poltrona, pois sabemos que as canções que marcaram serão entoadas e farão daquele instante uma viagem no tempo através de uma boa dose de nostalgia. Algumas letras também recebem suas alterações, nada gritante, apenas para dar um sentido maior e se encaixar com os ensinamentos que estão sendo transmitidos.
Contudo, O Rei Leão de 2019, não tem o que o filme original tanto possui e até hoje consegue manifestar: emoção.
Por mais que todo visual seja um espetáculo, falta aqui justamente o que é "fantástico" e capaz de trazer a empatia do público para com a obra cinematográfica. 
A questão de movimentação facial dos personagens é mínima em comparação a inexistência de sentimentos que comprovem a relevância desta adaptação. Conhecemos a narrativa, sabemos o que está para ocorrer, mas quando ocorre não há impacto.
Cantar as músicas na sala de cinema é maravilhoso, mas logo o silêncio tomava conta e uma sucessão de comentários seguidos de estranhamento surgiam do público, ou seja, nem sempre se apegar a memória apenas jogando uma "capa" realista é o suficiente para fazer jus a uma produção que serve de inspiração para tantas outras. Talvez esta seja uma versão voltada apenas para um público que hoje está acostumado com o primor da computação gráfica, que precisa do que é visual de forma elevada e pouco se importa se esta história foi ou não contada. O que é ótimo, principalmente para transcender o tempo com um título tão importante como este.
Mas se tratando de um longa que tanto mexeu com os sentimentos do público, será que era necessário mesmo realizar essa adaptação? Ou foi apenas um momento de: "Nossa, deu certo com esse aqui, vamos fazer igual, só que com música"!?

O Rei Leão, de 2019, é um deslumbre visual inigualável, tornando a capacidade de criação de mundos algo que atinge um novo nível nas produções cinematográficas. 
Cada aspecto técnico, seja a fotografia, as texturas, as movimentações comprovam que a Disney realiza o que é fantástico, para dar vida, literalmente, aos seus personagens, atrelado a uma direção que acrescenta pontos para que a história flua e se conecte um pouco mais.
Entretanto, a falta de emoção distancia este de sua produção de origem, tornando-o apenas uma versão realista que pouco tem para fundamentar sua presença entre outras adaptações. Ao final, se a jornada de Simba é sobre descoberta e encontrar o seu lugar que é devido, é uma metáfora para o longa metragem realizado, que mesmo belo, não possui conteúdo, e contextualizando Mufasa, faltou lembrar a equipe de produção inteira quem eles são, ou melhor, com o que eles estão trabalhando, pois nos é apresentado um grande show de adestramento de animais que carrega o mesmo nome, mas sem alma.

Nota: 3/5 (Bom)
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