As Trapaceiras - CRÍTICA

Atualizar uma história não quer dizer que qualquer coisa pode ser contada


Dois Farristas Irresistíveis e Os safados. Duas comédias que traziam uma dupla de vigaristas dispostos a realizar os golpes mais mirabolantes ao se enfrentarem, e estrelando as produções tínhamos Marlon Brando e David Niven, Steve Martin e Michael Caine respectivamente. Porém, para contar a mesma história pela terceira vez, estava mais que na hora de uma atualização, assim Anne Hathaway e Rebel Wilson se encarregam de encabeçar essa nova versão, que procura seguir a mesma linha narrativa dos filmes anteriores. E ao se basear apenas no carisma de suas protagonistas, a produção esquece de realmente fazer o que supostamente se propõe, arrancar risadas.

Josephine Chesterfield é uma vigarista altamente habilidosa, acostumada a dar golpes em milionários e homens com altos cargos. Já Penny Rust dá pequenos golpes envolvendo encontros falsos pela internet. Quando o caminho das jovens ladras se cruzam, elas entram em uma competição para ver quem será capaz de enganar um bilionário do ramo tecnológico, e isso as envolverá em problemas que não estavam nos planos.

Chris Addison comanda o terceiro remake da história que já havia feito sucesso nas décadas de 60 e 80, contudo aqui falta personalidade e um verdadeiro humor para convencer o espectador.
Reproduzindo algumas sequências existentes nos filmes anteriores, o diretor não sai do convencional para contar a história, repetindo descaradamente piadas, sem a mesma funcionalidade.
A câmera se mantém da mesma forma, sem nenhuma novidade ou algo que realmente possa acrescentar ao ritmo da trama e por mais que hajam atualizações como o uso de celulares, locais mais suntuosos e o contexto atual, parece que não houve esforço em explorar o máximo que, principalmente, as protagonistas poderiam demonstrar diante da câmera. O que deixa cada piada mais próxima de um instante de vergonha alheia que nos leva a desviar o olhar, do que propriamente nos levar as risadas. Não que a direção não saiba o que está fazendo, mas nesse caso, faltou realmente abraçar o que de fato é uma comédia.


Logo, a narrativa sofre com os mesmos problemas.
Nessa atualização logicamente o papel das mulheres diante da sociedade, dos homens e a forma como a "arte de enganar" acontece são colocadas em xeque, questionadas e desconstruídas. Contudo, o roteiro se limita em pequenas frases, situações e elementos desnecessário, que em nada contribuem para um discurso representativo ou que coloque as personagens posições de comando.
O que reflete nos momentos "engraçados"! Alguns até conseguem entreter, entretanto, o que vem a seguir não mantém a graça, perdendo tudo o que nem sequer havia começado a ser construído.
Ademais, Rebel Wilson fica limitada a piadas sobre seu peso, questões de alimentação, sua falta de habilidade e até mesmo o interesse das pessoas por quem ela é. Já Anne Hathaway, se mantém no tom blasé do início até o fim, com um sotaque até interessante, mas que somado ao todo de sua atuação, não acrescenta, já que há uma demonstração de falta de envolvimento e profundidade para com sua personagem.
Desta forma, o texto que deveria atrelar um novo conceito, até mesmo alterando o plot original, mantém algo que é discutido continuamente na sociedade atual: a cultura de tornar mulheres competidoras entre si. E se realmente o roteirista buscava uma nova versão, este era o primeiro ponto que deveria ter sido alterado!

As Trapaceiras é uma comédia sem personalidade, com uma direção assertiva, dentro de uma proposta de atualização de texto que não convence no que se trata de apresentar uma nova forma de conduzir a mesma história. Apegado ao carisma de suas protagonistas, o roteiro não entrega bons momentos para que as mesmas se desenvolvam, resultando numa sucessão de acontecimentos constrangedores e nada divertidos.
O grande problema de Hollywood é pensar que para aproveitar os novos movimentos que acontecem na sociedade se pode entregar qualquer tipo de produção ao público. Ao menos, um cuidado em realmente dar ênfase no que precisa, representar o que é necessário e dar voz a quem se deve, precisa passar pela mente dos produtores. Porém, o estúdios estão preocupados com dinheiro, aparentemente, bem mais que as personagens deste remake. Por isso, o ato de atualizar uma história não quer dizer que qualquer coisa pode ser contada ao público.

Nota: 1,5/5 (É... existe)
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