A Morte e Vida de Marsha P. Johnson - REVIEW

A misteriosa morte de um ícone na luta por direitos



Na madrugada do dia 28 de junho de 1969, a polícia resolveu fazer uma batida no bar Stonewall Inn em Nova York, nos EUA. Policiais adentraram o lugar sob a alegação de que a venda de bebida alcoólica era proibida no estabelecimento. Logo, prenderam funcionários e começaram a agredir e a levar sob custódia alguns frequentadores travestis, drag queens, que não estavam usando ao menos três peças de roupa "de acordo" com seu gênero, pois era o que mandava a lei da época.
Treze pessoas foram levadas presas naquela noite e a partir daquele momento, a multidão fora do Stonewall Inn começou a jogar moedas nos policiais e, em seguida, garrafas e pedras. Também tentaram virar de cabeça para baixo uma viatura. Nisso, alguém ateou fogo dentro do Stonewall, e os policiais, que usavam uma mangueira para conter as chamas, decidiram também usar aquela água contra a multidão que estava protestando devido a ação truculenta.
Assim, parte da comunidade gay de Nova York, escondida, maltratada e marginalizada, foi às ruas protestar nos arredores do Stonewall Inn durante seis dias. No ano seguinte, muitos foram às ruas no dia 28 de junho, e não só em Nova York, para celebrar o primeiro aniversário do episódio. 
Plantando a semente das Paradas do Orgulho LGBT que hoje acontecem em quase todos os países.

Tudo isso aconteceu contando com a presença da protagonista deste documentário.

Em 1992, o corpo de Marsha P. Johnson foi encontrado as margens do rio Hudson, pouco depois da Marcha do Orgulho daquele ano. A polícia constatou que Marsha havia se suicidado, porém, para os amigos, familiares, essa versão não condiz com a história da Drag Queen que tanto lutou pela vida da comunidade LGBTQ nos Estados Unidos. Desta forma, acompanhamos o empenho de Victoria Cruz, uma mulher trans, ativista e conselheira do Projeto Anti-Violência da cidade de Nova York, ao reabrir o caso antes de se aposentar.

David France, indicado ao Oscar em 2013 pelo documentário "How to Survive a Plague", comanda a produção tratando de não apenas expor a história de Marsha, mas a forma como as pessoas transgênero, travestis e drag queens são tratadas por diversos sistemas americanos.
O diretor, que também é repórter investigativo, acompanha os passos de Victoria constantemente, mesclando com os depoimentos da época, imagens capturadas de reportagens e acervos dos amigos próximos a Marsha. Nisso, começa a delinear diante do espectador uma história que apresenta camadas cada vez mais profundas, passando por relatos de violência, preconceito e discriminação constantes.
Há todo um cuidado em contextualizar os acontecimentos de Stonewall, a personalidade de Marsha, sua importância para a comunidade LGBTQ na época, além de deixar com que seus amigos e familiares possam descrever suas atitudes. Desta forma, o ritmo vai agregando falas da falecida ativista, com a busca de Victoria por pistas e as constantes negativas que recebe de diversas pessoas que também trabalharam no caso, entretanto, hoje, não querem ao menos falar sobre.
Utilizando então desses elementos, a direção começa a colocar na narrativa figuras que foram importantes para o surgimento do movimento que luta pelo direito dessas pessoas tão marginalizadas pela sociedade. Principalmente Sylvia Rivera, que esteve ao lado de Marsha no levante que deu origem ao movimento, além de juntas se tornarem principais vozes na luta pelo reconhecimentos das pessoas trans e travestis, dentro e fora da comunidade gay. 


Assim, a cada depoimento vamos entendendo a importância de Marsha para diversas pessoas, o jeito maternal que possuía e a forma alegre de não se intimidar com que faziam. Tanto que a luta pelos direitos partia tanto para o confronto com a sociedade, quanto para com os demais membros LGBTQ, pois as demais letras do movimento não viam (ou veem até hoje) o "T" da mesma forma, como algo que mereça relevância (só no Brasil, 163 pessoas trans forma mortas em 2018). 
Junte isso a conflitos que acontecem quando a história da criação do movimento, que luta pelos direitos, passa por pessoas que não contribuíam da forma correta, usavam o nome, mas nada faziam. Além do envolvimento da máfia diversas vezes (havia um acordo entre máfia e polícia para o funcionamento de alguns bares), o que poderia conectar diretamente a morte de Marsha.
Ademais, as peças vão se juntando com os relatos, dados novos, nomes desconhecidos e isso leva Victoria a preparar um verdadeiro dossiê que seria o suficiente para reabrir o caso e encontrar um verdadeiro culpado pela morte de Marsha. Porém, engana-se que nos Estados Unidos tudo seja mais fácil a nível de justiça, como vemos na história em paralelo, que mostra o julgamento de um assassino de uma mulher trans que foi condenado a doze anos de prisão, mas que em dez estaria solto. E ao se aproximar de uma conclusão do caso, o que resta é entregar tudo a quem poderia realmente dar continuidade as investigações.

A Morte e Vida de Marsha P. Johnson é um documentário que permeia as realizações de uma pessoa que foi além de suas capacidades, não mediu esforços, que ajudou, criou lares parra pessoas e lutou por direitos que até hoje são conquistados e celebrados. 
Marsha se tornou um símbolo de um levante que mudou a história, um símbolo que não pode ser esquecido ou deixado de lado, como fizeram as pessoas responsáveis por investigar sua morte. Com uma direção que evoca todo o contexto histórico, além de apresentar personagens importantes da comunidade LGBTQ+, o documentário é uma lição acerca de respeito, compromisso e amor por todos aqueles que fazem parte desde movimento que foi iniciado em 1969!
Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Victoria Cruz, nomes que não podem ser perdidos no tempo, nomes que ainda clamam por uma solução. Apenas um desses nomes ainda está entre nós e certamente ela ainda está lutando para dar as outras o que tanto sempre defenderam: respeito! 
O legado de Marsha vive!

A Morte e Vida de Marsha P. Johnson está no catálogo da Netflix!
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