Rocketman - CRÍTICA

O que uma biografia musical deve ser



Parece que estamos vivendo uma nova onda em Hollywood, a das biografias musicais.
Cantores famosos ganhando as telas, onde suas vidas são relatadas, normalmente, mostrando as fases conturbadas, os momentos de dificuldade, a ascensão, a queda e em alguns casos, o recomeço. Porém, fazer dessas obras um espetáculo que torne a música muito mais que apenas um adereço é para poucos, e aqui, o que testemunhamos é uma verdadeira opera rock sobre a vida de uma das figuras mais icônicas, extravagantes e importantes da música internacional! Senhoras e senhores: conheçam a vida de Sir Elton John!

Reginald Dwight era um menino tímido que aos poucos foi descobrindo seu talento para tocar piano. Com o passar dos anos, o rapaz foi encontrando oportunidades dentro da música e na década de 70 alcançou o sucesso como o astro Elton John. Assim, acompanhamos o início da carreira do cantor, seu reconhecimento e a fase terrível onde o envolvimento com drogas, consumo de álcool acabaram resultando no quase fim de sua vida.

Dexter Fletcher executa um trabalho mágico, cartunesco e repleto de elementos fantásticos para fazer com que a vida de seu protagonista realmente entregue muito mais do que simplesmente referências de músicas conhecidas.
Tudo aqui é comandado de forma teatral, como um espetáculo da Broadway, onde os cenários se modificam, as movimentações são orgânicas, repletas de expressão e energia. O diretor enaltece essas sequências utilizando o colorido da fotografia, as vezes mesclado com um tom sépia delicado para os anos iniciais da carreira de Elton, que aos poucos ganha vivacidade com números em canções que empolgam, emocionam e deixam o espectador extasiado. Logo as músicas são executadas de uma maneira orgânica, ocupando os espaços necessários para o ritmo que trama possui e principalmente, fugindo do clichê obrigatório de mostrar como as composições mais famosas surgiram. 
O comando da produção se preocupa então em expressar todos os sentimentos, pensamentos e a forma como a vida de Elton John se desenvolveu, nisso, há total falta de apego ao convencional, as fórmulas e ao metódico. Luzes cortam os cenários, elenco flutua, o protagonista voa como um foguete, objetos ganham vida e o pudor não tem espaço para cenas de sexo, beijo e até mesmo, referência a uma orgia. Quando é necessário mostrar os exageros do cantor, lá eles estão, sem mesquinharia, do jeito que a história deve ser contada para o público que já é fã e para aqueles que ainda não sabem os fatos dessa jornada.


Desta forma a narrativa conta a trajetória de Elton John revelando fatos de sua infância, juventude e vida adulta já como um dos grandes nomes da música. 
Para isso, a trama vai estabelecendo fases que vão se desenvolvendo de forma gradativa em tela, sempre acompanhada da narração do protagonista, que para isto, o recurso encontrado é uma alegoria incrível de descoberta, pois o mesmo se vê em uma reunião de reabilitação, e aos poucos vai se despindo, literalmente, de suas roupas extravagantes, até que venhamos a ver apenas o Elton. E a história utiliza bem esse elemento narrativo em compasso aos arcos do roteiro pois a medida que o músico vai avançando em sua carreira, o seu declínio vai sendo construído até chegar ao ponto derradeiro. Novamente sem economizar nas situações, o vemos bebendo, usando drogas, sofrendo por amor e demonstrando um total vazio sobre quem é na realidade. Por mais que a produção construa uma aura mítica sobre o protagonista, isso se desconstrói e reconstrói da introdução ao clímax de uma maneira prazerosa e emocionante de acompanhar.
E estas nuances se devem também a presença talentosa e magistral de Taron Egerton. O ator aqui não é um imitador e muito menos precisa de dublagem para ousar ficar parecido (Dá vontade né Rami Malek?), ele é Elton, assumindo trejeitos, tom de voz, movimentações, ainda assim colocando a sua versão em tela. Rendendo momentos que nos levam do riso às lágrimas, da empolgação a raiva, da tristeza ao deslumbre.

Mas existe um elemento a mais nessa jornada da música e do cinema.
Em determinada cena, quando Elton conversa com sua mãe sobre ser um homem gay, a mesma responde dizendo que já sabia, porém quer que ele fique distante por conta de ser quem é, ao mesmo tempo finaliza decretando que o filho jamais poderia ser amado por alguém. Tais palavras, em um discurso tão denso, é um reflexo do que muitas pessoas LGBTQI+ passam ou já passaram, principalmente na época retratada pela película. Levantar-se como alguém diferente aos padrões e as normas da sociedade sempre foi uma grande batalha externa, contudo, nos é revelado os conflitos internos, semelhantes a inúmeras outras jornadas da vida real (Eu por exemplo identifiquei vários pontos da minha vida com as frases ouvidas pelo cantor). Esse conjunto de características tornam o personagem não apenas alguém excêntrico ou extravagante, o transforma no que é de verdade, um homem buscando seu lugar, o amor, que muitas vezes está em se reconciliar consigo mesmo!

Rocketman é um verdadeiro espetáculo que constrói a trajetória de uma figura emblemática, quase que divina, da música internacional. Atrelado a uma direção que foge do que é convencional e abraça o fantástico, o teatral, o exagerado, a produção é uma verdadeira aula de como a trajetória de um artista deve ser contada no cinema. Sem limitações, sem grandes alterações, expondo os sentimentos, os conflitos internos e externos, emocionando e agraciando o público com as canções executadas de forma a contribuir para trama como um todo.
Elton John é uma força monumental do amor, da aceitação e reinvenção, seu talento não pode ser mensurado, tão pouco suas derrotas e conquistas não o limitam, o que vemos então é uma jornada em busca da descoberta, em busca de um sentimento que não precisa de um show monumental para ser achado, um abraço, apenas um abraço é necessário para que venhamos a entrar nesse foguete musical e viajarmos por todos esses lugares inusitados, ao lado desse astro de ontem, hoje e de amanhã. Celebremos Sir Elton John! 

Nota: 5/5 (Foda pra Caralho)
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