Olhos que Condenam - CRÍTICA

Uma história tão atual quanto os discursos empregados



Evaldo dos Santos Rosa, músico, morto com oitenta tiros disparados de forma "acidental", "por engano". O homem dirigia seu carro, um Ford Ka sedan branco, rumo a um chá de bebê, no dia 7 de abril de 2019, e levava sua família consigo. Ao passar por uma patrulha do Exército na Estrada do Camboatá, no Rio de Janeiro, o veículo foi alvejado com 80 disparos pelos militares. O motorista morreu no local.
Essa notícia permeou os principais veículos de comunicação brasileiros, a demonstração de um racismo institucionalizado de que após o gatilho apertado tudo se torna um engano. De tal forma, a nova série da Netflix utiliza de um acontecimento real para demonstrar o quanto o discurso preconceituoso está presente em diversas camadas da sociedade, ao mesmo tempo que a narrativa nos apresenta uma história comovente, impactante e profundamente atual.

Em 1989, cinco adolescentes foram detidos pela polícia de Nova York sendo acusados de um crime de agressão e violência sexual, contra uma jovem que estava correndo no Central Park, no mesmo dia que eles estavam acompanhados dos amigos no mesmo local. Logo, começa uma ágil jornada pela acusação, comoção pública e sofrimento das famílias pela busca da inocência dos jovens, os levando a momentos extremos de demonstração de preconceito.

Ava DuVernay comanda a produção que possui quatro episódios, mas que são suficientes para causar o cataclismo de emoções necessárias que deixará o espectador estarrecido com os fatos apresentados. 
A diretora, demonstrando total controle e amadurecimento sobre o quer contar, escolhe planos onde as feições, os movimentos e a postura das personagens dizem o que é necessário para que o ritmo de cada cena, e da trama em si, mergulhe totalmente em um suspense-dramático, trazendo então aspectos técnicos subjetivos e ao mesmo tempo peculiares. A escolha de uma câmera que vai aos poucos relevando o estado da vítima pós o ataque, confirma o peso cênico e técnico que a série carrega. Da mesma forma, a violência sofrida pelos acusados, tanto psicológica quanto física, não foge das lentes da diretora, que expõe a crueldade tanto na fala quanto nas ações causadas por policiais, jornalistas e outras figuras que se tornaram algozes.
Nesse elemento, Ava parece estar "confortável", elaborando sequências de diálogo que exploram o extremo das emoções, da dor e do desconforto, que salta a tela e abraça o espectador nessa jornada. Ao mesmo tempo a fotografia usa de tons azulados para deixar a atmosfera com aspecto denso, taciturno, injucundo, onde não existe traços de esperança que poderiam surgir em uma luminosidade mais quente. Alinhado a este ponto temos a trilha sonora, escolhida para enaltecer a cultura negra concomitantemente auxilia ao contar a história, dando vida ao Harlem, onde os garotos vivem, realizando um contraponto de dois "mundos" diferentes que acabam se colidindo!


O resultado dessa colisão que é relatada à medida que a trama vai ganhando forma. A nossa visão como espectadores fica entrelaçada aos momentos que reforçam a inocência daqueles jovens e é nesse sentimento que somos conduzidos até o final dos quatro episódios. 
A narrativa se propõem a mostrar o quão agressivo e violento, além de preconceituoso e racista o sistema carcerário, de segurança e da justiça é nos Estados Unidos. O linguajar utilizado e as expressões, fundamentam ainda mais esses aspectos grotescos da sociedade, configurado muitas vezes através do uso da palavra “animais” para designar os jovens. O texto não suaviza ou economiza com relação aos acontecimentos, há dor, sofrimento, medo e uma culpa manipulada que se transforma em confissões, mas que era o objetivo da polícia na época. 
Novamente, Ava Duvernay explora essas situações expressando um trabalho excepcional que alinha texto e direção, em momentos que tornam os julgamentos difíceis de serem assistidos e diálogos familiares catastróficos.
O crucial nesta jornada em busca de uma justiça que se distancia das minorias é o discurso militante coeso, não tratado aqui apenas como um adendo, é o todo que permeia e faz desta história importante de ser relatada. O roteiro explora todas as falhas durante o processo de condenação, a falta de provas, as incongruências e principalmente o conteúdo racista institucionalizado tão explícito. Quando uma autoridade relata que “pelo fato deles serem negros e já estarem no parque, isso já os faz suspeitos”, entendemos o campo que estamos percorrendo, o campo de um discurso que se repete diversas vezes no decorrer do nosso dia a dia, que se torna cultural e ensinado, algumas vezes de forma velada, em outras, escancarado e agressivo, como as atitudes de Donald Trump na época do crime.

Olhos que Condenam não é uma produção que irá suavizar um aspecto da sociedade que ocorre todo dia, o racismo, que está atrelado em vários âmbitos, de várias formas, jeitos, que pode se manifestar através da fala ou das agressões provenientes de uma autoridade. Ava DuVernay toca em uma ferida institucionalizada da humanidade, uma que ainda não cicatrizou e que se abre a cada nova atitude vinda de pessoas brancas, daquelas classificadas como influentes. Ao mesmo tempo a direção exalta os momentos emotivos, cruéis e viscerais do ser humano, sem deixar de lado a cultura do povo negro que ainda sofre com essas ações contra sua vida.
Você pode se perguntar: O que Evaldo dos Santos Rosa, citado no início dessa crítica, e Os Cinco do Central Parque tem em comum? Além da pele, ambos casos as palavras “engano”, “acidental”, “confusão” se repetem, ecoam como cada um dos oitenta tiros disparados, ecoam agregadas as palavras de acusação, e ainda persistem como justificativa. Para alguns “racismo não acontece”, então diga isso a família que perdeu o pai após disparos contra o seu carro ou para o jovem que vê você segurar a mochila com mais força no metrô quando ele entra. 
Os nossos olhos ainda condenam!
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