Jessica Jones: 3ª Temporada - CRÍTICA

Quando uma mulher forte demonstra quão diminuto é um homem com a "masculinidade ferida"


Ao começarem na Netflix, as séries dos heróis urbanos da Marvel foram do amor ao ódio diversas vezes pelo público. Demolidor certamente é a mais celebrada de todas, mas engana-se que Jessica Jones está por baixo de tudo isso.
Desde a primeira temporada, através de uma narrativa noir, a história da investigadora sarcástica se preocupou em construir sua personagem indo além das cenas de ação impactantes. Se na primeira temporada Jones enfrentou um vilão controlador, e na segunda o seu passado tão forte quanto ela, neste terceiro e último ano da produção, a detetive precisa ir além do que está acostumada a fazer, ainda que não queira a alcunha de genuína heroína de Nova York.

Jessica Jones está indo bem em seu negócio de investigações, mesmo que deteste a nova secretária e tenha que lidar com pessoas constantemente. Desde a morte de sua mãe, ela se vê conflituosa em usar os seus poderes para um bem maior, mas logo que uma série de assassinatos começaram a ocorrer, a investigadora se vê na mira de um psicopata que fará de tudo para revelar quem é a Jessica de verdade, para isso colocando todos a sua volta em perigo.

O terceiro e último ano da produção, que tem a parceria Marvel-Netflix, fica sob o comando de Michael Lehmann, Krysten Ritter, Anton Cropper, Liesl Tommy, Mairzee Almas, Tim Iacofano, Larry Teng, Jennifer Getzinger, Stephen Surjik, Sanford Bookstaver, Sarah Boyd e Neasa Hardiman. Que conseguem estabelecer uma linha continua dos acontecimentos, utilizando bem os elementos deixados por quem conduziu anteriormente, já preparando caminho para o próximo. Fazendo com que a série não perca o tom noir de contar sua história. 
Apesar de termos uma temporada com maior luminosidade, tons quentes, e um clima jovial, a decadência e o ar triste ainda permeiam diversos ambientes por onde a heroína percorre. Isso faz com que a maior preocupação dos diretores não seja simplesmente mostrar as habilidades de Jessica, pois já as conhecemos! O que realmente interessa aqui é demonstrar o que ela irá fazer a partir de suas perdas, escolhas e ações. Logicamente há todo um esforço técnico para demonstrar sua força, seja arremessando uma pessoa, ou esmurrando uma construção inteira. Esse jogo cênico transforma a direção de personagem num dos grandes trunfos novamente, dando ênfase nas expressões e reações de Jessica, pautando novamente que a jornada está sendo feita, apesar de caminhar para o final, na sua construção como uma pessoa que não se vê como uma heroína.


Nessa construção, ao longo de 13 episódios (novamente um dos erros da produção), deixamos de lado o que já havia sido mostrado nos anos anteriores para focar em novas camadas da personalidade da senhorita Jones. Já sabemos que ela bebe, que tem pouca paciência e que não está realmente preocupada com quem está a sua volta, porém, a longo prazo, essas características se transformam em elementos que faltam em sua vida. E ela vai procurar preenche-los? Não! 
A independência da personagem, sua força física, junto com a capacidade de ser auto-suficiente entram em jogo para mostrar que não estão nos outros aquilo que você pode encontrar em si mesmo, principalmente a bússola moral do que deve ser feito quando um perigo está a sua volta. Então, eis o grande trunfo do texto da série, construir uma personagem, até então a única que apresenta todos os elementos dos quadrinhos (Sim, até mais que aquelas que estão no cinema), dentro da possibilidade de ser real. E o fato dela ser tão poderosa nesse sentido é o que incomoda principalmente o vilão! Sallinger é uma força de inteligência que quer demonstrar a todo custo a fragilidade da detetive e quando não consegue, se agarra em argumentos como o fato de ser: "[...] um alvo fácil. Branco, solteiro. E ela é essa vingadora feminista". Desta forma, o antagonista ganha as camadas que refletem a masculinidade frágil e tóxica que permeia a sociedade atual, onde o fato de uma mulher ser tão incrível crie uma espécie de "revolta" para com aquele que sequer tem capacidade de fazer o mesmo. Isso fica obvio nos confrontos que ocorrem, onde Jessica, que a princípio se vê derrotada pela inteligência do antagonista, descobre que há sempre um meio de encontrar uma solução, nessa hora, o alvo fácil-branco-homem está no chão inconsciente. 
Por essa razão o discurso feminista de Jessica Jones se encontra do primeiro ao último episódio, diferenciando novamente de outras mídias, que tendem a cortejar esse tipo de fala apenas em seu clímax!

Contudo, a série possui alguns problemas referentes aos demais personagens!
Arcos como os de Jeryn Hogarth, Malcolm e Erik, ocupam um espaço que não contribui para o ritmo da temporada, aparentando que poderiam ser resolvidos com maior facilidade do que esperar todos os momentos principais ocorrerem. Ao mesmo tempo, a narrativa vai estabelecendo idas e vindas em lugares que já haviam sido percorridos, pessoas que entram e saem da série sem muito a acrescentar, uma mania da Netflix de sempre estender a história por longos treze episódios. Novamente, fica nítido que ao oitavo episódio tudo poderia se resolver. E talvez isso, prejudique a personagem Trish, que dessa vez possui uma importância ímpar para os acontecimentos principais da trama, a levando num confronto que prejudica o discurso principal da série. Não anula ou desmerece, entretanto é grande deslize dentro do protagonismo feminino tão presente!

Jessica Jones, encerra sua vida na Netflix com uma terceira temporada que demonstra uma personagem estabelecida dentro de um discurso importante para os dias atuais, desde o seu primeiro ano, além de honrar por completo o material original. Talvez o grande problema seja o excesso de episódios e os arcos dos coadjuvantes que não contribuem para o que é de principal ocorrer, mas graças a protagonista, interpretada pela talentosa, e agora diretora, Krysten Ritter, a produção ganha ainda mais força, metafórica e literalmente.
Ao final de tudo, a investigadora da Alias, que mora em um apartamento antigo de Nova York, bebe uísque e perde facilmente a paciência não será esquecida tão facilmente, ainda que seus novos rumos indiquem algo nesse sentido, algo jamais poderá lhe ser tirado, como a própria matéria de jornal sobre Jessica Jones diz: uma genuína heroína!
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