Euphoria - Review

Kids dos Millennials


Esqueça completamente essas tramas colegiais de cidades do interior, onde todos são extremamente bonitos, vidas completamente facilitadas pelos pais em torno de um mistério que certamente um deles causou pois se sentia mal por um fato totalmente desnecessário. O que encontramos aqui é um retrato da vida adolescente desregrada, difícil, complicada e fora dos padrões. Vida essa que bebe, fuma, cheira, injeta, transa, onde, quando e com quiser, mas que mesmo assim, ao final do dia, ou da noite, volta para o seu quarto ainda pintado de rosa, desejando uma boa noite de sono e nenhuma reclamação dos pais. Mais real que isso? Só a vida em si!

Euphoria é a nova série da HBO que apresenta em sua trama a vida de Rue, uma adolescente com transtornos psicológicos que acaba encontrando nas drogas uma maneira de compensar seus principais dilemas. Após sair da reabilitação, a jovem se vê tentando retornar a vida costumeira que tinha, até que uma nova garota chega a cidade, despertando o seu interesse, ao mesmo tempo adentrando ainda mais a um mundo de drogas, sexo e rebeldia.

Augustine Frizzell é quem comanda o piloto da série, que conta com a produção do cantor Drake, desde o início mostrando que tudo aqui será escancarado e realizado para chocar com a realidade que nos cerca. A montagem das cenas, enquanto a narração da protagonista acontece, insere imagens que vão ilustrando cada um dos momentos mais importantes. E isso sem pudor algum de mostrar imagens reais que enfatizam aquela história que está sendo contada. Junte isso a uma fotografia que explora a luminosidade quase que psicodélica, o neon, os tons quentes, transformando ambientes em lugares espaçosos, gerando uma dicotomia a cerca de como os adolescentes se enxergam no mundo.
A direção também utiliza bem a gama de atores que possui, dando oportunidade para que se destaquem em sequências que exigem maior expressividade e um jeito peculiar de dizer o que precisa ser falado quando tudo está desmoronando. Ademais, os diálogos são tratados com naturalidade, deixando de lado os atos mecânicos e controlados. Existe total liberdade para que as cenas aconteçam e transmitam o impacto necessário!
Por isso, sua narrativa consegue gerar desconforto e empatia ao mesmo tempo.
A medida que vamos acompanhando a narração de Rue, vamos entendendo as pessoas que a cercam, de onde veio, os amigos, a escola e para onde ela está decidindo ir. A produção então escolhe não ser branda, tão pouco contida ao falar e expor sexo, drogas e rebeldia.
As personagens consomem, bebem, cheiram, fumam, ao mesmo tempo, marcam encontros que resultam em violência sexual. Agressivamente a câmera demonstra o resultado dessas escolhas, o quanto isso afeta os personagens, os constrói e logo de início vai começando um processo destrutivo. 
Logicamente é necessário falar da protagonista, interpretada de maneira brilhante por Zendaya. Com um domínio cênico e uma presença doce, porém tempestuosa, a atriz dá início a uma história que causará inúmeras emoções no espectador, justamente pois Rue está disposta experimentar tudo o que puder, o que vier e das formas mais extremas possíveis! Além disso, os dramas também fazem parte desta colcha de retalhos de uma juventude esquecida, a masculinidade frágil, os dilemas com a sexualidade, fidelidade, exposição da imagem, segredos que abraçam outras pessoas, tudo isso feito do jeito mais realista e direto.


Euphoria começa de um jeito visceral, agressivo e alucinado, numa jornada de construção narrativa atrelada a uma trama potencialmente destrutiva para suas personagens. 
Com uma direção e montagem que conseguem somar ao roteiro um jogo cênico de imagens que complementam a história, a série sai do convencional de histórias adolescentes, dando ao espectador um vislumbre do que acontece em diversos lugares.
Em 1995, o filme Kids chocou o público por trazer em sua trama a vida de jovens em Nova York que viviam de forma desregrada, consumindo drogas, álcool, fazendo sexo sem nenhuma proteção e as consequências desses atos. E se é possível um paralelo, Euphoria é uma nova versão desses acontecimentos, pertencendo a uma geração de Millennials, que agora estão dispostos a chamar a atenção, dizer o que querem, com quem querem, sem o menor pudor, controle ou retenção.
Uma verdadeira viagem só de ida totalmente sem freios com uma alta dose química!
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