Democracia em Vertigem - CRÍTICA

Parece ficção, mas só parece mesmo



Como se conta uma história?
Você pode seguir o caminho das pequisas, dos relatos de época, das entrevistas e todo acervo que arquivos possam ter que ajudem na construção de uma narrativa. Mas como se conta uma história que até o momento ainda não chegou ao final? Uma história que certamente irá ganhar inúmeros novos caminhos a medida que situações vem sendo reveladas? Uma história que carrega erros de ontem, de hoje e que poderão ser cometidos amanhã? Neste caso, vivência e sensibilidade tomam conta da câmera relevando o que talvez nós apenas conhecemos pelos grandes meios de comunicação, e aqui nos é transmitido sob um ponto de vista mais íntimo.

Democracia em Vertigem é um documentário realizado por Petra Costa, cineasta, que assume a tarefa de contar fatos que aparentemente são conhecidos da população, porém, desta vez, encontramos razões mais profundas e detalhadas, que nos levam a entender que todo jogo político vai muito além das manchetes de jornais e revistas.

Petra Costa realiza um trabalho primoroso que permeia passado, presente e dá base para os dias de um futuro sombrio que a nação está para atravessar.
Escolhendo um ritmo que intercala reportagens, planos longos de Brasília, gravações, filmagens familiares e uma narração doce, entretanto concreta, firme e coerente, a diretora vai permeando tudo o que ocorreu no Brasil desde o fim do governo Lula e início do mandato de Dilma. 
A proximidade com que trabalha as informações demonstradas, graças a sua participação política e de sua família, expressa a capacidade de encontrar em meio a tantos discursos sobre um mesmo acontecimento, uma linha que dá ao espectador a capacidade de entender, pensar e chegar a conclusões a cerca de todos os fatos que levaram ao impeachment, à Lava-Jato e a posse do atual presidente, Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, ao escolher apresentar visões simples, como a das mulheres que estavam limpando o escritório da ex-presidenta e até mesmo, um diálogo entre sua mãe e Dilma, o trabalho de Petra ganha força por encontrar um lugar de fala para aqueles que se foram afetados pelas decisões que romperam com o processo democrático no Brasil. Uma mulher contando a história onde uma das personagens principais se vê removida do poder por uma grande maioria masculina, conclamando suas crenças, parentes e um "deus". Nesse cenário não há também o que deixar de lado, ou não ir atrás de outras figuras importantes para esses ocorridos, expressando então a habilidade jornalística (e de sangue frio) que a diretora possui ao confrontar, dialogar e questionar tais pessoas no poder.


...na verdade não existe democracia, acho que não. Direito da gente votar? Acho que não existe, não!

Um dos grande trunfos do documentário é trazer para perto do espectador fatos que apenas conhecíamos das mídias que ainda possuem força no Brasil, como a televisão. Vamos então acompanhando cada escolha que o governo Petista realizou, o quanto isso foi um preço pago de forma muito cara no futuro, as traições, os discursos incoerentes de diversos líderes e principalmente, a capacidade de boa parte da população ao abraçar o histerismo, sem base alguma em suas falas que soam como repetições vergonhosas diante da câmera.
Essa naturalidade com qual a narrativa desenvolve um processo pautado no anseio particular de muitos em combater a "esquerda", abre o diálogo para pontos que foram esquecidos, ou ignorados, por nós que vimos cada uma dessas situações acontecerem na nossa frente. Não ficam de fora então o embate de Lula contra Sérgio Moro, Bolsonaro exaltando torturadores, líderes religiosos (principalmente evangélicos) orando para que uma pessoa no poder, legitimamente, caia e as falas de Dilma diante de tudo que estava acontecendo no Brasil. 
A medida que a produção avança é um exercício de trazer a memória certos elementos esquecidos, propagando então o sentimento de que a democracia como a conhecemos talvez se encontre transformada naquilo que mais agrada quem possui o poder, e aos demais, apenas espectadores, literalmente, que aplaudem decisões atreladas a crenças, preceitos e pré-conceitos que não correspondem com o desejo da maioria, principalmente, afastando os menores, e abrindo espaço para quem há tempos não estava presente nos locais onde o poder político nacional se encontra.

Democracia em Vertigem é um relato potente do quanto os tempos em que vivemos foram construídos para uma parte exclusiva da população, que está atrelada em diversos discursos improfícuos voltados para os seus próprios interesses. Se há um Mecanismo que tudo rege e um Processo foi realizado para que os votos legítimos fossem removidos, para que uma onda falsa-moralista ganhasse o poder, tais situações não podem excluir da história os fatos, os relatos, a memória de quem está vivenciando cada novo capítulo da história brasileira, principalmente do seu jogo dos tronos político tão vergonhoso. 
Petra Costa é uma voz que certamente assume a figura de diversos brasileiros nesse momento, não apenas em sua narração, mas na câmera, na fotografia, nas transições, nas idas a Brasília, em sua própria história. É uma voz que irá ecoar, gerando pensamento, contradição e desconforto em muitas pessoas e que bom que esses efeitos serão causados, pois vertiginosamente andamos em direção a um futuro obscuro, construído por aqueles que certamente já conhecem o caminho, mas que não servirão de guia para aqueles que realmente acreditam na democracia!

Nota: 5/5 (Essencial)
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