Ads Top

3%: Terceira Temporada - CRÍTICA

Michele: Eu vou destruir o processo!
Continente: Isso aí!
Michele: Agora a Concha é um lugar de todos!
Tempestade de areia destrói tudo.
Michele: Precisamos fazer um processo.
Continente e Maralto: Quê?


A primeira produção nacional da Netflix chegou um pouco atrasada na leva de distopias jovens que arrebatou o mercado pouco depois de 2010. Apesar deste detalhe, se manteve criativa e com um discurso que fazia alusão a um momento político que o Brasil estava passando.
Chegando a terceira temporada, a série começa entregando uma reviravolta logo de cara, fazendo alusão ao seu primeiro ano, entrega então uma leva de episódios que acrescentam muito a história principal, mas perde força em atuações e direção.

Michele conseguiu desestabilizar o Maralto, mas ainda assim o processo processo irá ocorrer.
Só que desta vez a jovem conseguiu colocar em prática A Concha, um local onde todos podem trabalhar, se ajudar, promovendo alimento, abrigo, saúde. Contudo uma tempestade de areia faz com que a instalação perca os recursos necessários, então, para reconstruir tudo, é necessário realizar um Processo entre os habitantes, definindo quem fica e quem sai.

A direção eleva o aspecto futurista distópico, mesclando tecnologia com elementos arcaicos, o que nos dá boas referências a diversas outras obras do cinema e da televisão.
Desta forma, a câmera foca nas expressões, nos trejeitos e nos olhares que cortam as cenas transmitindo muito mais que as falas dos personagens. Alinhado a uma fotografia que usa bem o tom de sépia, e valoriza a luminosidade e as cores quentes para dar intensidade ao ambiente inóspito do deserto que cerca a Concha, os ambientes então são valorizados, criando uma dualidade entre a ideia de recomeço pelas pessoas do Continente, e a beleza límpida do Maralto.
Porém, temos os quesitos problemáticos da série. O comando da produção acaba valorizando mais o conjunto dos novos rumos que a história quer tomar do que necessariamente conduzir seus atores para que convençam o público do que está sendo mostrando. O resultado são falas ditas de forma artificial, comandadas de forma teatral, que não funcionam em produções de televisão. Deste jeito as sequências que mereciam uma maior entrega, acabam sendo desperdiçadas por conta da falta de empenho.


Entretanto, a narrativa em si consegue manter 3% entre as séries que merecem ser acompanhadas. 
Se em sua primeira temporada era preciso mostrar o quão desigual e falho o Processo é, e na segunda temporada uma tentativa de desmantelar tudo de dentro pra fora, aqui é uma verdadeira demonstração do quanto estamos fadados em cometer os mesmos erros, ainda que venhamos conhecer a história.
A criação de um processo dentro de um lugar que aparentemente serviria para abrigar a todos, quebra a expectativa de um futuro promissor, principalmente a ideologia messiânica imposta sobre uma personagem. Michele (Bianca Comparato) então assume seu papel de líder, quase adorada e honrada como uma imperatriz dentro da Concha, ao mesmo tempo que através de suas decisões acaba por entrar em conflito com tudo aquilo que acredita e que ensinou os demais também a crer. E a medida que o roteiro vai apresentando novos elementos e velhos conhecidos da produção, a protagonista acabando se desestabilizando, o que rende auto-referências cênicas a Ezequiel, com direito a pia cheia de água.
Nisso, a trama então estabelece não apenas sua protagonista, mas as demais personagens femininas como grandes arquitetas desse futuro distópico. Se por um lado Michele é uma figura salvadora, Joana (Vaneza Oliveira) surge como alguém que entende que novamente o sistema de processos desiguais ainda se faz presente, criando um confronto de ideais, ideias e motivações. Logo também temos Glória (Cynthia Senek), que se torna a voz de uma nova "revolução", numa tentativa quase que religiosa para conquista algo. 
Assim, nesse trio de sentimentos, três conflitos então se estabelecem para presentear o espectador com algo promissor: O Continente abandonado, o Maralto perdendo força e a Concha, uma utopia que não entende como acolher as pessoas. Ademais, o terceiro ano da série sustenta as ideias já apresentadas entregando então de uma forma madura, uma narrativa com mais coesão que entende como uma série deve ser contada, apesar da direção não acompanhar esse crescimento!

3% em sua terceira temporada realiza o fato de concretizar um programa, em um serviço de streaming internacional, que vai além do habitual das produções brasileiras. Apesar das atuações que não conseguem carregar o peso das falas que precisam emitir e uma direção que não sabe extrair o melhor de seus atores, o discurso da série ainda é válido, atual e principalmente, mostra o quanto tudo na humanidade é um ciclo, que se repete, as vezes trazendo algo muito semelhante, com aspectos ainda piores.
Ao final, a série é um reflexo do famoso "Complexo de Messias", por parte de uma pessoa e daqueles que a cercam, daqueles que depositam sua confiança, suas vidas, seus votos, em busca de melhoria. Logo, tudo parece belo no início, mas na primeira tempestade, voam as máscaras, voam as pretensões e demagogia, surgindo então um processo aparentemente justo, mas para quem? Quem é o grande beneficiado de tudo isso? Quem permanece em pé ao final dessa "seleção"? Bem, como estamos falando de uma ficção, nos resta então desejar uma quarta temporada, já na vida real, almejar que quatro anos passem rapidamente!
Tecnologia do Blogger.