Game of Thrones: Oitava Temporada - CRÍTICA

O inverno passou, o gelo e o fogo cessaram, o dragão partiu



Foram oito anos percorrendo os territórios de Westeros.
Descobrimos famílias, conhecemos as reais intenções dos personagens, vimos pessoas morrerem, outras escaparem das piores armadilhas, mas o que estava certo de acontecer é que quando o inverno chegasse não iria sobrar uma vida para contar a história. Entretanto, não foi isso o que ocorreu!
Prometido como a maior e melhor temporada de Game of Thrones, o oitavo ano da série percorreu uma linha narrativa preguiçosa e assertiva ao mesmo tempo, o que pode ter deixando os fãs órfãos de respostas ao mesmo tempo que firma esta como uma das produções mais importantes da cultura pop nos últimos dez anos.

As consequências da chegada de Daenerys a Westeros, sua aliança ao povo do norte, o iminente ataque dos caminhantes brancos, liderados pelo Rei da Noite, e a guerra pelo Trono de Ferro, movimentaram a trama desta temporada final, em compasso que entenderíamos o desfecho de outros personagens como Sansa, Arya, Bran, Jon Snow, nesta disputa pelo controle de tudo.

Reduzida a seis episódios que intercalavam entre 60 a 120 minutos, Game of Thrones demonstrou mais uma vez o poder de ser monumental em suas escolhas técnicas. Desde os figurinos, as ambientações, cenários e fotografia, tudo foi elevado a um novo nível, onde até os efeitos digitais empregados ganharam maiores detalhes e execução que encontramos em filmes com um grande orçamento. Apoiando isso a uma fotografia que brincou com a luz e a escuridão em diversos episódios, ao mesmo tempo que em alguns momentos ousou com uma movimentação subjetiva, com os planos longos e até planos sequência, tudo aqui era efeito para deixar As Crônicas de Gelo e Fogo ainda mais impactante visualmente.
A batalha derradeira contra o exército de mortos fez jus ao lema de que a noite era escura e cheia de terrores, ao escolher uma fotografia que utilizava o breu a seu favor como analogia ao inimigo enfrentado, fazendo um “balé” de dragões no ar e usando pontualmente a luminosidade. Já quando o contra-ataque de Daenerys a Porto Real veio à tona, a perspectiva técnica muda, sai a noite, e temos o dia para incorporar os efeitos de fogo, destruição e desmoronamento. Explosões, chamas e longos planos deram destaque para o cataclismo causado pelo Dragão da Rainha Targeryen, enquanto que seu exército  fica a cargo da brutalidade e violência, marcas tão conhecidas da trama de Game of Thrones. Como quem realizasse uma verdadeira epopeia fantástica, os diretos escolheram o máximo no profissionalismo grandioso.


Por sua vez, a trama escrita não fez o que tanto se esperava de uma série pautada nos conflitos políticos e ideológicos, assim entregando em seu aspecto narrativo de uma novela familiar inconsistente, mas preocupada em dar o desfecho para os personagens que ainda restavam. 
O grande problema desta temporada foi a desconstrução de certas personalidades ou a mudança abrupta de algumas características para dar destaque a famosa jornada heroica que muitos ainda faziam questão que existisse. Principalmente se colocarmos em xeque as duas grandes personagens femininas, Cersei e Daenerys. A primeira demonstrando uma fragilidade que não havia sido vista, por exemplo, em seu maior momento vexatório. A segunda, beirando uma “loucura”, que não apresentou fundamentação, justamente para potencializar o elemento do herói em Jon Snow, levando-a a uma morte anti-climática, acompanhada de uma interpretação caricata. Demonstrações sexistas em uma história que sempre colocou suas personagens femininas no centro de tudo até o final!
Junte isso ao temível vilão de toda história reduzido a flocos de neve em poucos segundos, sem explicar as reais motivações, profecias que haviam sido ditas e que não se cumpriram, um personagem que parecia saber de tudo, e sabia, nada fez, sem que isso seja um mérito, ao mesmo tempo que a grande revelação da temporada, o nome verdadeiro de Jon Snow e sua origem, simplesmente se perdeu em meio aos escritos de um roteiro preguiçoso, que se importava mais em manter um romance, um herói e pelo menos um dragão no ar.
A real demonstração de falta de consistência é que o verdadeiro jogo pelo trono ficou limitado a poucas frases, discussões e momentos que realmente não contribuíram pra que um rei, ou rainha, legítimo, ocupasse o lugar mais importante de Westeros. Ou seja, fazer um círculo e colocar todo mundo para dizer “sim”, é uma solução enfadonha diante de jornada onde o que é monumental não deveria estar apenas no orçamento.

O fato inegável em todos os elementos, com acertos e erros, de Game of Thrones é o fenômeno cultural gerado pelos personagens, pela trama, pelos conceitos apresentados em uma fantasia que conseguiu entregar novidades a um gênero clássico da literatura e do cinema. As guerras, fazendo referências a era medieval, os conflitos ideológicos que poderíamos exemplificar através de personalidades conhecidas e a luta por poder, que poderiam ser facilmente dizimados por uma ação maior. Tudo isso atrelado a cenas icônicas como Daenerys saindo das chamas com seus dragões, o casamento vermelho, a luta entre Oberyn e Montanha, a caminhada da Vergonha de Cersei, o primeiro embate contra os caminhantes brancos, a explosão do septo em Porto Real, a Batalha dos Bastardos. A adaptação dos livros de George R.R. Martin elevou o patamar das produções para televisão, transformando a forma como obras assim são vistas, aumentando também o nível de expectativa de quem acompanhava. Em suma, fará falta no fim do domingo o jogo pelo Trono de Ferro.

A oitava e última temporada de Game of Thrones entrega de forma assertiva um desfecho pontual, não preocupado em explicações, mas sim em manter uma trama focada em poucos personagens, para que assim, os finais possam honrar a jornada que começou a quase dez anos. Ao mesmo tempo, as modificações abruptas, o esquecimento de certos elementos e a falta de firmeza em manter arcos como foram elaborados desde o começo, dá um tom quase que amador a um roteiro que ignora fatos em busca de um básico, quase descartável, para uma obra tão memorável!
De acordo com alguns espectadores, o desfecho da saga de Westeros tem um gosto agridoce, para outros, o azedo e difícil sabor dos erros persiste na garganta, e ainda existem aqueles que se tornaram indiferentes a todos os acontecimentos, que encontraram o tom doce ao apreciarem o episódio de encerramento. Opiniões distintas, mas sem alterar o valor de espetáculo que Game of Thrones possuiu ao longo destes oito anos no ar, fazendo com que milhões de pessoas se justassem a mesma mesa, com seus paladares divergentes, mas prontos para degustarem das maquinações que só os sete reinos poderia produzir, formulando ao final de cada episódio discussões, teorias e comentários. Infelizmente a refeição terminou, assim como o inverno, os dragões e uma crônica nada convencional dentro da fantasia.
A noite agora se tornou ainda mais escura!
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