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Areia Movediça - CRÍTICA


Longe de ser mais uma série adolescente inofensiva qualquer, Areia Movediça, novo drama da Netflix, tem um discurso tão poderoso quanto problemático e perigoso. Mas não se engane, a produçao é muito bem executada dentro do que pretende ser, é densa, instigante e se eu tivesse que defini-la em uma palavra seria: Claustrofóbica.

Baseada no romance policial homônimo de Malin Persson Giolito, Areia Movediça vai acompanhar a história de Maja Norberg, interpretada pela Hanna Ardéhn, que é presa como suspeita e cúmplice de um massacre em uma escola em Estocolmo. Ela e seu namorado Sebastian (Felix Sandman) supostamente entraram juntos armados em uma sala e mataram três pessoas, deixando uma ferida, culminando por fim na morte de Sebastian. Não, isso não é um spoiler, a série nem de longe foca em desenvolver um grande mistério em cima disso. Existem sim um suspense em descobrir como aconteceu os fatos e quem de fato morreu, porém o grande plot da história que é contada é o relacionamento entre Maja e Sebastian e como isso resultou naquele atentado.

Areia Movediça é um daqueles títulos que não poderia representar melhor a obra que nomeia. 
A sensação que Maja é engolida aos poucos pela relação conturbada que vai se estabelecendo com Sebastian até chegar enfim no fundo do poço é quase palpável. 
Depois de reencontrá-lo em uma festa os dois firmam um relacionamento. Ele de família muito rica, exatamente de forma clichê, vai se revelando aos poucos como uma pessoa que não poderia se importar menos com qualquer outra pessoa que não ele, além de tratar tudo que o rodeia como posse. É até difícil entender como a Maja pode se apaixonar como uma pessoa como ele.


Em paralelo ao relacionamento dos dois protagonistas, a série vai abordar outros temas muito interessantes, como a relação familiar dos dois. 
A negligência parental, mais presente na vida de Sebastian é absurdamente revoltante. Reuben Sallmander que interpreta Claes, o pai de Sebastian, é uma pessoa detestável, e trata o filho como um caso perdido, não se importa com nada que o garoto faça, a não ser quando se trata da imagem da família. Isso é o principal motivo para despertar no garoto uma personalidade autodestrutiva. Já para os pais de Maja, o fato dela estar se envolvendo com um garoto de família “rica” é o suficiente para não se importarem tanto com a vida da garota, ignorando muitos sinais de que a filha estaria passando por problemas muito sérios.

Outra questão muito importante tratada pela série é a responsabilidade que a sociedade impõe sobre aqueles que estão próximos de pessoas auto-destrutivas e como isso afeta de forma brutal, a ponto delas serem arrastadas juntas para esse caminho que muitas vezes não tem volta. A protagonista sabe que seu namorado está perdido demais para ter um relacionamento saudável e muitas vezes ela tenta se afastar disso, mas a pressão que todos a sua volta fazem para que ela o salve é angustiante.


O enredo da série é muito bem construído, a narrativa vai estabelecendo magistralmente a história da série. É muito comum quando uma obra vai relatar duas linhas temporais, a história se perde em algum ponto, entretanto isso nem de longe acontece aqui. A fotografia e a direção cumprem muito o papel de afirmar quando estamos no passado e quando estamos no presente.
Contudo, nem tudo é um mar de rosas em Areia Movediça. A produção é sim muito problemática e apresenta diversos gatilhos na trama, se tornando assim muito perigosa para um público geral. Outra questão que incomoda bastante é a representatividade dentro da série, se de um lado temos um imigrante árabe que cumpre muito bem o seu papel transgressor, expondo o preconceito, de outro temos um único personagem negro que serve apenas para reforçar o um estereótipo, o traficante, ou seja, um anula o outro.

De qualquer forma, ainda vale a pena conferir. 
Uma obra angustiante e repito, claustrofóbica, que nos leva a refletir seriamente sobre questões muito importantes a respeito dos nossos relacionamentos interpessoais, sobre a saúde mental e a nossa responsabilidade social para com pessoas que se demonstram instáveis.
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