Nós - CRÍTICA

Jordan Peele subverte um gênero para contar sua história a cerca das minorias


Um dos grandes feitos de Corra foi tratar do preconceito de uma maneira alegórica, utilizado bem as metáforas em um discurso que deixava bem claro o quanto a sociedade ainda é apegada as atitudes racistas. Desta vez, Jordan Peele subverte o gênero do terror, adentrando o sub-gênero de monstros, para contar uma história que não é simplesmente uma narrativa a cerca de "cópias do mal", mas que vai além, demonstrando a capacidade de exclusão que sociedade possui, deixando inúmeras pessoas a sombra dos acontecimentos do dia a dia daqueles que são privilegiados.

Adelaide está indo com sua família passar as férias no litoral. Seu marido está animado para levar os filhos até praia, porém, o local foi palco de um momento nada agradável para a jovem. Assim, depois de passarem o dia juntos, quando tudo parecia tranquilo no início da noite, um grupo de pessoas surge nas sombras, iguais a cada membro da família, nisso o que parecia ser um tempo de descanso, se torna uma batalha pela sobrevivência.

Jordan Peele escreve, dirige e produz esta sua nova produção de suspense/terror.
O diretor eleva o nível do que já havia realizado em Corra, mas desta vez parte por utilizar momentos já conhecidos do gênero escolhido a seu favor. Assim, o posicionamento de câmera faz com que as expressões fiquem em evidência, gerando uma sensação incômoda, principalmente por conta das movimentações das personagens durante as cenas de tensão. Se Adelaide está assustada, é sua doppelgänger Red que toma conta da tela, com olhos vidrados quase sempre em close.
Logo, a fotografia também enaltece a escolha de captura de Peele, deixando ambientes ainda mais escuros, com com uma iluminação lúgubre, onde apenas a silhueta de algumas pessoas são vistas. ao mesmo tempo, quando precisa adentrar a violência, o visceral, temos momentos de luminosidade, dando destaques ao colorido do vermelho, do amarelo, em escalas diferentes para dar o efeito gráfico necessário. Nitidamente vemos o crescimento do diretor, que além de destacar seus atores, consegue realizar planos abertos tenebrosos, viradas abruptas de cena, tudo isso em compasso com uma trilha sonora que abusa dos arranjos em cordas e até mesmo com um amedrontador coral.


Novamente, um dos grandes acertos está no roteiro que além de estabelecer a atmosfera de tensão necessária, consegue realizar analogias e metáforas sobre o que está em nossa sociedade.
Desta vez entendemos o que se passa na mente de quem sempre viveu a margem de um grupo superior, neste caso, literalmente. O quanto estar a sombra é prejudicial, e apenas ser espectador daqueles que alcançam privilégios e conquistas, pode modificar completamente o pensamento sobre o que é certo ou não. Encontramos nesse discurso então negros, mulheres, gays, lésbicas, pobres, imigrantes, todos juntos, de mãos dadas nessa grande fábula do terror.
E quando alguém tenta sair deste posicionamento, o trajeto tem apenas uma direção, neste caso, inferior. No espectro das figuras de linguagem, Peele ainda vai além, deixando sua protagonista, boa parte do filme algemada, demonstrando um sentimento inerente na história de quem tal personagem representa, além disso, de uma forma satírica, há novamente um ato de subversão dos filmes de terror, onde sempre a menina branca se encontra a salvo em um ambulância pouco antes dos créditos subir, aqui é completamente diferente.
Apesar de todos esses elementos empregados em um discurso que irá fazer o espectador pensar por vários dias, a produção acaba caindo num didatismo mal empregado, com um momento de "explicar o plano do mal" desnecessário, que ao longo da película, graças a suas nuances, já havia sido demonstrado. Outro ponto é o plot twist que finaliza a trama, que melhor seria empregado em outra sequência de acontecimentos, o que quebraria a linha das explicações facilitadas, mantendo o mesmo nível no decorrer da exibição.

Logicamente, estes pontos não desfavorecem o filme, que conta com um elenco capaz de causar as mais variadas emoções em seus espectadores.
Lupita Nyong'o protagoniza a produção demonstrando o quão talentosa e hipnotizante é sua presença em tela, seja como Adelaide ou a doppelgänger Red, temos uma atuação que nos faz entender o medo, a dor, a vontade de sobreviver e acima de tudo, a capacidade de insurgir.
Winston Duke faz o equilíbrio necessário para que o medo seja colocado de lado em momentos onde respirar é preciso, com um timing cômico bem empregado, o ator entrega uma atuação assertiva e divertida em meio ao caos.
E Elisabeth Moss demonstra a princípio uma personagem sem tanta profundidade, porém ao nos depararmos com um sua versão maquiavélica, somos entregues a momentos de verdadeiro medo pela figura em tela.

'Nós' utiliza do sub-gênero de monstros no terror para contar uma história capaz de nos fazer analisar quem são as pessoas a margem da nossa sociedade, o que pensam, mas principalmente, o que fariam se tivessem a oportunidade de assumir o lugar daqueles com quem se parecem.
Se Jordan Peele estabelece um feito nesta produção é que o cinema de horror, como o conhecemos, jamais será o mesmo após suas obras estrearem no cinemas, tornando-as até mesmo uma tendência a ser copiada por alguns futuros e novos projetos.
Ao final, a cópia monstruosa que sempre esteve a sombra quer realmente ganhar lugar de destaque, assumir o controle ou simplesmente, dar as mãos para aqueles que são iguais, os mesmos que vivenciaram o tempo de exclusão. Neste sentido, o lugar que ocupamos hoje passa ser questionado quando deixamos a sessão, nos levando a quem sabe almejar sair da margem que sempre estivemos, seja ela qual for.
Logo, enquanto termino este texto, os olhos marejados do Willian a minha frente continuam demonstrando total preocupação se esta crítica fará sentido ou não, se ela irá sair na sexta-feira ou não, ou se eu ao assumir o seu lugar, o Geek Guia continuará o mesmo. Neste caso, não sei ao certo, nem se ele chegará a ler este escrito, entretanto posso afirmar que a mesma qualidade linguística minhas palavras já empregaram!

Nota: 4,5/5 (Sensacional)
Tecnologia do Blogger.